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Crítica

American Vandal - 1ª Temporada | Crítica

Apesar de premissa absurda, mocumentário da Netflix prende espectador em trama bem construída

Rafael Gonzaga
09.11.2017
19h03
Atualizada em
29.08.2018
13h55
Atualizada em 29.08.2018 às 13h55

A Netflix fez uma aposta à primeira vista arriscada quando decidiu investir em American Vandal. Primeiro pelo fato da série ser fundamentada em uma construção satírica, ou seja, exige do público conhecimentos prévios em séries documentais - em especial Making a Murderer, um sucesso do serviço de streaming que reúne registros captados ao longo de dez anos sobre Steven Avery, um homem acusado de assassinato após passar 18 anos preso injustamente. Como o gênero documental não é algo exatamente popular, uma sátira ao formato pode acabar não fazendo tanto sentido para o grande público. Mesmo assim, a Netflix comprou a ideia e o resultado disso foi uma das suas melhores produções do ano.

Além da questão do formato, a própria premissa da série parece absurda demais e isso pode afastar outra parte do público potencial - para o azar dessa parcela dos espectadores. A trama gira em torno do documentário produzido por um jovem apaixonado por cinema chamado Peter Maldonado, vivido por Tyler Alvarez (Orange Is the New Black), sobre um caso de vandalismo que aconteceu no estacionamento de uma escola em Oceanside, na Califórnia. Lá, 27 veículos de membros do corpo docente foram pichados com desenhos fálicos e Peter, então, parte em busca da autoria do feito. A primeira impressão é de que se trata de um grande besteirol, mas, surpreendentemente, a série vai além disso.

O principal personagem do documentário de Peter é Dylan Maxwell, personificação do que se espera de um estereótipo estúpido de estudante valentão, sem excessos. Quem dá vida ao rapaz é o ator Jimmy Tatro (Anjos da Lei), que, apesar de não ser tão conhecido, revela talento nato para comédia desde sua primeira cena, quando nega as acusações de ter cometido os atos que embalam a trama. Dylan está em processo de ser expulso do colégio pelas ações que deram um prejuízo de US$ 100 mil para os professores - e o motivo disso é, basicamente, que ninguém tem dúvidas de que, entre todos os alunos, ele é a opção mais óbvia em função de seu histórico problemático.

É importante pontuar, é claro, que toda a história é pura ficção: o documentário da trama, ao contrário de suas inspirações originais - como The Jinx: The Life and Deaths of Robert Durst, da HBO, The Keepers, da própria Netflix, e até o premiado Tickled -, é falso. Os responsáveis pelo mocumentário, nome dado a esse tipo de produção, são Tony Yacenda e Dan Perrault. Os dois, em entrevista à IndieWire, contaram na ocasião do lançamento que a ideia do programa partiu de pegar o crime mais ignorável possível e tratar isso como a coisa mais séria do mundo em um formato semelhante ao já citado Making a Murderer.

O interessante de American Vandal é que, ao mesmo tempo que a série faz o espectador se divertir genuinamente com coisas que deixariam qualquer pessoa razoável envergonhada por estar dando risadas, ela também faz o público ficar realmente absorto na trama. Ainda que possa parecer difícil começar a ver o programa, é mais difícil ainda parar de assistir - não só pela comédia, mas pela busca pela resolução da coisa toda adotar trajetórias realmente interessantes. Por incrível que pareça, a série oferece entretenimento bruto e, paralelamente, acaba apresentando uma reflexão sobre os problemas do sistema educacional e da rotulação compulsória de indivíduos instituída desde a adolescência.

Por mais boba que a história pareça, ela é apresentada de forma tão verossímil que deixa quem está assistindo realmente levando a sério a apresentação de coisas como as evidências de que Dylan já possui um histórico de desenhar pênis pelo campus - documentado por dois anos pela acusação -, ou os depoimentos conflitantes, ou as novas evidências que surgem. A atração tem alguns trunfos, que vão desde prender o espectador em uma trama bizarra graças à uma boa direção até entregar uma história completamente bem amarrada, com pontas soltas resolvidas e uma reviravolta sensacional no final. Se o crime não compensa, pelo menos ver a busca pela resolução dele em American Vandal vale muito a pena.

Nota do Crítico
Ótimo

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