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Crítica

American Horror Story: Coven | Crítica

Assombrada por Asylum e por um Spin-Off iminente, American Horror Story fez sua temporada mais bem sucedida e controversa

Henrique Haddefinir
06.02.2014
01h00
Atualizada em
29.06.2018
02h24
Atualizada em 29.06.2018 às 02h24

Criador de Nip/Tuck e Glee, Ryan Murphy sempre teve ideias estranhas... Ainda que esses dois trabalhos sejam completamente paradoxais, uma olhada mais de perto vai mostrar que no mundo desse showrruner, as coisas não acontecem dentro da ordem estabelecida. Murphy é um produtor de transgressões. Sua mente funciona na base do humor provocativo e da distorção moral e visual. É como se a cabeça do sujeito estivesse transbordando de quadros bizarros e quase sempre, em sua carreira, suas séries sofreram desse excesso de digressão. Isso até chegar American Horror Story, o projeto perfeito de estímulo artístico e vertiginoso.

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A série sempre funcionou como um sonho vigiado. Desde sua primeira temporada, o show distorcia quadros, desfocava closes, misturava ângulos, tudo como num borrão lúdico que confunde pesadelo e realidade. Querendo contar histórias que formam a cultura pop do medo e do choque, Murphy e seu cocriador Brad Falchuk, resolveram trazer de volta à tona o gênero do horror, que por definição, é completamente oposto ao terror. Mais do que explorar o pânico do invisível (onde o terror se encaixa melhor), esse projeto nasceu para desafiar nossa capacidade de continuarmos com os olhos abertos. O sangue, o trash, o gore, a visceralidade das imagens sempre foram o foco de American Horror Story.

A primeira temporada chamou a atenção do público e da crítica, mas foi apenas em Asylum (título do ano 2) que a série ganhou dimensão, indo fundo nas mitologias e psiquiatrias de um sanatório dos anos 60. Essa segunda temporada foi quase uma unânimidade. O que a série oferecia era uma mistura perfeita de história ousada (porque era fechada por temporada), direção transgressora, infinitas referências e um trabalho de elenco soberbo. As qualidades de Asylum foram tão exaltadas, que a expectativa para o ano 3 se tornou incomensurável e, inevitavelmente, atingiu a individualidade e a identidade da jornada posterior.

O voodoo das expectativas

Chamada de Coven, a terceira temporada de American Horror Story começou com a maior audiência de sua existência - números que se mantiveram até o fim. Na mesma proporção da expectativa, havia a cobrança e a possibilidade de não conseguir fazer a plateia comprar as decisões estilísticas e dramatúrgicas desse ano. Ao idealizar Coven, Murphy e Falchuk defenderam um imenso risco, situando sua trama sobre bruxas numa Nova Orleans que mesmo respirando seus mitos, vivia conosco as mudanças do século XXI.

A história começa com Fiona (Jessica Lange) lutando para superar a velhice. Ela é a líder do clã residente na Academia Robichaux, em Nova Orleans, dirigida pela filha dela, Cordelia (Sarah Paulson). Fiona é a Suprema do clã, a mais poderosa, e com o passar do tempo, conforme a velhice lhe toma, seu título deverá ser passado para outra bruxa do grupo. Ela, movida pela vaidade e pelo orgulho, não quer “passar a faixa” e quando retorna para matar sua substituta, desestrutura ainda mais o já esmigalhado clã que devia estar liderando.

Quando se falou em uma temporada sobre bruxas, todo mundo esperou por Salém. Murphy, entretanto, quis ser menos previsível e situou sua trama nos dias atuais, quando a organização de um clã depende de muito mais do que “espírito coletivo”. As poucas personagens que representam o contingente da tal Academia, são moças influenciadas pelo imenso mundo de variáveis que afetam qualquer jovem que tenha aceso à TV ou à internet. As “alunas” do clã de Fiona são debochadas, problemáticas, irônicas e egoístas. Assim, com uma Suprema psicótica e com aprendizes egocêntricas, o clã não poderia estar em outro estado que não fosse o decadente.

Num primeiro momento, as estranhezas provocadas por Coven foram de ordem estética, muito antes de serem dramatúrgicas. Ryan já tinha anunciado que essa temporada seria mais leve, dentro do que o “leve” representa na mente do criador. O núcleo teen da temporada era encabeçado por uma bruxa que matava quando transava, seu parceiro ideal, então, não poderia estar vivo e logo a trama providenciou algumas doses de necromancia, dando à Zoe (Taissa Farmiga), um namorado ressuscitado. O “leve” que norteou a temporada ainda era mais pesado que muito do que estávamos acostumados a ver por aí. O problema era que os fãs sempre esperavam muito mais.

A primeira e a segunda temporada tinham tramas centralizadas: uma casa e um hospício. Já em Coven, a ação se espalhou e se ramificou. Além do clã de Fiona, havia o clã da Rainha Voodoo Marie Laveau (Angela Basset), os vizinhos religiosos, os caçadores e Madame LaLaurie (Kathy Bates), uma icônica figura da história de Nova Orleans, que torturou dezenas de negros no seu porão, e que foi situada dentro da trama da série de modo simplesmente irresistível. Mas, se nesse parágrafo parece haver informações demais, dentro do contexto dos episódios, nada era contado linearmente, nada era direto e objetivo, e muito cedo a temporada começou a sofrer críticas quanto à sua instabilidade. Sobretudo quando a Fox autorizou um spin-off e a trama precisou ser mexida para preservar núcleos e personagens (ideia que Murphy logo percebeu ser nociva para a série e abandonou).

A relação com Coven, entretanto, sempre dependeu de uma tomada de decisões. Dono de uma profunda capacidade de inserir referências e manipular mitologias, Murphy sempre teve o dom de criar subtramas e tramas que podem ser preenchidas pelo conhecimento prévio do espectador. A relação com a obra de American Horror Story sempre depende do quanto o espectador está apenas disposto a ver ou a responder ao material. O imenso número de ressuscitações inserido na trama se costurava com a prática da necromancia, altamente difundida na mitologia da cidade de Nova Orleans, mas para o espectador que quer apenas (e justamente) acompanhar uma boa história, ver gente morrendo e voltando o tempo todo não soava como referência pré-concebida e sim como covardia dramatúrgica.

É como se nessa temporada, Murphy tivesse abusado da sua capacidade de incutir cultura pop e mitológica no universo da série, sofrendo para conseguir uma costura narrativa, o que já era um resultado da descentralização da trama e da possibilidade de um spin-off. Algumas tramas e núcleos ganhavam apenas uma cena num episódio ou sofriam uma transformação rápida demais para os olhos do espectador. Coven foi a temporada do “quero mais”. Até metade do ano, os mais críticos pediam “mais disso” e “mais daquilo”, até perderem a paciência e desistirem, passando a desejar plena e unicamente, que tudo acabasse logo, para que um quarto ano chegasse e lhes reaproximasse do que foi Asylum.

Ainda assim, no meio de seu caos narrativo, Coven ainda se correlacionava com seu objetivo nuclear: contar uma história sobre um clã em frangalhos, influenciado pela existência de três mulheres nocivas (Fiona, Laveau e LaLaurie), tomadas pela sede de poder. A luta da Suprema para manter-se Suprema e o que provocou nas aprendizes a possibilidade de que uma delas seria a substituta, foi a base narrativa de Coven. E essa base manteve-se em pauta do início ao fim, foi o centro motor de tudo que aconteceu em volta, mesmo que tivesse sido eclipsada por tudo aquilo que soava pouco e pobre ao mais ansioso espectador.

O clã das Liliths

A seu favor, Coven tinha um irrepreensível elenco feminino. Assim como disse antes, uma das maiores qualidades de American Horror Story é permitir preenchimento referencial. O espectador da série está diante de um produto tão contextualizado, que informações mitológicas e midiáticas podem ser inseridas no entendimento da história ainda que elas não tenham sido sublinhadas pelo próprio roteiro. Sendo assim, ao fazer uma avaliação mais minuciosa da proposta do programa, muitos detalhes e insinuações acabam surgindo de suas obscuridades e se tornando parte do processo intelectual panorâmico.

Murphy tem uma obsessão por figuras femininas de poder. Quase sempre, as mulheres retratadas por ele são representações da rejeição que elas tem ao que foi estabelecido como “o papel da mulher na sociedade”. Coven tem uma protagonista que rejeita o tempo e a maternidade. Fiona só quer força e vida eterna. A personagem de Angela Basset é uma rainha voodoo que conseguiu o que Fiona nunca alcançou: justamente essa vida eterna. Para isso, renunciou aos seus. Essa personagem, Laveau, vingou-se de sua inimiga Madame LaLaurie condenando-a à mesma eternidade, sepultada, como um castigo pelos crimes que cometeu. LaLaurie também era uma mãe negligente, presa aos próprios impulsos psicóticos. Na Academia Robichaux a coisa não era diferente... Com apenas quatro alunas, os imensos cômodos eram ocupados por arrogância e prepotência. Madison (Emma Roberts) é uma estrela teen que sustenta todos os clichês Hollywoodianos: tem um vazio existencial constante, entregando-se aos entorpecentes e ao comportamento malicioso típicos de quem tem o mundo aos pés. Murphy não perdeu a piada, transformando Madison numa das versões ressuscitadas que frutificaram dos atos necromânticos da temporada. Uma morta-viva concreta, e não metafórica. Junto dela, Zoe (Taissa Farmiga), Nan (Jamie Brewer) e Queenie (Gabourey Sidibe). Essa última, uma “boneca voodoo” viva, que pode provocar em outros os ferimentos que incute em si mesma. Todas elas agindo paralelamente, ansiando pelo cargo de nova Suprema, compondo um quadro de transgressão do Girl Power pré-concebido.

Coven também resolveu ser uma temporada sobre magia negra. As bruxas exercem sobre a natureza, o tempo todo, um poder maldito, sujo, que jamais clareia os caminhos. As personagens mais corretas da temporada – Misty (Lily Rabe) e Myrtle (Frances Conroy) – pagaram um preço alto por suas sensibilidades e por carregarem um pouco do legado representativo de Eva. A temporada foi dominada por Liliths, aquela primeira mulher de Adão, condenada a parir demônios por se recusar a permitir que o homem deitasse sobre ela. Cada uma daquelas bruxas manipulava a natureza para os propósitos mais nocivos. Coven foi toda sobre o veneno do poder.

Além de LaLaurie e Laveau (ícones reais da história de Nova Orleans), esse terceiro ano não se privou de alguns “enfeites mitológicos”. De fato, o excesso deles e o pouco tempo de tela de cada um acabou resultando nessa sensação de frouxidão narrativa, da qual a série foi constantemente acusada. Minotauros, Axeman (um conhecido assassino serial que aterrorizou a cidade) e Papa Legba (entidade importante para a mitologia voodoo) são apenas alguns dos “enfeites atmosféricos” das quais os roteiros lançaram mão. Todos eles visando a construção ilustrativa do enredo, mas sendo cobrados pela audiência como partes essenciais de tramas que “precisavam acontecer”. A série sofreu brutalmente com cobranças de continuidade narrativa, mesmo que algumas dessas bifurcações tivessem nascido para serem apenas detalhes de composição.

O último feitiço

Ainda assim, erros foram cometidos. Não se sabe se por conta do spin-off ou simplesmente por falta de controle. Coven vivia numa profusão tão imensa de pontos de apoio, que muitas vezes a sensação era de que estávamos voltando de hiatos constantes. A trama dava saltos atrevidos, ignorava sua obrigação de exibir alguns importantes desenvolvimentos e debochava disso. Sempre oscilando entre o choque e a melancolia, era como se os episódios estivessem sempre acordando de uma overdose de comprimidos. Mas, ainda que muitas tramas tivessem demorado a acontecer, episódios como "The Head" (o nono da temporada) atravessaram a história como pequenas obras de arte.

Apenas em American Horror Story que teríamos chance de ver a cabeça decepada – mas viva – de Kathy Bates chorando comovidamente, numa interpretação poderosa de uma mulher monstruosa que, vivida por essa atriz tão incrível, conseguiu ser perigosa e carismática. Todo o universo proposto por esse terceiro ano foi pautado na histeria visual e referencial. Tivemos alguns dos momentos de horror mais clássicos de toda a história da série, ainda que a “leveza” fosse o argumento de boa parte da crítica. No conjunto da temporada, a despeito de todos os desvios, pairou determinante o legado do clã, tudo que ele era quando Fiona voltou e tudo que ele precisaria ser quando uma nova Suprema fosse eleita. Sendo assim, o season finale nos entregou um fechamento coeso, seguro, correto e muitíssimo belo. Foi como se, com as arestas todas aparadas, o último episódio nos dissesse: “sempre foi isso que quisemos dizer e sempre foi isso que esteve imerso no enredo”.

Infelizmente, para a maioria dos espectadores, a revelação das coerências da trama ficou evidente tarde demais e o surto referencial e mitológico que compôs a temporada, manteve-se com a reputação de incompetente e afrouxado do início ao fim. Para uma pequena parte dos fãs, enfim, a série apenas se propôs ao antagonismo das comparações com os anos anteriores, ousando em outras direções, pecando pelo excesso em contradição aos pecados de mínimo, que já tanto nos sufocam. Com seu bom texto, boas atuações, boa direção e ideia transgressora, American Horror Story não pode ser vilipendiada com justiça, mesmo que na minha decisão de considerá-la rica e bela, eu não possa culpar o resto dos críticos de sua visão contradita. Coven é um feitiço que não afetou a todos, mas do qual ninguém pode ser indiferente.

Nota do Crítico
Bom