Pôster de American Horror Story/ Divulgação/ FX

Créditos da imagem: Pôster de American Horror Story/ Divulgação/ FX

Séries e TV

Crítica

American Horror Story: Apocalypse

Crossover entre Coven e Murder House produz uma das melhores temporadas da antologia de Ryan Murphy

Henrique Haddefinir
16.11.2018
09h55
Atualizada em
16.11.2018
10h24
Atualizada em 16.11.2018 às 10h24

Cada temporada de American Horror Story tem sua base criativa. Murder House falava de fantasmas, Asylum de psicopatia, Coven falava de bruxas, Freak show de aberrações, Hotel reinterpretava os vampiros, Roanoke falava de tortura e Cult de histeria coletiva. Em cada temporada também víamos assuntos periféricos se distribuírem entre os plots principais. A criação de Ryan Murphy tentou cobrir o máximo possível de tópicos relacionados ao horror, mas ficou sempre faltando aquele que parecia anunciado desde que Constance (Jessica Lange) encontrou o corpo assassinado da babá de seu neto. Os fãs da antologia não poderiam esperar por resposta melhor, já que a esperada trama do anticristo viria acompanhada de um quase utópico crossover entre o primeiro e o terceiro ano.

Quando o ambicioso projeto foi anunciado parecia impossível que Murphy conseguisse trazer de volta todos os elementos das duas temporadas anteriores. Entretanto, absolutamente tudo que era relevante no universo de Coven e Murder House foi revigorado para compor o mundo de Apocalypse. A lista de astros e estrelas que voltariam para reviverem seus personagens era extensa e a expectativa em torno da história mais ainda. Sempre restrita a tramas claustrofóbicas, veríamos pela primeira vez a série acontecer numa escala global.

Seria essa, também, a oportunidade de corrigir ou reiterar aspectos dramatúrgicos das duas temporadas revisitadas. Murder House teve uma trajetória bastante coesa. Porém, Coven aconteceu em meio a muitas controvérsias. A história do clã das bruxas veio depois de Asylum, considerada por muitos a temporada de ouro da série. Enquanto a trama do sanatório era sombria e macabra, Coven era uma explosão de cultura pop, com a necromancia como um recurso que imortalizava os personagens e uma possibilidade de spin-off que começou a ditar o decorrer da narrativa, prejudicando o produto final. Acusada de ser teen demais, inconsistente demais, Coven foi a temporada que finalmente dividiu o público de American Horror Story entre aqueles que duvidavam e aqueles que ainda acreditavam nas histórias que Murphy queria contar.

Satan Ghost

Apocalypse começa literalmente com o fim do mundo. Após bombas nucleares explodirem em todo o planeta, conhecemos um grupo de sobreviventes que conseguem um lugar em alguns dos poucos postos de acolhimento do continente. Dentro do bunker estão a digital influencer Coco (Leslie Grossman), sua assistente Mallory (Billie Lourd), seu cabelereiro Gallant (Evan Peters) e a avó dele, Evie (Joan Collins). Além do grupo, estão a apresentadora Dinah (Adina Porter) e mais alguns personagens periféricos, entre eles um jovem casal que teria ganhado sua posição por terem o DNA perfeito para perpetuação da espécie. O bunker é administrado por Venable (Sarah Paulson) e Mead (Kathy Bates), que logo se revelam sádicas interessadas em transformar o lugar numa câmara de tortura.

É nesse cenário que esses sobreviventes recebem o forasteiro Michael Langdon (Cody Fern), que vem a ser ninguém menos que o filho do Rubber Man, da primeira temporada. Ou - como fica claro depois - o filho de Satan, concebido através das forças malignas presentes na casa dos assassinatos. Michael chega para dar início a seu plano de reorganização do que restou da humanidade e seu poder como anticristo fica evidente muito cedo. Como tem acontecido constantemente em produções de Murphy, a história foi organizada em blocos temporais diferentes, o que proporcionou uma condução bastante instigante do crossover. Quando as bruxas do Coven finalmente adentram a narrativa, a temporada cresce e se torna completa.

ReCoven

Foi como se Apocalypse reunisse três estéticas distintas: o retorno aos conceitos visuais das temporadas revisitadas e a própria visão artística do presente vigente na trama. Uma reprodução maior do que vimos na abertura, uma junção de três propostas se sobrepondo, o que pode parecer caótico à primeira vista, mas que graças a um bom planejamento, funcionaram harmonicamente na temporada. Os ângulos diagonais, muito inferiores e muito superiores de Murder House; o branco quase estourado de Coven, com direito a volta de sua trilha quase infantil, composta unicamente de “lá, lá, lá’s”. Todas essas visitações ao passado e a outros estilos fazem a temporada ter menos unidade visual, o que é completamente perdoado pelo que isso significa dramaturgicamente falando.

Um a um, os problemas do resultado final de Coven foram sendo corrigidos nos episódios que compunham o grande flashback que ocupou a maioria da temporada. Mortes, finais trágicos, tudo foi reconsiderado em nome do fan service, mas também a serviço de uma narrativa. O grupo de fãs que se divertiu na terceira temporada teve a chance de rever esses elementos; e o grupo que se frustrou teve a chance de assistir as coisas sendo reajustadas. Além disso, a trama envolvendo um grupo de feiticeiros serviu para adicionar bons embates protagonizados por Billy Poter, um dos feiticeiros da confraria masculina que rivalizou perfeitamente com as bruxas. É seguro dizer que essa revigoração do universo de Coven foi o grande ganho desse oitavo ano da série.

Lily Rabe, Taissa Farmiga, Gabourey Sidibe, Jamie Brewer, Frances Conroy, Emma Roberts, o clã absolutamente completo. Com Ryan Murphy tendo divulgado tão cedo que todos iriam voltar, o espectador passou a lidar com a expectativa de como seriam esses retornos. Corajosamente, os roteiros não caíram na cilada fácil de torna-los apenas frutos da lembrança e encontraram justificativas plausíveis para cada um deles. Inesperadamente, acabaram sendo as bruxas o grande trunfo de Apocalypse, sobretudo quando a segunda metade da temporada começou a colocar em risco a boa condução dos eventos.

Not Today Satan

Talvez o momento mais esperado desse ano tenha sido o episódio dirigido por Sarah Paulson. A atriz – que fez três personagens diferentes – ficou com a função de cuidar do retorno ao universo de Murder House. Para desvendarem o passado do anticristo, as bruxas visitam a residência e lá os fãs reveem todo o cast que iniciou a trajetória da série. Connie Britton, Dylan McDermott e até alguns dos fantasmas do primeiro ano reapareceram. Farmiga e Peters (que também fez muitos personagens no decorrer dos episódios) reviveram o casal inicial da antologia e é claro que o retorno de Jessica Lange foi o mais esperado e mais festejado pelos fãs. A grande musa da série retomou seu primeiro personagem e o fez com a mesma competência de sempre. Infelizmente, o trabalho de Paulson na direção e o roteiro equivocado acabaram não correspondendo aos bons momentos vistos até esse ponto da temporada.

Os problemas continuaram na reta final, quando as explicações para o apocalipse precisaram acessar os aspectos científicos. Sempre debochado e provocativo, o texto da marca Ryan Murphy flertam constantemente com a crítica ao mundo do entretenimento, ao american way of life e o faz com doses altas de comicidade e cinismo. A fórmula – sempre bem vinda – ultrapassou a referência e agrediu a evolução dos acontecimentos com uma flexibilização severa da realidade. A voz incisiva do texto da série começou a soar paródica, o que para a ilustração do caminho do anticristo resultava em deslocamento de contexto. É claro que mostrar nerds poderosos enriquecidos no Silicon Valley e transformando a própria mediocridade humana em arma é típico da voz mordaz de Murphy. Porém, o que o texto conseguiu foi se assemelhar perigosamente ao descontrole criativo de outras investidas do showrunner, como Scream Queens.

As coisas se arrumaram na reta final, com o caminho de descobertas do anticristo convergindo com a responsabilidade das bruxas em restabelecer a vida. A mitologia das temporadas revisitadas foi reverenciada de maneiras muito bonitas e apesar dos tropeços, Apocalypse conseguiu encerrar sua história com coerência. O ritmo frenético dos episódios (muitas vezes com menos de quarenta minutos de duração, sem intervalos) aumentou a sensação de que mais dez minutos em cada um poderiam ter fechado melhor as propostas narrativas. Mas, ainda assim, em retrospectiva, não foram deixadas pontas soltas. A temporada foi uma grande celebração da mitologia que se marcou na história da televisão de uma forma extremamente representativa. Não foi apenas um crossover entre Coven e Murder House, mas uma declaração de admiração entre as partes, espectadores e produtores.

Com cara de última temporada, Apocalypse também aumenta as expectativas sobre o futuro. Há muitas teorias sobre o nono funcionar como uma continuação; e é sabido que manter a identidade da antologia depende de seu elenco. Sarah Paulson e Evan Peters, remanescentes de todos anos, podem estar cansados e a ausência deles em temporadas futuras pode prejudicar a tão segura trajetória da produção nesses oito anos de existência. Apocalypse teria sido uma última temporada adequada. Mas, ao que parece, as analogias tomadas de sátira e drama que compõem o DNA de American Horror Story vão continuar no ar por algum tempo. Que seja, então, fazendo o horror de primeira qualidade (o horror categórico) que muitas vezes não lhe é creditado, mas que ela tem em profusa abundância.

Nota do Crítico
Ótimo