American Horror Story - 1984

Créditos da imagem: AHS 1984/FX/Divulgação

Séries e TV

Crítica

American Horror Story - 1984

Temporada luta contra a superficialidade de seu tema, mas ganha a batalha com pura catarse

Henrique Haddefinir
15.11.2019
12h30

“Os anos 80 estão em alta”, diz o personagem de Finn Wittrock na finale de American Horror Story 1984, depois do pedido desesperado de Montana (Billie Lourd) por notícias do mundo fora do acampamento Redwood. É a admissão derradeira de que AHS cedeu à manada e produziu ela mesma sua homenagem. A década considerada cafona e cheia de retalhos de outras épocas vive a saturação contemporânea. Mas, como era de se esperar de uma obra de Ryan Murphy, a inclusão nesse mercado de saudosismo é calculada: o horror existia antes dos anos 80, mas está nos 80 a sua expressão mais grotesca e superficial. Os filmes slasher foram a escória do cinema da época, enquanto hoje são peças cult de uma linha do tempo sangrenta. Matar, matar, estripar, degolar... Como conseguir imprimir complexidade numa natureza tão rasteira?

O horror é, por si só, dado a vazios. Nele, valem os impulsos primitivos e os instintos irracionais de sobrevivência. Vale a estilização da morte do que exatamente procurar humanidades nas vítimas. A série construiu sua reputação em cima de pequenas doses de drama, que quando unidas ao horror essencial resultavam num produto provocativo e visualmente agressivo, mas, também capaz de despertar empatia e emoção. Bruxas, vampiros, assassinos, loucos... A galeria de tipos prováveis para a exploração do gênero permitia desenvolvimentos dramáticos. Mas com slashers é como se a superficialidade fosse uma exigência para esse tipo de história. Assim, AHS viu-se compelida a “dançar conforme a música” e produzir uma narrativa-pipoca que tinha na caça aos personagens o seu grande apelo.

A escolha pelo ano de 1984 era coerente com a proposta. Sexta-Feira 13 havia estreado em 1980, mas foi somente na terceira sequência que Jason ganhou a máscara de hóquei que o tornou icônico. 1984 também foi o ano em que o Perseguidor da Noite (The Night Stalker) assombrou Los Angeles com seus crimes bárbaros motivados por coisa nenhuma. A série, então, reuniu esses dois grandes elementos na espinha da temporada, contando a história  de Jingles (John Carrol Lynch) sob a ótica referencial da história de Jason e trazendo Richard Ramirez (Zach Villa), o Perseguidor, para o centro dos acontecimentos. A ideia era recriar o universo dos Slashers sem nunca esquecer de revirar aqui ou ali, exatamente como Kevin Williamson fez com Pânico, que, para os dias de hoje, soa mais que adequado.

Madeira Vermelha

Tudo começa quando um grupo de jovens decide ir trabalhar com monitoria no velho Acampamento Redwood, onde um massacre acontecera anos atrás. Estão entre eles a mocinha Brooke (Emma Roberts), o aspirante a ator Xavier (Cody Fern), a professora de aeróbica Montana (Billie Lourd) e os amigos Chet (Gus Kenworthy) e Ray (DeRon Horton). Assim como acontece no primeiro Sexta-Feira 13, eles partem para o Acampamento e lá começam a morrer um por um. Ao mesmo tempo, a temporada introduz a história de Jingles pela perspectiva de Margaret (Leslie Grossman), que fora vítima do assassino no passado e agora estava em busca de expurgação. Ainda no acampamento trabalhavam o bem-dotado Trevor (Matthew Morrison) e a enfermeira Rita (Angelica Ross).

Assim como passou a fazer desde Roanoke, a temporada foi dividida em dois atos e o primeiro deles se passou inteiramente à noite. A primeira e única noite da maioria dos personagens foi a mais longa e também uma decisão ousada da equipe de roteiro e produção. Esses primeiros cinco episódios restringiram-se completamente ao número de corpos providenciados por Jingles, que voltava em busca de vingança. Aos poucos, algumas conexões eram reveladas e Emma Roberts (numa personagem surpreendentemente diferente de tudo que ela fizera na série) assumia a posição de Final Girl, se tornando o objetivo de todos os assassinos que desfilavam pela ação. Ao menos em primeira instância.

A partir da virada do sexto episódio, a série começa seu papel de tentar aprofundar os personagens e redimensionar seus objetivos e motivações. É aí que a história cresce, embora sempre paire a noção de que amplificar demais seria o mesmo que se afastar do subgênero que pretendia representar. Espertamente, a mitologia sobre os mortos presos a um local onde muitas tragédias tinham ocorrido faz sua nova aparição (depois de Murder House, Hotel e Roanoke) e ajuda não só no senso de continuidade, mas na expectativa para o episódio 100, que acabou não sendo o fan-service que todos esperavam. Ao passo em que avançava no tempo, a temporada também avançava nas próprias intenções, fazendo de tudo para contornar a superficialidade que tinha estabelecido antes. 

Começam assim as bifurcações nos códigos do gênero: quem era o assassino não é mais tão ruim assim, a Final Girl ganha uma deliciosa pluralidade e por aí vai... A pressa em desenvolver as novas camadas de Rita e Jingles é sentida e prejudica um pouco a credibilidade dos personagens. Mas, sabemos que em se tratando de Murphy, o plano é maior e inclui contornar todo o horror e morte com doses precisas de emoção e otimismo. E é exatamente o que ele faz. Com um final de temporada cheio de redenções e impactos emocionais, AHS 1984 joga sujo com seu espectador, emocionando com um personagem inserido no último episódio, estabelecendo laços familiares em meio a terríveis assassinatos (que incluem um perturbador esquartejamento) e tudo isso com uma trilha sonora final ostensivamente catártica. “Os anos 80 nunca morrerão”, diz Montana. Ao final, tudo funcionou como deveria funcionar. É impressionante.

Nota do Crítico
Ótimo