Clive Owen e Beanie Feldstein em American Crime Story: Impeachment

Créditos da imagem: FX/Divulgação

Séries e TV

Crítica

American Crime Story: Impeachment joga luz na maldade de Bill Clinton

Antologia continua contando histórias sobre a negligência da justiça e a inconsequência da mídia

Henrique Haddefinir
12.11.2021
09h58

Na primeira temporada de American Crime Story, as vítimas escolhidas para serem o destaque da trama não foram as que tinham sido assassinadas. Ryan Murphy e sua equipe resolveram que para que o público entendesse aqueles crimes, era preciso ver como eles foram julgados pela justiça e pela opinião pública. Assim, a narrativa também conseguiu redimir “vítimas” do pós-crime, como Marcia Clark. Na segunda temporada, o público também se deparou com uma narrativa que não era centrada na vítima principal, Versace. De trás para frente, os episódios contavam como a homofobia e a negligência social haviam facilitado a construção de Andrew Cunanan.

Dessa vez – e pela primeira vez – a vítima central é o foco da narrativa. De fato, Murphy havia desistido do tema do Impeachment de Bill Clinton algum tempo entre a produção e a exibição da temporada Versace, especificamente porque Monica Lewinsky se recusava a participar do projeto. Embora a fonte das questões técnicas fosse novamente um livro de Jeffrey Tobin, ele sabia que o escritor não tinha nenhum acesso às questões emocionais envolvidas. Os roteiristas de Impeachment precisavam entender a perspectiva de Monica e, através dela, alcançar o máximo possível do se passava pela cabeça de Linda Tripp. Quando Lewinsky voltou atrás, Murphy retomou o trabalho.

Mas, para quem não estava aqui no final da década de 90, por que contar essa história era tão importante? Bill Clinton (Clive Owen) era o presidente entre 1995 a 1997, período em que se envolveu com sua estagiária Monica (Beanie Feldstein). Assim que o caso se tornou inconveniente para ele, Monica foi transferida para o Pentágono, onde conheceu Linda Tripp (Sarah Paulson), ex-funcionária da Casa Branca e que nutria um profundo desprezo pelos Clinton.

Ao mesmo tempo em que isso acontecia, uma moça do interior chamada Paula Jones (Annaleigh Ashford) veio a público denunciar Clinton por assédio quando ele ainda não era presidente. A denúncia, por si só, era insuficiente para que os inimigos dele conseguissem derrubá-lo. Então, uma história como a de Monica seria valiosa. Monica, ingenuamente, confidenciou seu romance com Bill para Linda. Ela, então, resolveu gravar as ligações entre as duas e usar como parte do processo de Impeachment que seria montado. Quando o escândalo veio à tona, as únicas condenadas foram Monica e Linda; pela imprensa e pela opinião pública. Os Clinton (e principalmente Bill) saíram ilesos.

Frenemies

Avaliar qualquer temporada de American Crime Story depende, primeiro, de separar seus aspectos sócio-políticos do trabalho artístico. Durante muitos e muitos anos, Monica foi tratada pela mídia como a “vagabunda” que tentou destruir um casamento, enquanto as mentiras e crimes cometidos por Clinton foram ignorados em favor de uma esposa magnânima, que o perdoou mesmo sendo humilhada publicamente. O que a temporada queria como objetivo principal, era mostrar que pela perspectiva de Monica, havia afeto, amor; ainda que essas coisas tivessem nascido em bases questionáveis. Tudo fazia parte de como ela entendia o que estava acontecendo. Naquele momento nem o mundo e nem ela sabiam que Clinton era só mais um poderoso usando títulos para conseguir sexo.

A outra responsabilidade da temporada era abordar Linda Tripp de uma maneira que lhe fosse justa. Linda faleceu meses antes de a temporada estrear, mas já demonstrava preocupação com como seria retratada. Se Monica foi a “vagabunda”, ela era a “traidora”. A aparência das duas era alvo constante de piadas grotescas, do mesmo jeito que vimos acontecer com Marcia Clark na temporada 1. Contudo, essa era uma tarefa ainda mais árdua, porque Linda não colaborou com os roteiros ou livros sobre o assunto, raramente dava entrevistas e nunca teve um reencontro com Monica para que ambas falassem do assunto. Murphy não queria absolvê-la da traição, mas tentou pelo menos explicá-la. E conseguiu.

Pela primeira vez na história da antologia, os criminosos estão em segundo plano, e acompanhamos – muito de perto – como Monica se revira para entender essa relação extremamente sexual que ela teima em romantizar e como Linda luta entre os sentimentos maternalistas que nutre pela amiga e o senso de responsabilidade que ela diz a si mesma que está colocando à frente dos próprios interesses. Bill e Hillary (Edie Falco) ficam no background por bastante tempo e não há interesse algum em humanizá-los. Não são eles que precisam de redenção e a série deixa isso muito claro.

Immoral Office

É difícil dizer se Impeachment foi uma temporada calculadamente mal divulgada pelo FX, mas é muito possível que apesar da ousadia em produzi-la, houvesse um receio em promover aquilo que seria um ataque direto ao ex-presidente Clinton. A equipe de roteiristas é justa com Hillary e dá a ela um episódio para que parte de suas motivações sejam compreensíveis. Mas, o tratamento com Bill é brutal. Ele surge como um predador quase surrealista, um mentiroso compulsivo e absolutamente autocentrado. No decorrer dos episódios o texto desce alguns tons, mas mesmo com o esforço de Clive, o Bill Clinton dessa temporada é um homem sem nenhuma capacidade de entender o mal que representa.

Os episódios seguem o mesmo ritmo das temporadas anteriores, longos, muitas vezes centrados num único núcleo, alternando a extrema atenção ao trabalho dos atores com a preocupação em não perder de vista o aspecto crítico. O episódio todo centrado nas horas em que Monica foi mantida presa num quarto de hotel, logo após ser traída por Linda, foi um exemplo do nível de segurança que os roteiros de ACS costumam demonstrar. A reprodução de momentos sexuais entre Bill e estagiária foi descartada na maioria, mas os detalhes foram mantidos nas sequências jurídicas. Uma decisão que, ainda que proteja Monica, não esvazia credibilidade.

Beanie tomou uma decisão quando começou a empreitada de interpretar Monica: ela queria defendê-la. Então, a Monica da ficção abre pouco espaço para questionamentos, ainda que os aspectos embaraçosos de si mesma ainda estejam ali. Já Sarah Paulson é um fenômeno em cena. Linda não vai produzir o mesmo hype que Marcia Clark, mas o trabalho da atriz como é, em vários aspectos, superior ao da primeira temporada. Caracterizada, Sarah pesou o corpo, a voz, encontrou a expressão, encontrou a névoa que passa pelos olhos de Linda toda vez que ela pensa sobre o que está fazendo com Monica. É um trabalho irretocável (e em muitos momentos, comovente).

E por fim, como sempre, o texto de American Crime Story rasga o último episódio com aquilo que a nação norte-americana mais quer ignorar: a própria maldade. Hillary Clinton, que perdoa o marido para promovê-lo, posa para a Vogue. Paula Jones, que foi ludibriada pelos próprios advogados e pelo marido que nunca acreditou de verdade que ela era uma vítima, posa para a Penthouse para sobreviver. Num outro momento, Ann Coulter (Cobie Smolders) resume a tragédia numa conversa frívola de bastidores: “Se Clinton se candidatasse novamente hoje, venceria. Hillary, totalmente vazia de carisma, está mais popular que nunca. Nós mostramos para esse país exatamente quem eles eram; e o país respondeu ‘sim, e podemos ter mais um pouco?’”. 

American Crime Story
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Nota do Crítico
Excelente!

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