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Crítica

Altered Carbon - 1ª Temporada | Crítica

Série da Netflix é um raro prato cheio para os fãs do cyberpunk

Arthur Eloi
02.02.2018
11h56
Atualizada em
02.02.2018
13h00
Atualizada em 02.02.2018 às 13h00

Cyberpunk é uma aposta arriscada. Mesmo tendo um público considerável, são raros os casos em que representa sucesso financeiro. Nem mesmo Blade Runner, a adaptação de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? que é referência absoluta do gênero, escapa, acumulando dois fracassos de bilheteria (o original de 1982 e a continuação, Blade Runner 2049, em 2017). O histórico não impediu que a Netflix apostasse todas as suas fichas em Altered Carbon, primeiro grande lançamento original do serviço de streaming em 2018.

Adaptação da obra de Richard K. Morgan, a trama é ambientada em um mundo futurista onde a consciência humana é armazenada em pequenos implantes - chamados de Stacks - que podem ser transferidos de um corpo para outro, efetivamente inutilizando a morte e reduzindo o corpo humano a um receptáculo. É nesse contexto que surge Takeshi Kovacs (inicialmente interpretado por Will Yun Lee), um rebelde insurgente que é revivido 250 anos após sua morte em um novo corpo (Joel Kinnaman) para investigar o misterioso assassinato do milionário imortal Laurens Bancroft (James Purefoy).

Eventualmente o caso se revela como parte de algo maior, e é aí que o seriado brilha. Mesmo em uma cidade vibrante e colorida, a série foca na problemática vida da superfície, repleta de crime e sujeira. Usando o assassinato como ponto de partida, a narrativa mostra um mundo onde a ausência da mortalidade indica a perda da humanidade, agravando as diferenças sociais e econômicas e criando uma verdadeira guerra silenciosa - porém muito violenta - entre as várias camadas da sociedade. Esses são elementos característicos do gênero, mas que frequentemente são apenas jogados de plano de fundo em obras que se apropriam da estética neon e seus carros voadores. Altered Carbon não comete esse erro, e sim investe em colocar as questões trazidas pela “alta tecnologia e baixa qualidade de vida” no holofote. É universo cyberpunk fiel, ou seja, o mais imundo e brutal possível.

Muitos temas são explorados: os desejos pervertidos dos ricos, os efeitos da imortalidade na mente e na ética, a evolução das inteligências artificiais e da realidade virtual, ou a novas facetas da religião e a relação dos fiéis com o mundo moderno, na forma de um Neo-Catolicismo. Diferentes perspectivas e a exploração da condição humana são o ponto-central de cada capítulo, somando cerca de dez densas horas de conteúdo que passam a sensação de uma sociedade real, profunda e problemática.

O único problema talvez seja no desenvolvimento das tramas. O roteiro introduz personagens e histórias inéditas a todo momento, mas apanha um pouco para fechar todos os arcos de forma digna. Frequentemente, uma pista que é investigada e evolui para algum cenário interessante é concluída com alguém recontando os eventos ou explicando suas motivações, como o filho declarando que cometeu erros ao tentar conquistar o respeito do pai. Pelos fins anti-climáticos, falta de foco no caso principal - que é até esquecido por alguns capítulos - ou apenas por explicar as resoluções ao invés de dar pistas para o espectador decifrá-las sozinho, fica claro que Altered Carbon não se preocupa tanto com o lado detetive noir da coisa

Quando se trata do visual, é o contrário. O programa preza pela sua apresentação estética a todo minuto, seja nas cenas que mostram o cotidiano nas ruas banhadas por neon, as comunidades ricas nos céus ou os hologramas de inteligências artificiais. A qualidade impressiona, e talvez seja o melhor série original da Netflix nesse aspecto: não há nada como o Demogorgon de computação gráfica destoante da primeira temporada de Stranger Things, por exemplo.

Não é certo se o seriado vai superar a “maldição” financeira do cyberpunk, mas isso não torna menos impressionante o nível de detalhe, profundidade e qualidade que a Netflix investiu em uma série do gênero. Com ótimas atuações, boa ação e um universo interessante pedindo para ser explorado, Altered Carbon é um dos raros pratos cheios que os fãs recebem apenas de vez em quando. Melhor aproveitar enquanto ainda está quente, pois é bem possível que não exista outro tão cedo.

Nota do Crítico
Ótimo