Imagem de AJ and the Queen

Créditos da imagem: AJ and the Queen/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

AJ and the Queen - 1ª temporada

Estrelada e escrita por RuPaul Charles, AJ and the Queen é confortável como um filme da Sessão da Tarde. E apenas isso

Henrique Haddefinir
13.01.2020
18h39

Sempre que algum apresentador, cantor ou celebridade que não está diretamente ligado a área da interpretação faz um filme é controverso, porque a ideia de vitrine se sobrepõe aos objetivos dramáticos. Filmes de cantoras são típicos nesse sentido: Spice Girls, Madonna, Britney Spears, Katy Perry... Todas fizeram seus longas, mas eles não eram dramaturgia exatamente e sim uma forma de divulgar música e criar referências pop involuntárias. Além disso, sempre que alguma dessas pessoas aparece na tela, é extremamente difícil para a plateia fazer a separação definitiva entre a simples celebridade e o personagem.

RuPaul Charles não só é a drag queen mais famosa do mundo, como também é a dona e apresentadora do reality show mais bem sucedido dos últimos anos. RuPaul’s Drag Race começou como uma produção obscura e ficou três anos no ar sendo conhecida basicamente apenas pela comunidade gay. A partir do ano 4 a luz começou a entrar e hoje o programa já venceu Emmys, é visto por todo tipo de público e fez de suas participantes estrelas ao redor do mundo. RuPaul virou uma instituição pop e sua imagem está imensamente ligada à figura quase imóvel e reluzente atrás daquela bancada.

AJ and the Queen já nasceu em desvantagem. Além de precisar convencer com RuPaul no lugar de protagonista, a série também precisava enfrentar a crescente onda de rejeição à apresentadora que, com o sucesso do reality, também entrou na mira do ódio virtual. Sua presença na série levanta a pergunta inevitável: se não fosse RuPaul como Ruby Red, a série seria melhor aceita pelo público e pela crítica? Possivelmente pela crítica, já que, para o público, na mesma proporção em que RuPaul causa controvérsias, ela também atrai atenções. Ser um conhecedor da Drag Race é boa parte do caminho de popularidade da produção. Por mais contraditório que pareça, a série tem sua força exatamente onde está sua fraqueza.

RuPaul criou e escreveu AJ and the Queen ao lado de Michael Patrick King, que foi o showrunner de Sex and the City nos seus anos de auge e também o roteirista dos dois filmes. King sabe dramatizar Nova York e seus personagens, o que também acaba atraindo uma outra parcela do público, que procura pela leveza e humor dos episódios da série de Carrie e suas amigas. A dupla claramente procurava por uma união de expectativas, dando ao público esse humor e leveza; e também o universo gay e drag que faz parte do legado de RuPaul. Podemos dizer que em parte eles alcançaram seus objetivos. AJ and the Queen não é um primor de roteiro, mas diverte entreatos.

Did she fuck it up?

A história da série é extremamente simples e que repete muitas fórmulas eficientes em filmes para a Sessão da Tarde. Uma drag queen experiente que juntou dinheiro a vida toda para comprar a própria boate é enganada pelo namorado e perde tudo. Ela, então, precisa cair na estrada para uma turnê e ganhar dinheiro para continuar vivendo num minúsculo apartamento, com seu amigo cego Louis (Michael-Leon Wooley). A vida de Ruby Red, a drag queen, muda quando AJ (Izzy G.), com apenas 10 anos de idade, se esconde em seu trailer para tentar chegar ao Texas e ficar com o avô, na esperança de que sua mãe viciada em drogas se junte a eles.

É um roteiro absolutamente recorrente; e seus criadores sabem disso. De fato, muito do que se vê em AJ and the Queen parte dos guias artísticos de RuPaul, que sempre pregou em seu programa que a vida não fosse tão levada a sério e que os princípios visuais do estilo “camp” fossem levados para a rotina. Tudo que é “camp” pode ou não, dar ao exagero, ao brega, um mínimo raciocínio criativo. A série segue a risca essa diretriz, tentando manter em pauta que o sofrimento dos personagens é real, mas tentando sempre ser otimista e tolo, do contrário não teríamos Tia Carrere como uma vilã que usa um tapa-olho ou Jane Krakowski sendo hilária ao viver uma dona de casa milionária do Texas.

Num primeiro momento, antes de começar a road trip, a série se atrapalha um pouco na construção do enredo. Não há muita verossimilhança na forma como Ruby é enganada mesmo sendo tão experiente. Além disso, mesmo que tenha trocado a peruca loira por uma ruiva, demora para que a imagem quase petrificada de RuPaul se desligue de nossa mente. Por isso, também, os momentos em que ele está desmontado funcionam melhor. A turnê, enfim, é o que começa a divertir o espectador, com cada episódio numa cidade diferente e uma infinidade de drags conhecidas do reality para contracenar nas loucuras de bastidores.

Aí esbarramos numa questão que talvez seja o grande ganho de AJ and the Queen. Uma drag e uma criança de dez anos estão juntas o tempo todo, passando por boates, conhecendo criminosos, bêbados, drogados... Mas, o humor da série é ingênuo, a despeito de todo o universo que o cerca, porque Rupaul, de algum jeito, queria alcançar o máximo possível de espectadores para uma história que ele julga ser capaz de sensibilizar e transmitir a mensagem de amor, repetida três vezes a cada novo season finale de seu programa.

Não sabemos se a Netflix dará ao seriado uma chance de continuar, apesar do gancho que encerra a temporada. AJ and the Queen não passa em nenhum crivo de roteiro, tem atuações regulares e direção apenas correta. Mas, a série tem na interação entre Ruby e AJ um lugar confortável, aquecido, que nos fazem torcer pela produção, mesmo que ela não seja perfeita. Com pitadas de To Wong Foo (1995), Miss Simpatia (2000), Café da Manhã em Plutão (2005) e todos aqueles filmes igualmente açucarados e catárticos, que nos levam para um lugar de leveza que acaba transcendendo exigências, a série tem um espaço para felicidade e contentamento. Ela é um exemplo definitivo e maior do puro guilty pleasure.

Nota do Crítico
Regular