A Very English Scandal

Créditos da imagem: A Very English Scandal/BBC/Divulgação

Séries e TV

Crítica

A Very English Scandal

Minissérie da BBC traz Hugh Grant de volta a TV e reconta um escândalo britânico com ritmo ágil e um inesperado humor

Henrique Haddefinir
12.02.2019
15h17

A história do parlamentar Jeremy Thorpe (Hugh Grant) não é diferente de muitas histórias de clandestinidade amorosa entre homens, que resistem ao tempo independente dos progressos alcançados pela comunidade LGBT. Para a vida pública, a revelação da homossexualidade ainda é um problema. Rick Martinpor exemplo, passou décadas negando que era gay e só veio a público com sua verdadeira orientação depois de já estar numa posição de soberania na própria carreira. Atores, atrizes, cantores... Essas são posições que exigem heterossexualidade principalmente porque o apelo sexual perante o público é parte do negócio. Entre os políticos as razões para o armário são ainda mais objetivas: uma reputação moral pode garantir muitos e muitos anos de uma sólida trajetória.

Na primeira cena do primeiro episódio de A Very English Scandal, Thorpe tem uma conversa emblemática com um amigo que está na mesma posição que ele: ambos têm vidas homossexuais secretas. Os britânicos, famosamente discretos e contidos, tem sua forma polida de lidar com as próprias emoções. Então, lá estão aqueles dois homens, quantificando em porcentagem o quão cada um deles é gay, contando mentiras um para o outro, e certos apenas de uma coisa: não há a menor possibilidade de que se revelem para o mundo espontaneamente. Para eles, e para aquela fatia da sociedade dominante, não há espaço para assumir a naturalidade, não se ela tivesse qualquer traço marginal.

A produção histórica da BBC tem uma missão curiosa: levar ao público a um grande escândalo, que poderia ter envolvido mortes e grandes tragédias, mas que realmente só é prejudicial para aqueles que tinham uma orientação sexual para esconder. A história de Thorpe é simples: ele começa um relacionamento com um jovem aspirante a modelo e consegue mantê-lo em segredo por muito tempo. Quando a ascensão da carreira se torna iminente, ele é aconselhado a impedir de qualquer maneira que a história dos dois venha à tona. A esdrúxula tentativa de assassinar Scott (Ben Whishaw) resulta em uma denúncia e o mundo finalmente descobre a verdade sobre o promissor parlamentar.

Dirigida por Stephen Frears (A Rainha, Victor e Victória), a minissérie tem apenas três episódios e um ritmo surpreendente ágil para uma produção que encara uma época em que a homossexualidade tinha acabado de ser descriminalizada. Produções de época, com grandes atores, um diretor altamente premiado - era de se esperar um uma narrativa lenta, hiper detalhista e cheia de interpretações visceralizadas. O grande diferencial de A Very English Scandal, então, é justamente sua natureza pop, que não se leva a sério demais, embasado pelo fato de que, no final das contas, esse é um escândalo que não resulta em fatos trágicos; e é protagonizado por um homem que quase faz de seu "armário" um rastro de sangue. Esse é o ponto, Jeremy não é um mocinho injustiçado pela sociedade que tem motivos para se esconder, mas não tem o direito de matar.

A figura de Scott também é controversa e muitas vezes vivida de modo quase caricato por Whishaw . Há um certo humor nos episódios e em grande parte isso se deve a ele, se não pelas caras e bocas, pelas saídas "bordonescas" que o roteiro reforça, como a insistência do rapaz em afirmar que só queria um cartão do seguro social e que nem isso Jeremy conseguiu lhe dar. É claro que a história poderia ser muito trágica caso a tentativa de assassinato tivesse sido bem sucedida, mas a narrativa dá aos fatos um tom farsesco, como se estivéssemos assistindo a uma trupe de palhaços enrolados no próprio número.

Hugh Grant alcança perfeitamente a proposta da produção e não vilaniza e nem protege o personagem. Por ser uma história sem extremos sangrentos, as viradas se focam muito na exploração da verdade sobre Jeremy e o romance com o rapaz. O humor, então, entra em cena novamente e mesmo que o nível de exposição seja máximo, é impossível não rir das descrições de ato sexual que Scott dá em seus depoimentos. O estranho e ligeiro julgamento dos envolvidos poderia ser tenso, mas a abordagem da direção se mantém na comicidade, deixando mais leve a evidência do preconceito e discriminação que assolam as nações - seja nos anos 70 ou nos anos 2000. Se essa é a melhor saída, não é possível dizer com certeza, mas A Very English Scandal se mantém como uma produção muito correta e polida, verdadeira e inesperadamente engraçada.

Nota do Crítico
Ótimo