Foto de A Catedral do Mar

Créditos da imagem: A Catedral do Mar/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

A Catedral do Mar - 1ª temporada

Nova aposta da televisão espanhola para seguir o sucesso de A Casa de Papel ganha em produção, mas perde em dramaturgia

Henrique Haddefinir
24.01.2019
12h30

Quando La Casa de Papel começou a se popularizar uma pequena análise das razões apontou um caminho muito claro: a série poderia ser considerada aquela que mais "americanizou" suas raízes, contemplando o público com um modelo com a qual ele está muito acostumado. O ritmo era frenético, cheio de reviravoltas e não devia nada a produções estadunidenses como 24 Horas. Além disso, os protagonistas estavam na linha de frente do que tem apelo com o público contemporâneo: eram criminosos, violentos, questionáveis, mas com fundamentações humanas, capazes de causar empatia com a audiência.

La Catedral Del Mar (que tem esse título semelhante propositadamente) veio como uma outra "super-produção", pautada também em códigos conhecidos do grande público, mas com uma natureza menos contemporânea. Tanto uma quanto a outra foram criadas para serem apenas minisséries, mas partindo do princípio de que La Casa de Papel conseguiu uma injustificável nova temporada, La Catedral Del Mar também pode ter a mesma chance. A questão é que o que separa essas possibilidades de futuro são as possibilidades de sucesso. Uma se tornou um fenômeno rápido, mas a outra não parece capaz de ganhar o mundo com a mesma intensidade.

Enquanto A Casa de Papel tinha uma estrutura episódica muito bem formatada quando chegou ao Netflix, A Catedral do Mar já tem menos dessa identidade seriada. Sua forma e conteúdo lembram muito mais as minisséries tanto brasileiras quanto americanas, daquelas que falam de longas sagas, baseadas em muito sofrimento e superação, como Queen, de 1993, estrelada por uma desconhecida Hale Berry e que chegou a ser exibida com muito sucesso na TV aberta nacional. Além de muito longa, esse tipo de história também flerta diretamente com os folhetins e seus amores impossíveis, famílias inimigas, vilões desalmados e planos de vingança. Colocando as coisas assim fica fácil entender porque A Catedral do Mar pode não ter o retorno que esperava.

Soap Opera espanhola

A história de A Catedral do Mar unifica aspectos históricos importantes e interessantes não só da construção da catedral como da própria Espanha. Ildefonso Falcones, autor do romance que deu origem a série, foi buscar a perspectiva do camponês, intimidado e oprimido pelos senhores feudais que sentiam-se no direito de invadir propriedades e acabar com as vidas dos povos da região. É no casamento de Bernat Estanyol (Daniel Grao) que ele conhece essa desgraça, quando sua esposa é estuprada, agredida, antes mesmo do casamento ser consumado. O casal tenta viver depois do trauma, mas o nascimento de seu filho adianta outra tragédia e Bernat se vê obrigado a fugir para Barcelona, onde passa a viver como empregado da própria irmã, tentando o que pode para cuidar do pequeno Arnau (Aitor Luna, na fase adulta).

É aí que a história começa suas correlações históricas com as mudanças sofridas pela cidade depois que a burguesia começa a crescer vertiginosamente. A construção da catedral é acompanhada de perto pelo menino Arnau, que também projeta em Santa Maria a imagem da própria mãe, que ele nem mesmo chegou a conhecer. Cada pedra carregada para a construção da igreja é um passo na direção do futuro da trama, que avança muito, muitas vezes no mesmo episódio, levando a trajetória dos personagens até uma outra seleção de extremos. A vida em A Catedral do Mar não é nada fácil para quem faz parte dela.

A primeira metade da temporada fica nesse estabelecimento da vida de Bernat e Arnau nos arredores da cidade. A família do fugitivo não é nada aprazível e como costuma acontecer em todo tipo de trama dessa natureza, intrigas são armadas para enfraquecer a segurança de pai e filho na história. Após alguns episódios já fica claro que eles vão continuar enfrentando provações, até que um pequeno bálsamo venha e tudo comece a dar errado novamente. Funciona exatamente assim, até que a outra metade da temporada avança e então a vida de Arnau começa a parecer menos uma obra literária elegante e bem fundamentada, e mais uma novela descarada, com direito a todos os artifícios mais cansativos da teledramaturgia recente. Os roteiros ainda investem corretamente em arcos históricos importantes como a peste, a inquisição, as guerras... Mas, tudo fica meio nublado por conta das reviravoltas cheias de clichês. O elenco, contudo, ajuda na verossimilhança dos personagens e é um ponto alto do resultado final.

Alguns textos por aí fazem uma correlação entre a série e Game of Thrones, mas a discrepância é gigante. A Catedral do Mar é muito bem produzida e ambientada, mas suas pontas textuais não tem complexidade suficiente para sustentar essa comparação (e isso considerando que a própria Game of Thrones não é tão complexa assim). Além disso, tudo termina com um fechamento muito claro e sugar mais enredo seria absolutamente desnecessário. Mas, tudo é possível quando o assunto é lucro. Se A Catedral do Mar voltar a ser explorada, é melhor que ela busque ser mais que uma requentada telenovela.

Nota do Crítico
Bom