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Crítica

9-1-1 - 1ª Temporada | Crítica

Personagens carismáticos e bom texto marcam a primeira temporada do “pseudo-procedural” de Ryan Murphy

Henrique Haddefinir
01.04.2018
17h23
Atualizada em
02.04.2018
06h06
Atualizada em 02.04.2018 às 06h06

Ao contrário do Brasil, o serviço de emergência dos EUA tem apenas um número que pode ser acessado não importando se você precisa de um policial ou de um bombeiro. O 911 funciona muito bem desde 1968 (quando tornou-se unificado) e recebe mais de 600 mil chamadas por dia, o que já o identifica como um serviço no qual a população acredita e investe. As ligações – que são gravadas automaticamente – são usadas como evidências judiciais e já ajudaram a resolver crimes. O trabalho dos atendentes e dos profissionais para as quais são transferidas as chamadas precisa ser uníssono. Olhando pela perspectiva do quanto esse tipo de serviço público nutre e propaga grandes histórias, era de se estranhar que nunca tivessem feito uma série sobre isso.

Ryan Murphy não começou na TV com um procedural, mas foi com Nip/Tuck que ele começou a chamar atenção na indústria. A série era sobre dois cirurgiões plásticos inescrupulosos e embora suas vidas pessoais fossem parte importante dos episódios, a cada semana chegavam novos casos, o que fez com que a série ganhasse um lugar no hall dos “pseudo-procedurais” imortalizados pelo que Shonda Rhymes propôs com Grey’s Anatomy. A fórmula sofreu uma mutação natural e quase todos os trabalhos que propõem interações sociais transitórias não falam somente dos casos que se encerrarão ainda naquele episódio.

showrunner uniu-se a seu companheiro Brad Falchuk e também ao roteirista Tim Minear e os três decidiram entrar no mercado das “séries que se apoiam em serviços públicos essenciais”. 9-1-1 tem histórias muito bem desenhadas em torno de seus personagens centrais, mas o nó dramático que inicia tudo acontece quando Abby (Connie Britton), uma atendente do serviço, mais velha, que dedica sua vida a cuidar da mãe doente, encontra no meio de um atendimento o afoito Buck (Oliver Stark), um jovem bombeiro, apaixonado pela profissão, cheio de anseios, com quem ela desenvolve ela uma relação não-presencial de extrema compreensão mútua.

What’s Your Emergency?

Séries com profissionais da polícia ou dos bombeiros não são novidade nenhuma para o espectador. As fórmulas desses tipos são sempre iguais, mas eles podem sempre oferecer alguma coisa que respire diversidade. Com um trabalho de Murphy isso acontece naturalmente, então para que a série não seja só sobre a fórmula, ele incute em seus protagonistas algumas calculadas problematizações. Peter Krause é um capitão cheio de segredos, Angela Bassett é uma policial que acabou de descobrir um grande e importante segredo do marido e Aisha Hinds vive uma bombeira que tem como lema de vida superar o passado.

É muito satisfatório ver como a temporada evidencia seu planejamento, estudando seus personagens, mas tentando salvar todos eles do lugar-comum, mesmo que a proposta das histórias seja previsível. Num primeiro momento a série surpreende com um nível de diversidade nas tramas. Os procedurais (que antes tinham que levar em consideração que tinham 22 episódios no ano) agora experimentam sua porção contemporânea e podem se dar ao luxo de terem apenas 10. Isso aumenta expectativas e a maior crítica a 9-1-1 está justamente na segmentação de alguns desses poucos episódios, aprisionados em imposições temáticas como lua cheia karma. Deve haver uns 100 casos de séries que usaram esses mesmos signos.

Seria injusto, contudo, atribuir qualquer crítica severa. 9-1-1 é extremamente bem produzida, ambientada e roteirizada. O texto é cuidadoso ao falar de alcoolismo, suicídio, homossexualidade e alguns outros temas que podem jogar qualquer produto no abismo da breguice e que nesse caso, sustentam-se de forma muito profissional. Alternando entre choque e leveza, a série usa os personagens fixos como arautos que discutem aspectos muito sérios de suas próprias vidas inventadas, justamente porque elas se correlacionam com as do público.

A forma como a história de Abby e Buck evolui é romântica e também engajada. Peter Krause se esforça para delinear as complexidades brutais que constituem a vida de Bobby. Angela Bassett está numa trama onde um homem casado sai do armário, mas a voz que precisa ser ouvida, nesse caso é a dela... São os personagens que alimentam a essência da série; e justamente por causa disso é que quando emergências precisam ser atendidas, é possível entreter o público de verdade. Mesmo que a construção de algumas tensões tenham sido discretas, o último episódio mostrou que foram muito eficientes.

As vidas dos personagens estavam tão mexidas que eles próprios gostariam de ligar para o 9-1-1 para pedir ajuda. Eles atendiam emergências, mas também eram uma. Quando o segundo ano começar, a expectativa é que todo o processo de socorro pelo qual passa a trama faça de 9-1-1 uma pequenina e desatendida pérola da teledramaturgia.

Nota do Crítico
Ótimo