Foto de 3%

Créditos da imagem: 3%/Netflix/Reprodução

Séries e TV

Crítica

3% - 3ª temporada

Série mantém evolução do segundo ano e se encaminha para um grande final

Camila Sousa
07.06.2019
12h32

Ser a “primeira série brasileira original da Netflix” colocou um grande peso nas costas de 3%. Em sua primeira temporada, a série dividiu opiniões no país, mas fez um grande sucesso fora, mostrando que a alta expectativa do público nacional pode ter atrapalhado na experiência. De qualquer forma, o seriado evoluiu bastante no segundo ano, aumentando o número de locações e complexidade da história, e isso permanece na terceira temporada, já disponível no serviço de streaming.

Michele (Bianca Comparato) realizou o sonho de uma das fundadoras e fez a Concha, uma alternativa ao Maralto e ao Continente. Neste local, há um trabalho em conjunto para fazer algo bom para todos, em uma utopia que reflete bastante a ideia inicial do próprio Maralto. Como mostrado na temporada anterior, os fundadores queriam que o local tivesse um nível impossível de perfeição, após todos os problemas do Continente. Mas claro que, para a narrativa ter camadas profundas, o sonho da Concha é ameaçado logo no começo, fazendo com que Michele tome uma decisão extrema: é necessário selecionar quem ficará ou não no local.

Desta forma, a terceira temporada de 3% espelha de forma muito inteligente a primeira para brincar com a percepção do público sobre “certo” e “errado”. De repente, o demonizado processo feito pelo Maralto se repete, ainda que com outros contornos, na Concha. E assim como aconteceu com os fundadores, a série apresenta o que há por trás de tudo e como, muitas vezes, quem faz a prova também sofre com seus resultados. Esse tipo de construção faz de 3% uma série muito mais interessante do que era previsto no começo. Fica a impressão de que a produção perdeu o medo de apostar em histórias complexas e, assim, se tornou muito mais madura.

Outra característica interessante é o uso de flashbacks para contar pontos da história. Isso está presente desde o começo da série, mas aqui fica ainda melhor. Há um claro salto de tempo depois que a Concha é formada, que une personagens de diferentes núcleos. No começo é confuso, porque parece que a série esqueceu de contar uma parte da história, mas todas as tramas ganham espaço em flashbacks muito bem encaixados. Ao fazer isso, 3% entrega um amadurecimento sólido de seus personagens, com destaque para Marco (Rafael Lozano) e Rafael (Rodolfo Valente, em uma ótima temporada).

A jornada de Joana merece um comentário à parte. Com uma excelente atuação de Vaneza Oliveira, o seriado continua mostrando a personagem forte, que desconfia de todos os “salvadores”, incluindo Michele, mas a terceira temporada dá outros contornos a Joana. Apesar de incrédula, ela se surpreende ao conhecer a Concha e fica realmente apreensiva com as provas do “novo Processo”. Joana também se deixa, finalmente, levar pelos sentimentos e aceita o amor quando ele aparece em sua frente. É uma mudança que leva tempo e é construída ao longo de muitos episódios, mas faz da personagem uma das mais verdadeiras de toda a história.

Infelizmente o mesmo não pode ser dito de Bianca Comparato no papel de Michele. Enquanto seus companheiros de tela parecem completamente à vontade com seus personagens, a fundadora da Concha ainda soa artificial e não entrega as cenas grandiosas que poderia ter. Michele passa por muitos altos e baixos durante o terceiro ano: ela vê o sonho da Concha não sair como esperava; cria um “Processo” praticamente contra sua vontade; vê como as pessoas que antes a amavam começam a odiá-la rapidamente, etc. A personagem fica solitária em muitos momentos e tinha a oportunidade de entregar grandes cenas de introspecção e reflexão. Há uma tentativa disso quando ela repete várias vezes que “nenhuma seleção é justa”, mas a fala não sai natural.

Ao espelhar temas da primeira temporada, 3% entrega em seu terceiro ano a mensagem de que a história é cíclica e, apesar de pontos diferentes, está fadada a se repetir. A mudança de rápida de opinião dos moradores da Concha mostra o quanto a humanidade sempre está vulnerável ao discurso de “grandes salvadores”. Com tanta profundidade em seu texto, o seriado deixa de ser apenas a “primeira produção nacional da Netflix” e encontra seu espaço. O encerramento da terceira temporada indica um conflito futuro que provavelmente encerrará as histórias de Michele, Joana, Marco e vários outros. Se continuar com a coragem mostrada até aqui, 3% tem tudo para terminar muito bem e passar uma mensagem realmente importante ao seu público.

Nota do Crítico
Bom