Séries e TV

Crítica

3% - 2ª Temporada | Crítica

Série deixa de lado cautela de principiante e ganha concretude na hora de expandir universo devastado pela desigualdade

Rafael Gonzaga
27.04.2018
18h49
Atualizada em
05.05.2018
11h00
Atualizada em 05.05.2018 às 11h00

Se a primeira temporada de 3%, uma atração em um formato pouquíssimo convencional em comparação com o cenário audiovisual nacional, estreou com uma pressão descomunal, a segunda conseguiu levar isso a um nível ainda mais alto. Isso porque todos os problemas do primeiro ano foram argumentados pelo provável investimento cauteloso no projeto, já que era difícil prever a aderência do público. A confirmação da segunda temporada foi um sinal de que a série foi bem o suficiente para justificar um aumento de orçamento, algo que, de fato, fica nítido desde os primeiros minutos da nova remessa de episódios. Pedro Aguilera, criador e showrunner da atração, prometeu em entrevistas voltar maior no novo ano - e cumpriu isso com êxito.

Se a primeira temporada foca nas contradições e desdobramentos de uma seleção desumana que escolhe os poucos merecedores de um mundo perfeito enquanto o restante segue relegado à miséria, a segunda expande os mundos que orbitam ao redor desse processo. Há um nítido investimento em cenários, figurinos e efeitos especiais na hora de dar vida tanto ao precário Continente quanto ao utópico e paradisíaco Maralto. Muito da parte gráfica da série melhora e talvez isso esteja ligado a mudanças no corpo técnico da produção, como a saída do diretor Cesar Charlone do projeto.

O roteiro da série, de modo geral, cresceu e entregou dez episódios dinâmicos e bem distribuídos - o programa não estende suas narrativas além do necessário, não deixa o espectador entediado e nem perde tempo dando voltas que não chegam a lugar nenhum. A princípio, parece que a trama entregou sua maior reviravolta na primeira metade, mas o público é surpreendido por outra guinada, tão inesperada quanto, já na reta final da temporada. A história é nada óbvia em todas as suas decisões criativas, das mais simples até as mais impressionantes.

A condução dos personagens também surpreende: a série consegue entregar evoluções pouco maniqueístas, mostrando a ação de traumas e dinâmicas psicológicas complicadas agindo sobre os protagonistas, de modo que cada um deles atravessa uma montanha-russa que lhes confere complexidade. É difícil construir uma história em que todos seus protagonistas repensem diversas vezes suas ações e mudem de lado de acordo com o contexto sem arriscar a coerência na construção dos personagem, mas, mesmo com tantas viradas, em nenhum momento é possível questionar os rumos da trama.

Além disso, se no primeiro ano as relações entre todos eles - com exceção, talvez, de Ezequiel (João Miguel) e Michele (Bianca Comparato) - operam em níveis superficiais, optando por focar nas motivações individuais, no novo ano isso é subvertido. Cada personagem ganha seu próprio núcleo, colocando-os em jornadas pessoais enquanto, paralelamente, enfrentam um inimigo comum. Desenvolver melhor a relação de Michele e Joana (Vaneza Oliveira) ou de Rafael (Rodolfo Valente)Fernando (Michel Gomes) foi um ponto alto, mas o que deu a série uma atmosfera de ter evoluído foram as tramas de cada um deles com novos rostos. Entre os personagens novos, o destaque fica com Marcela, de Laila Garin, que inesperadamente cresce e dá conta do recado.

Curiosamente, parece que 3% precisou atravessar sua própria versão do Processo. Como uma iniciativa inédita no Brasil em relação ao formato, a temporada de estreia precisou enfrentar desafios como a descrença de parte considerável tanto do público quanto do mercado e as limitações orçamentárias na hora de construir um mundo que pede investimento. Passada essa fase, a série conseguiu fazer muito barulho, principalmente em relação à crítica internacional, e isso garantiu estabilidade para que pudesse crescer e mostrar seu potencial em solo mais sólido. A trama ainda não atingiu sua forma máxima, mas é inegável o aumento da qualidade em todos os aspectos.

Quem se incomodou com coisas como diálogos truncados e coloquialidade muitas vezes forçada na fala dos personagens, provavelmente continuará torcendo o nariz para o projeto - esse problema é algo que melhorou, mas que ainda está lá. Contudo, assim como no primeiro ano, o saldo é positivo e, dessa vez, com o bônus de ter feito a lição de casa na hora de absorver críticas. O universo da trama se expandiu - deixando espaço para crescer ainda mais em uma possível próxima temporada - e a história principal se tornou mais densa e complexa. Mesmo com problemas recorrentes, 3% aparou várias arestas e entregou um conteúdo divertido e empolgante. Nesse ritmo de evolução, dá para ficar genuinamente empolgado com um terceiro ano.

Nota do Crítico
Bom