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Crítica

13 Reasons Why - 2ª temporada | Crítica

Se despedindo de Hannah Baker, segunda temporada da série assume ares mais sombrios e ousados

Rafael Gonzaga
25.05.2018
19h01
Atualizada em
02.06.2018
13h41
Atualizada em 02.06.2018 às 13h41

Em meio à polarização de opiniões sobre a necessidade de continuar ou não contando a história de Hannah Baker (Katherine Langford), 13 Reasons Why voltou para uma segunda remessa de episódios na Netflix. Se distanciando do livro de Jay Asher que serviu de base para o primeiro ano, a série reencontra Clay (Dylan Minnette) e os demais adolescentes no meio do caos deixado pelas fitas enumerando os motivos do suicídio da protagonista, acompanhando o luto de todos eles e suas complicadas jornadas rumo à própria paz de espírito - incluindo, hipoteticamente ou não, a própria Hannah.

Langford está de volta na segunda temporada, mas, ao contrário do primeiro ano, ela participa ativamente tanto do presente quanto dos flashbacks. Apesar de Clay já ter experimentado visões de Hannah no primeiro ano, dessa vez ela se torna uma presença ativa em sua vida: a interação dos dois, paralela ao evidente desgaste emocional de Clay, se torna melhor conforme o rapaz vai se aproximando de um colapso psicológico. Quanto mais abalado Clay está, mais Hannah se revela uma manifestação perturbadora, ao mesmo tempo que conforme o rapaz começa a encarar sua redenção, Hannah também encontra a dela.

No fim das contas, a Hannah do presente é tão somente a versão de Clay para a garota: ela assume novas características sempre que o rapaz descobre coisas inéditas sobre a vida dela. Ainda que assuste nos primeiros episódios ver Hannah rondando Clay como um personagem com assuntos pendentes de Ghost - Do Outro Lado da Vida, com o passar do tempo se torna um recurso narrativo interessante para encarnar a confusão que acontece na cabeça do rapaz. As discussões, conversas e conclusões em cada diálogo travado pela dupla são parte importante da jornada de superação de Clay - não à toa, Hannah vai embora só quando as coisas se tornam emocionalmente mais estáveis para ele.

Vida após a morte

A segunda temporada vai longe na hora de enumerar os reflexos dos eventos vistos no primeiro ano. Alex Standall (Miles Heizer) sobreviveu à própria tentativa de suicídio, mas ficou com sequelas que vão desde perda de memória até problemas para andar; Justin Foley (Brandon Flynn) foi morar nas ruas e desenvolveu dependência de heroína; até Olivia Baker, a mãe de Hannah vivida pela novamente ótima Kate Walsh, não só encara o julgamento de seu processo contra a Liberty High School por negligenciar os sinais emitidos por sua filha e pela tolerância do local com a prática de bullying, como também lida com o fim de seu casamento com Andy (Brian d'Arcy James).

Walsh, Foley e Alisha Boe, intérprete de Jessica Davis, aproveitam seus arcos dramáticos e entregam atuações acima da média na trama. A segunda temporada mostra Jessica digerindo o abuso sexual sofrido e Boe consegue passar emoção sem esforço durante cada parte dessa jornada - paralelamente, Foley também faz um bom trabalho ao mostrar o arrependimento de seu personagem por ter se omitido em relação ao que aconteceu com a ex-namorada. A interação de Walsh, solitária em sua luta por justiça pela filha na ausência do marido, com os adolescentes é um ponto interessante da trama. A personagem ganha uma espécie de senso de responsabilidade sobre as conturbadas vidas dos jovens ao seu redor que surte um bom efeito.

Aliás, a aproximação de personagens, principalmente os improváveis, uns dos outros faz com que a série afunde suas raízes e solidifique sua história. Justin e Clay são o melhor exemplo disso - seria difícil dizer que os dois formariam uma boa dupla olhando para a primeira temporada -, mas Alex e Zach (Ross Butler) ou Jessica e a novata Nina (Samantha Logan) também são duos que renderam ótimos momentos. E se, entre os adultos, Walsh continua entregando um trabalho à prova de críticas, Derek Luke também consegue ressignificar o conselheiro Kevin, dando novas camadas a ele e evitando deixar o personagem suspenso em lógicas maniqueístas.

Antes de encontrar a calma, é claro, cada personagem atravessa seu próprio furacão e, no meio disso, muita coisa nova vai aparecendo não só sobre a história de Hannah, mas sobre os próprios personagens. Todas as novidades são proveitosas e ajudam a entender melhor o que aconteceu no ano anterior - como a gota d’água que levou Alex a tentar suicídio ou o real motivo de Hannah ter deixado as fitas com Tony (Christian Navarro). Contudo, enquanto alguns coadjuvantes ganham novas camadas e, consequentemente, destaque, outros vão sendo negligenciados ao longo da temporada - é o que caso de Marcus (Steven Silver) e Shery (Ajiona Alexus), que mal são mencionados nos episódios finais.

Nova polêmica

Sobre o enredo, em sua reta final, a trama toma caminhos inesperados e perigosos na forma como são retratados. Desde a primeira temporada, Tyler (Devin Druid) dava indícios de que seria o agente de um atentado com armas de fogo dentro do Liberty High School e, ao longo do segundo ano, toda sua jornada foi baseada nisso - mas a forma como essa sugestão foi concluída foi bastante leviana. 13 Reasons Why foi chamada de irresponsável por uma parte do público quando exibiu em detalhes o suicídio de Hannah uma ano antes, mas parece não ter aprendido o suficiente com as críticas. Colocar um estudante na linha de fogo resolvendo um potencial massacre na escola sem chamar as autoridades ou alertar os colegas romantizou além da conta situações problemáticas com essa que acontecem na vida real.

Ainda em relação a Tyler, por outro lado, a série usou o personagem para mostrar que tomou mesmo para si a missão de falar sobre assuntos pouco discutidos na sociedade. Dessa vez, além de dar seguimento a tudo que foi plantado sobre estupro e suicídio, a série introduziu a questão da violência e do abuso sexual feitos por homens contra outros homens - como é de se esperar, de forma gráfica o suficiente para não ser recomendada aos espectadores mais sensíveis. A brutalidade vivenciada por Tyler e os reflexos disso assumem o bastão da morte de Hannah na banheira, tanto pelo lado das críticas dos que discordam da metodologia da série, quanto pelo lado do futuro narrativo da atração.

Aliás, isso é muito interessante em relação às alegações de que a série não sobreviveria sem Hannah. Durante toda a segunda temporada, enquanto Clay e Olivia enfrentavam seus demônios para impedir que outras pessoas sofressem com vilões como Bryce (Justin Prentice) e Montgomery ou com a admistração preguiçosa da escola - nesse segundo ano personificada pelo diretor Garry (Steven Weber) -, Tyler passou por momentos suficientemente ruins para que ele próprio fosse autor de sua versão das 13 fitas. Isso aconteceu sem obviedades e serviu para mostrar que o problema retratado pela série vai além de Hannah ou Bryce e os demais personagens estão no caminho de entender isso com clareza.

13 Reasons Why segue fiel a sua missão de expor um retrato cru e indigesto dos problemas vividos por adolescentes no ambiente escolar. A série não desvia a câmera em momento nenhum, seja para mostrar a cena brutal de violência vivida por Tyler dentro do banheiro, seja para mostrar cada pequeno motivo que leva os alunos a não terem confiança nas entidades cujo propósito deveria ser protegê-los. Em sua segunda temporada, a série consegue se libertar de Hannah de forma orgânica e delicada, deixando no passado os questionamentos sobre uma nova temporada ser ou não válida. Ainda que tenha plantado uma tensão que não se concretizou em seus momentos finais, 13 Reasons Why não só deixa questões importantes em aberto como aperta os laços entre o público e seus personagens com força suficiente para fazer com que os espectadores desejem vê-los de volta em um terceiro ano.

Nota do Crítico
Bom