Trent Reznor e Atticus Ross na estreia de Watchmen, série da HBO

Créditos da imagem: Rich Fury/Getty Images North America/AFP

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Watchmen | Como Trent Reznor foi de músico à compositor da série

Fundador do Nine Inch Nails levou seus sintetizadores pesados ao cinema, aos videogames e, agora, ao seriado da HBO

Arthur Eloi
16.12.2019
16h48
Atualizada em
16.12.2019
18h50
Atualizada em 16.12.2019 às 18h50

A série de Watchmen da HBO é televisão de alto nível, mas sua trilha sonora é um monstro por si só. O showrunner Damon Lindelof (Lost, The Leftovers) teve a árdua tarefa de modernizar o mundo criado por Alan Moore e Dave Gibbons nos anos 1980, mas como traduzir esse universo distópico e paranóico aos ouvidos do público? A resposta não poderia vir de outro artista que não Trent Reznor.

O compositor, junto com seu frequente colaborador Atticus Ross, marca a jornada de Angela Abar (Regina King) com composições sombrias, definidas por fortes sintetizadores que criam a atmosfera de mistério e conspiração da trama. Em outros momentos, por exemplo, quando a protagonista avista um estranho homem prateado e ação acelera em uma intensa perseguição, a música se torna eletrônica e frenética. Já uma cena mais emocional, como a grande reviravolta sobre a identidade de Cal Abar (Yahya Abdul-Mateen II), é acompanhada por uma melancólica reinterpretação de “Life on Mars?”, de David Bowie. Assim como a narrativa do seriado, a trilha é diversa, experimental mas sempre de altíssimo nível. Isso, de certa forma, define muito bem o legado de Reznor.

Antes de se aventurar pela TV, o músico é conhecido por criar e liderar o Nine Inch Nails, uma das bandas que ajudou a definir o cenário dos anos 1990 com seu rock industrial e letras que flertam com a insanidade, mas cantadas em batidas viciantes, memoráveis e com acabamento bruto. Essa estética de tratar a dor de forma dançante e pouco lapidada casou muito bem com a popularidade do grunge e heavy metal da época, e fez a ponte entre esses nichos com a música pop. Não iria demorar muito para todo esse estilo chamar a atenção dos artistas de outros meios, e rapidamente Reznor viu a oportunidade de deixar sua marca nas mais diversas mídias.

Mesmo durante o ápice do NiN, ele participou de colaborações com nomes como Oliver Stone em Assassinos Por Natureza (1994) e David Lynch em A Estrada Perdida (1997), o que construiu sua reputação como alguém a altura até dos autores mais exigentes. Isso não afetou seu apego pela experimentação e inovação: em 1996 se juntou a equipe da id Software para sonorizar e compor a trilha sonora da Quake, um dos maiores avanços dos games para a época. As criações de Reznor, combinadas da frenética jogabilidade e temática ocultista - marcas registradas dos criadores de Doom -, elevam a experiência como um todo. Não é à toa que, assim como fez na música, suas contribuições ajudaram a definir toda a estética dos jogos de tiro noventistas, replicadas até hoje.

Desde então o compositor transitou pelos mais diversos meios, e trabalhou com filmes de terror (Premonição, O Segredo da Cabana), blockbusters (Resident Evil), séries documentais (The Vietnam War) e games (Call of Duty: Black Ops II). O prestígio veio mesmo para Reznor em 2010. Feita ao lado de Atticus Ross, a trilha sonora para A Rede Social, filme de David Fincher, evoca o drama humano que se desenvolve em meio à tecnologia sem sequer usar palavras. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas o reconheceu, e premiou o trabalho com o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original naquele ano.

A música de Watchmen

Pelo apego em experimentar, Reznor tem uma ampla variedade de projetos no currículo, e é normal o músico usar essa reputação para tentar trabalhar com as coisas que lhe interessam. Esse é o caso de Watchmen, HQ que ele e Ross são grandes fãs desde a publicação original. Quando souberam quem estava por trás da série da HBO, a escolha pareceu ainda mais óbvia: “somos fãs de Watchmen e também de Damon Lindelof”, contou à Forbes.

A dupla se reuniu com o showrunner e, de início, ficaram um pouco assustados com a visão que ele tinha para resgatar a obra de Moore e Gibbons, mas se acalmaram ao perceber que Lindelof meramente queria contar uma nova história, sem ego envolvido. “Isso me deu bastante confiança que a forma que a violência seria usada, ou o jeito que as coisas seriam gravadas, e quanto de cada aspecto seria mostrado foi profundamente planejado”, disse em entrevista à Rolling Stone. “Se fosse para ser sensível, ofensivo ou apenas polêmico, mas não era nada disso. Havia intenção por trás de tudo, você vê como a história se desdobra, quer você concorde ou não. Mas qualquer preocupação que eu tinha com ser apelativo, de mau gosto ou socialmente irresponsável, foram deixadas de lado.

Com visões alinhadas dessa forma, a música ganhou ainda mais peso no desenvolvimento da série, ao ponto de realmente se desenvolver como algo próprio, cheio de personalidade, mas que ainda complementa a estética do programa. Watchmen se diferenciou do quadrinho original ao criar sua própria identidade de um universo trágico, repleto de mascarados atuando em áreas cinzas. O mesmo pode se dizer da trilha sonora, que não é apenas muleta para outro tipo de arte, mas uma obra por si só. “Deve funcionar como um meio por si só”, argumentou Reznor na Forbes. “Ou qual é o sentido de fazer? Quero que a trilha seja um álbum, que seja única.

Watchmen está disponível no catálogo do streaming HBO Go. Já a trilha sonora, dividida em três volumes, pode ser encontrada no Spotify.