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Créditos da imagem: Evil/Globoplay/Divulgação

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Conheça Evil, a série sobrenatural dos criadores de The Good Wife

Produção estrelada por Mike Colter está disponível no catálogo da Globoplay

Henrique Haddefinir
02.11.2019
17h01
Atualizada em
05.11.2019
19h16
Atualizada em 05.11.2019 às 19h16

O mundo seriado os conhece como “The Kings” ["Os Reis"]. Michelle e Robert King são o casal responsável por um dos grandes fenômenos da CBS: The Good Wife. O procedural durou sete anos e é um dos títulos do processo de transição dos modelos de temporada de 22 episódios que ainda insistiam em casos isolados por semana. Após o final do drama eles emplacaram o derivado The Good Fight, com personagens conhecidos, mas já enquadrada quase totalmente nas estruturas atuais. Contudo, entre uma e outra, eles tentaram o sucesso com Braindead, uma comédia/drama/ficção científica que mostrava uma entidade alienígena possuindo políticos. A metáfora pareceu absurda demais e a série afundou. Agora, eles estão de volta em Evil, uma trama sobrenatural, mas com dosagens muito menos ousadas e mais eficientes.

Dessa vez eles abandonaram os alienígenas e abraçaram demônios e espíritos. A premissa não poderia ser mais clássica: ainda com o pé no procedural, eles repetem descaradamente a interação cético versus crédulo que ocupou a televisão americana por anos, desde Arquivo X. É uma fórmula exata, assumida, que mantém as coisas na zona de conforto, dando ao seriado uma chance maior de continuar existindo. O choque causado com o lançamento de Braindead foi substituído por uma sensação familiar. A grande diferença – e o grande trunfo – estão no texto. Michelle e Robert poderiam ser acusados de tudo durante os anos de The Good Wife, menos de não terem um texto quase impecável.

Na nova série o seminarista e ex-jornalista David Acosta (Mike Colter, que trabalhou com os Kings em TGW) roda os EUA investigando casos de possessão e manifestações sobrenaturais que a Igreja toma conhecimento. Ele já é acompanhado de um especialista em tecnologia que não acredita no oculto, mas também traz para junto de si a psicóloga forense Kristen Bouchard (Katja Herbers), que está ali para separar o que pode ser sobrenatural do que é apenas um caso clínico. Se a premissa parece muito com a de Arquivo X, a impressão está correta. David é um obcecado, perseguido por segredos, solitário e com uma "visão" que lhe permite ir mais além nos casos. Kristen é extremamente cética, tem uma atração por ele e vai aos poucos tendo sua descrença testada. Essa quase cópia estrutural, contudo, não impede Evil de ser interessante e surpreendente.

Mal Essencial

Quase como se estivessem tentando se proteger de qualquer cancelamento precoce, os criadores pensaram até nos fãs de The Good Wife que fossem procurar por eles. Evil tem algumas doses de jurídico, especialmente protagonizadas por Leland Towsend, vivido por Michael Emmerson (numa escalação errada para um personagem cheio de nuances que o aproximam demais do Benjamin Linus de Lost). Leland também é um especialista em oculto, mas que investe seu tempo em influenciar os outros a praticarem o mal. É um personagem com um conceito um pouco confuso, lembra os vilões de Stephen King (até tem um dos nomes que o escritor usa), por vezes parece ser menos humano que o normal e atrapalha um pouco a credibilidade da série. Pode ser que cresça, mas aqueles olhões e aquele texto falado cheio de entrelinhas (típicos de seu personagem em Lost), estão todos lá.

Os cinco primeiros casos (exibidos até aqui) são muito espertos, mesmo que situados nos mesmos lugares de sempre. Os roteiros são muitíssimo bem escritos e dosam perfeitamente dois universos que podem parecer ambivalentes, mas são necessários: com a fotografia e os cenários calculados para não parecerem modernos demais, as histórias espirituais ganham ambientação. Porém, é impossível ignorar a tecnologia e esses recursos são usados de maneiras inteligentes, como no ótimo episódio em que as filhas de Kristen ganham óculos de realidade virtual e começam a ver mais do que o programa deveria mostrar.

A questão do mal enquanto essência é constantemente discutida na série, que não se atém apenas à manifestações fantásticas. A cada episódio vamos sendo apresentados a exemplos do mal enquanto construção social, o que deixa forças malignas confortáveis para andarem livremente entre as arestas dessas construções. Outro bom episódio é aquele onde uma presença circula pela casa de Kristen no Halloween como se fosse alguém comum, alguém que foi fazer uma festa do pijama com as amigas. No episódio piloto, um demônio articula sua influência, seu desejo de ver o mal sendo perpetuado, mas é impressionante como apesar dos aspectos visuais marcantes desse episódio (lindamente dirigido pelo próprio Robert King), o apelo gráfico desse demônio não chega perto do horror que é perceber que o mal maior é construído por mãos humanas.

Enfim, mesmo com o pé nos clichês do gênero e com a proximidade quase cômica com a premissa de Arquivo X, Evil é extremamente competente, ágil e sagaz. Como toda boa obra de arte, ela inspira essas referências, mas as expira com identidade própria e sem subestimar o público, que não compra mais a simples ideia de conforto. A série é televisão de qualidade e se continuar nos desafiando poderá ser televisão de excelência.

Evil poderá ser conferida semanalmente no Globoplay e já tem uma segunda temporada garantida.