Colônia retrata história do genocídio que o país tenta esquecer

Créditos da imagem: Marina de Almeida Prado/Canal Brasil/Divulgação

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Colônia retrata história do genocídio que o país tenta esquecer

Em forma de ficção, diretor André Ristum joga luz nos absurdos que transcorreram no maior hospício do Brasil

Mariana Canhisares
30.06.2021
15h41

Homens, mulheres e até crianças chegavam de trem, amontoados nos vagões, e uma vez que passavam pelos portões, dificilmente pisariam no lado de fora de novo. Assim que entravam, tinham seus cabelos raspados, eram rebatizados e, com o aval do Estado, obrigados a trabalhar em plantações, manutenção de vias públicas e até no enterro de alguns dos seus pares. Não foram condenados por nenhum juiz ou júri, mas receberam como sentença a prisão perpétua. Aliás, pior, porque foram submetidos a condições subumanas, entre as quais superlotação, torturas físicas e psicológicas, frio e fome, e ao menos 60 mil destas pessoas não sobreviveram. O nome dessa crueldade é Holocausto e, acredite se quiser, ele aconteceu no Brasil.

“Era essa maneira desumana com que uma sociedade extremamente conservadora, racista, homofóbica e patriarcal lidava com seus indesejáveis. E isso aconteceu aqui, em Minas Gerais, há não muito tempo atrás”, explicou ao Omelete André Ristum, diretor, roteirista e criador de Colônia. A nova série do Canal Brasil retrata a história pouco conhecida do genocídio que ocorreu no maior hospício do país, o Centro Psiquiátrico Hospitalar de Barbacena, de 1903 até meados dos anos 1980.

Baseada livremente no livro-reportagem Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, a produção em 10 episódios narra situações factuais, como a terapia de choque e outras tantas barbaridades, através do auxílio da ficção. Por exemplo, sua protagonista Elisa (Fernanda Marques), não existiu com esse nome. Mas, como ela, muitas outras mulheres jovens foram internadas à força por engravidar antes do casamento. O mesmo vale para as histórias de Valeska (Andréia Horta), Wanda (Rejane Faria), Raimundo (Bukassa Kabengele) e Gilberto (Arlindo Lopes), isto é, servem de espelho para numerosos pacientes que por serem negros, gays, prostitutas ou viciados foram mandados para a instituição popularmente conhecida como Colônia.

Augusto Madeira, Bukassa Kabengele e Marco Bravo em Colônia

Marina de Almeida Prado/Canal Brasil/Divulgação

“Cerca de 70% das pessoas ali não tinham nenhum diagnóstico de doença mental”, ressaltou Ristum, cuja surpresa com o dado foi uma das razões para que ele tenha se sentido impelido a contar essa história. "Bastava um atestado médico para mandar alguém para lá. Então, virou um caminho rápido para se livrar de alguém".

A personagem Elisa vai parar no Colônia justamente porque seu pai quis esconder seu “crime”, isto é, a jovem se apaixonou e engravidou de um rapaz, quando estava prometida para um sócio em potencial da sua família. Como punição, ela é colocada no trem na promessa de que vai para um convento. Mas, para seu choque, ela foi declarada esquizofrênica sem sequer se consultar com um médico. O desespero dela é o do espectador, e os episódios seguintes não amenizam em nada essa sensação.

Além de gostar de trabalhar com atores, a decisão de Ristum de falar sobre o Colônia numa história de ficção se deu por outras duas razões principais. A primeira foi a falta de material sobre o hospício. "Tudo o que tinha foi usado, lido e absorvido no nosso processo de pesquisa", contou o diretor, que se dedicou a estudar o tema intensamente por pelo menos um ano e meio. Ainda assim, segundo Ristum, não era o suficiente para contar a história de maneira mais ampla e com maior alcance -- isso sem mencionar que a própria Daniela Arbex já tinha transformado seu livro em documentário.

O segundo motivo, por sua vez, foi o efeito que a ficção tem sobre o público. "Senti que poderia ajudar a transportar as pessoas para esse lugar de uma maneira mais intensa. Essa menina [Elisa] poderia ser sua vizinha, sua colega. É uma estranha no ninho", explicou. "É uma forma de humanizar mais a situação e tocar o maior público possível".

Viviane Monteiro, Arlindo Lopes e Fernanda Marques em Colônia

Marina de Almeida Prado/Canal Brasil/Divulgação

De modo muito parecido, ele e o diretor de fotografia Hélcio Nagamine decidiram fazer a série em preto e branco. Pelo lado prático, o PB transmite imediatamente para o espectador que é uma produção de época. Já do ponto de vista de experimentações criativas, essa era uma estética com a qual os dois colaboradores já flertavam há algum tempo. Porém, a razão que prevaleceu, em última instância, foi seu efeito narrativo.

"Não tinha como ela existir em cores", disse. "Não via cor, não via brilho. Não via nada na vida dessas pessoas". Essa imagem se construiu já na primeira versão do argumento e só amadureceu conforme continuou sua pesquisa.

Mas por que relembrar Colônia?

Há um valor histórico claro na série não somente para preservar a memória de todas as vítimas do Colônia, mas também a de tantos outros brasileiros que ainda enfrentam situações subumanas em instituições psiquiátricas. Em 2004, de acordo com a pesquisa de Daniela Arbex, uma inspeção em 16 estados descobriu 28 unidades com condições e métodos inadequados de tratamento. Em 2018, uma nova ação, agora englobando 17 estados, encontrou novos indícios de tortura e outras violações de direitos de pacientes psiquiátricos. Quer dizer, a história do Colônia está longe de ser coisa do passado.

Contudo, nem mesmo Ristum tinha dimensão de como sua série reverberaria tanto no Brasil de hoje para além do contexto da luta antimanicomial. "Tantas dessas feridas estão abertas e sangrando até hoje. Se a gente pegar só a questão da representatividade, dentro do Colônia tinha todo o tipo de gente e a gente vê que essas pessoas ainda são vítimas de violência. São hostilizadas e assediadas".

Com a série, o diretor quer passar ao menos uma mensagem para o espectador: "se coloque no lugar dessas pessoas". Por isso, inclusive, abre todos os episódios com um trecho da Declaração dos Direitos Humanos ("ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano e degradante"): para frisar que isso é o básico. Na época, embora a psiquiatria não fosse tão avançada quanto hoje, tinha-se plena consciência da barbárie que aconteciam naqueles corredores. Assim como nós, cidadãos comuns, sabemos das péssimas condições do sistema carcerário brasileiro e da precariedade em que tantas famílias vivem.

“Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado da barbárie. É tempo de escrever uma nova história e de mudar o final”, escreve Daniela Arbex ao final de Holocausto Brasileiro. De fato, se tem uma coisa que o livro dela e a nova série do Canal Brasil revelam é a crueldade que há também na conivência.

Exibida às sextas, às 21h30, no Canal Brasil, Colônia também está disponível no Globoplay.

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