De Mark Twain à DC Comics: Os 70 anos de Coiote e Papa-Léguas

Créditos da imagem: Divulgação/Warner Bros.

Séries e TV

Notícia

De Mark Twain à DC Comics: Os 70 anos de Coiote e Papa-Léguas

Clássicos personagens da série Looney Tunes completam sete décadas nessa terça-feira (17)

Gabriel Avila
17.09.2019
18h01

Em 1949, a série animada Looney Tunes já era um grande sucesso. Em quase duas décadas, a produção, criada originalmente para competir com a Disney, ajudou a desenvolver a indústria das animações. Com um elenco robusto, composto em maior parte por animais antropomorfizados como Pernalonga e Patolino, a série continuava a ganhar novos personagens graças ao grande esforço de trazer renovação e evitar que o público se cansasse dos medalhões da casa. Com esse intuito, o diretor de animações Chuck Jones, que na época já era famoso por seu envolvimento na concepção de grandes personagens da atração, se juntou ao roteirista Michael Maltese para a criação de Coiote e Papa-Léguas, uma dupla que completa 70 anos com uma revolucionária trajetória que sacudiu estruturas clássicas das animações.

A inspiração original de Jones e Maltese era parodiar desenhos de “Gato e Rato”, como são conhecidas as histórias em que um felino persegue sua presa sem sucesso. Popularizada por Tom e Jerry, animação da concorrente MGM, a essa estrutura já havia chegado aos Looney Tunes com Frajola e Piu-Piu. Porém, essa ideia tomou novos rumos logo no início, quando Chuck Jones optou por utilizar um Coiote no lugar de um gato, troca inspirada pela forma como Mark Twain, um dos maiores escritores da literatura norte-americana, descreve animal em seu livro Roughing It. Nas palavras do autor, o bicho é “um esqueleto longo, esguio, doente e com aparência triste, com uma cinzenta pele de lobo esticada por cima”. Outras características físicas como "olho furtivo e maligno, rosto longo e afiado com lábio ligeiramente levantado e dentes expostos” também foram incorporadas, mas Twain ajudou também a atribuir uma personalidade ao antagonista, que seria marcado por sua persistência: “O coiote é uma viva e pulsante alegoria do Querer. Ele está sempre faminto”.

Com um esboço em mente, Chuck Jones estabeleceu uma série de regras para que a incessante busca do Coiote fosse diferente das que o público já conhecia. Em primeiro lugar, o canino perseguiria uma ave, o Papa-Léguas, que por conta de um trocadilho com Road Runner (Corredor de Estrada em tradução livre), seu nome original, deveria se mover rapidamente e apenas por uma rodovia que atravessa o deserto. Para alcançar sua presa, o vilão utilizaria toda a sorte de equipamentos - que vão de bombas a patinetes - criados pela ACME, empresa fictícia criada para o programa. Com tudo pronto, o primeiro encontro dos personagens foi ao ar em 17 de setembro de 1949, no curta Fast and Furry-ous. A animação começa com o Papa-Léguas, ave cujo nome científico é “Accelleratii Incredibus”, sendo observado por seu predador, Coiote, chamado de “Carnivorous Vulgaris”. Faminto, o animal parte em busca do pássaro, que o assusta devido à sua grande velocidade. Durante seus sete minutos, o desenho mostra diversas tentativas do mamífero conseguir fazer sua refeição, que incluem bumerangue, foguetes e até um traje que lembra o do Superman.

Logo em seu primeiro episódio, a animação inovava ao criar momentos cômicos e surpreender o espectador ao subverter expectativas, fosse através do mal funcionamento dos equipamentos da ACME ou pela gravidade, que se mostra uma grande inimiga para o Coiote logo de cara. A produção chega a flertar até mesmo com o non-sense na clássica sequência do túnel pintado na parede, que o Papa-Léguas consegue atravessar mas o Coiote não. Graças à rapidez com que essas tentativas acontecem durante o capítulo, a atração se tornou querida pelos fãs e tornou a dupla uma das mais queridas entre o elenco dos Looney Tunes. A popularidade se tornou tão grande que rendeu ao vilão um derivado em que persegue o coelho Pernalonga e chegou a inspirar a criação de Ralph Wolf, personagem com aparência exatamente igual à do Coiote, mas que em seu desenho caça ovelhas guardadas pelo cão Sam Sheepdog.

À esquerda: Papa Léguas e Coiote. À direita: Ralph Wolf e Sam Sheepdog

Divulgação/Warner Bros.

Apesar de toda a popularidade adquirida ao longo dos anos, Coiote e Papa-Léguas, ao lado de outros grandes desenhos como os já citados Tom & Jerry, se tornaram centro de um debate a respeito da violência nos desenhos animados. Por mais que a dupla fuja de várias críticas enfrentadas por outras animações, como o fato de a presa nunca revidar contra seu predador ou o vilão ser vítima das próprias máquinas, o desenho já foi considerado uma celebração à violência através de vários artigos científicos e até mesmo outras representações na cultura pop, como fez o roteirista Grant Morrison durante sua aclamada fase escrevendo a HQ do Homem-Animal na DC Comics. Na 5ª edição, o autor criou O Evangelho do Coiote, um conto que imagina o dia em que o Coiote se cansa de sua rotina e é condenado a vir ao mundo real, onde a violência não é nada cartunesca, mas cruel e assustadora. Apesar de sua parte crítica, o enredo também enaltece o aspecto lúdico dos desenhos ao concluir a história com uma grande piada - o verdadeiro trunfo da animação.

No decorrer de suas sete décadas de existência, a dupla estrelou diversos curtas e participou de outras produções até que voltou a ter destaque em 2017, quando a DC anunciou o encontro entre seus heróis e os personagens do Looney Tunes. Coiote e Papa-Léguas fizeram um crossover com Lobo, o maioral. Na história, o Coiote e outros animais são vítimas de experimentos científicos até desenvolverem consciência e se tornarem inteligentes. Cansado após anos de fracasso em perseguir sua presa, o canino vai ao espaço para contratar Lobo, o caçador de recompensas mais famoso no universo da editora, para que use seus recursos e capture o Papa-Léguas. O enredo presta homenagem à vários elementos clássicos dos desenhos, criando momentos hilários durante a caçada de Lobo e encontros inesperados, como Coiote sendo convidado a se tornar um Lanterna Verde devido a sua coragem e persistência.

Divulgação/DC Comics