Nachtergaele: Cenoura é o “coração humano” entre o bem e o mal em Cidade de Deus
Matheus Nachtergaele falou do retorno do personagem na 2ª temporada de A Luta Não Para
Créditos da imagem: Matheus Nachtergaele como Cenoura em Cidade de Deus: A Luta Não Para (Reprodução)
Matheus Nachtergaele comemorou o retorno do traficante Cenoura na segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para, comentando ao Omelete que ele é como uma figura "entre o bem e o mal" no rol de personagens da série.
A seguir, confira o trecho da conversa, conduzida durante a première da série no Festival do Rio 2026.
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OMELETE: Quando a gente conversou uns dias atrás, você me falou que o Cenoura volta para a Cidade de Deus contrariado, sem querer voltar. O que essa volta dele mais revoltado muda nessa temporada, e chacoalha a Cidade de Deus?
NACHTERGAELE: Eu acho que é o seguinte: o Cenoura é um cara ligado a um tipo de bandido – e isso nunca é bom – que tem alguns códigos de honra. Esses códigos de honra vão sendo dissipados ao longo da desumanização da sociedade, também nos morros. Então, o Cenoura, que cumpriu pena, saiu do crime, tem ali uma lojinha de joguinhos eletrônicos, é chamado para voltar para casa, de uma certa maneira, para ensinar os jovens donos de boca a agirem com alguma civilidade. Ele vai tentar apaziguar uma luta dentro de casa, e aí vai se encontrar com uma luta maior, que eu não vou dar o spoiler. Mas ele volta contrariado, ligado por laços afetivos. Ele volta para o lugar dele, para tentar ensinar e apaziguar a molecada, e todos vão se encontrar com um problema maior do que eles. Mas isso aí é para conferir vendo a série.
Eu tive essa oportunidade de fazer quase que simultaneamente dois personagens muito emblemáticos do meu trabalho: o João Grilo no Auto da Compadecida 2 e o Cenoura aqui em Cidade de Deus. As experiências foram bem diferentes, mas o sentimento básico é o mesmo: um pouco de medo. Seria como você pedir para um grande escultor fazer de novo Davi: "Michelangelo, faz o Davi aí de novo para ver se fica bom". Não estou querendo me comparar com Michelangelo, mas a ideia é quase essa: "Da Vinci, faz outra Mona Lisa aí". A gente fica com o coração aflito, sabendo que fazer de novo não vai dar. Será que o que eu tenho dentro de mim completa de um jeito bonito aquilo que foi feito antes?
Tem essa coisa legal no Cidade de Deus: ninguém é o bem e ninguém o mal. Todo mundo é bom e todo mundo é mau. É um balaio de gato. As pessoas são humanas, cheias de erros e defeitos. Aqui [na série] tem uma galera representando, por exemplo, a Marielle, as batalhadoras das comunidades, pessoas conscientes, que a gente poderia dizer que são o lado bom da história. Tem que ter um coração bonito, como é o Buscapé. Tem que ter um coração feio, que no filme original era o Zé Pequeno. E o Cenoura é o coração humano. Está metido na m*rda, mas é um cara legal.
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OMELETE: Você falou que ele assume essa posição meio de mentor da meninada lá da Cidade de Deus. Queria saber se você, entrando nesse elenco que tem tantos atores jovens, também se sentiu um pouquinho mentor?
NACHTERGAELE: Mentor? Eu nunca me sinto mentor. Eles tinham uma admiração, assim, por mim. Quando eu fiz Cidade de Deus, já era mais velho que a maioria dos meninos, e já tinha essa vibe de eles ficarem um pouquinho nervosos de estar comigo. Em um projeto como esse, é importante você quebrar logo isso, se imiscuir logo, falar logo uma bobagem, para essa distância ser diminuída. Mas é bonito que eles tenham esse amor pelo meu trabalho – e, principalmente, é bonito, sendo eles quem são, que eles amem Cidade de Deus e sintam honra por estar na série que é filha de Cidade de Deus. Eu me senti muito acolhido, muito bem-quisto. E, sim, dei alguns toques, mas pouco, porque eu queria estar junto com eles. E no fim estava todo mundo na bagaceira juntos.
*A 2ª temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para chega em 8 de novembro à HBO Max.
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