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Entrevista

Repórter investigativo e radialista: A transformação de Buscapé em Cidade de Deus

Aly Muritiba e Alexandre Rodrigues falam ao Omelete sobre novos horizontes do personagem

Omelete
4 min de leitura
08.11.2026, às 06H00.
Alexandre Rodrigues como Buscapé em Cidade de Deus: A Luta Não Para (Reprodução)

Créditos da imagem: Alexandre Rodrigues como Buscapé em Cidade de Deus: A Luta Não Para (Reprodução)

ATENÇÃO: Spoilers da segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para a seguir!

O primeiro episódio da nova temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para revelou uma mudança e tanto na trajetória do protagonista Buscapé/Wilson, vivido mais uma vez por Alexandre Rodrigues.

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Após a morte de Lígia (Eli Ferreira) em um ataque retaliativo da milícia, no final do primeiro ano, ele retorna com sangue nos olhos para essa nova fase. Após tentar emplacar suas reportagens investigativas no jornal, e ser remanejado como recompensa, ele recorre à antiga rádio comunitária da Cidade de Deus para continuar fazendo suas denúncias.

É definitivamente uma novidade para o personagem, que sempre foi retratado como "um cara pacato" - nas palavras de Aly Muritiba, diretor da série, em entrevista ao Omelete. Confira um trecho da nossa conversa com Muritiba e Rodrigues abaixo!

OMELETE: Eu preciso falar que adorei vários dos caminhos que esse primeiro episódio sugere. A começar por um Buscapé mais proativo, mais revoltado. Aly, você acha que isso era importante para o personagem, virar essa chave nele? De onde veio essa decisão?   

MURITIBA: Cara, a gente se perguntava muito o que acontece com uma pessoa, mesmo uma pessoa pacata como o Buscapé, quando há um vislumbre muito real da morte diante de si – que é o que acontece no final da primeira temporada, né? Ele não apenas é alvejado, como vê uma colega de trabalho, uma pessoa que ele estava quase mentorando, sendo morta em sua frente. E aí os caminhos possíveis eram: essa pessoa se desencanta da vida, se deprime, ou se revolta. Então vamos ter um Buscapé revoltado agora, um Buscapé que vai usar a sua arma, que é a câmera fotográfica, para combater essas pessoas que matam os dele. Que mataram Barbantinho, que mataram Lígia, que representam muitas pessoas que são mortas pelo sistema. 

Então vamos fazer um Buscapé jornalista investigativo, desses que agem no subterrâneo, que se arriscam, que botam a vida na linha. Porque agora que ele já vislumbrou a morte diante de si, e talvez ele não tenha mais nada a perder. Mas quais as implicações disso? Uma das implicações, por exemplo, é que se para ele a vida dele talvez já não importe tanto, o que ele quer é justiça e vingança para sua filha. Na primeira temporada, ela é para ele uma personagem antagônica, mas agora que eles se reconciliaram, ela quer o pai. E aí a gente tem drama, né? Então foi para esse caminho que a gente foi.

OMELETE: Alê, e para você, como foi essa mudança no personagem? Queria saber se isso sempre foi algo que você queria ver mais dele, ou se foi uma grande surpresa.   

RODRIGUES: Olha, quando você é artista, é sempre muito bom poder botar para fora algumas coisas através da ficção. Para mim, é uma forma de extravasar. E eu não sabia desse lado do Buscapé – apesar de entender que todos nós, seres humanos, temos esse lado: nós não somos calmos, estamos calmos. Nós somos levados por circunstâncias, por situações, ninguém está do mesmo jeito sempre. E a revolta do Buscapé vem através da morte do irmão dele, do amigo dele, o Barbantinho, e da própria Lígia… Aparece ali uma sede de vingança, uma sede de justiça, uma vontade de mudança. Ele sente que precisa fazer alguma coisa para que as pessoas entendam, para que a comunidade entenda, que tudo aquilo que está acontecendo é um absurdo.

E eu agrego isso também à grande força que tem as mulheres da vida dele. A filha dele, a mãe dele – mas principalmente a filha, que eles estão nessa coisa da reconstrução da paternidade que foi quebrada. Ela vira para ele e fala: "Cara, você ganha dinheiro tirando foto dos nossos, osso é um absurdo. Como que você pode continuar fazendo isso?". E aí está a grande virada de chave do Buscapé. Obstinado, com raiva, ele volta para esse lugar que ele nunca devia ter saído.

OMELETE: E o grande meio que ele acha para expressar essa revolta é a rádio comunitária, como a gente vê no primeiro episódio. Queria saber como você recebeu esse desenvolvimento no roteiro, e o que você acha que o rádio significa para ele?   

RODRIGUES: Foi uma surpresa boa, poder entender o Buscapé nesse lugar. E o rádio, na verdade, é uma reconexão. O Buscapé já tinha a rádio antes, tanto que naquela primeira cena você vê ele vai mexendo nas coisas como se conhecesse.. eram coisas dele, de um passado que ele redescobre. Movido por uma circunstância, ele precisa comunicar de alguma forma os absurdos que estão acontecendo, e falar de uma forma direta com a comunidade. Realmente foi uma surpresa muito boa, quando eu li no roteiro que ele ia fazer a rádio comunitária, e também que aquilo seria uma forma de reunião dele com a filha, um vínculo ali que eles criam e através do rádio.

*Cidade de Deus: A Luta Não Para já está disponível para streaming na HBO Max. Os novos episódios serão lançados semanalmente, sempre aos domingos, e exibidos na HBO no mesmo dia às 22h.

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