A Casa do Dragão | 12 mudanças da 3ª temporada em relação ao livro
De Jace e Nettles a Tumbleton, Helaena e a transformação de Rhaenyra, a terceira temporada fez algumas das maiores alterações de Fogo & Sangue até agora
Atenção: o texto abaixo contém spoilers de toda a terceira temporada de A Casa do Dragão e de acontecimentos futuros de Fogo & Sangue.
Adaptar Fogo & Sangue nunca significou simplesmente transportar para a televisão tudo o que George R.R. Martin escreveu. O livro funciona como uma história fictícia de Westeros, construída a partir de relatos incompletos e muitas vezes contraditórios, o que naturalmente dá aos roteiristas espaço para escolher versões, preencher lacunas e até inventar acontecimentos.
A terceira temporada de A Casa do Dragão, porém, foi além. Em vários momentos, a série não escolheu apenas uma versão diferente dos mesmos fatos: mudou personagens, motivações e até a cadeia de acontecimentos que leva a alguns dos episódios mais importantes da Dança dos Dragões. O próprio Ryan Condal já explicou que enxerga a adaptação como uma narrativa com ponto de vista próprio, na qual o destino pode até permanecer parecido, mas o caminho até ele não precisa ser exatamente aquele registrado pelos historiadores de Martin.
E esse talvez seja o ponto mais importante para entender a temporada. As maiores mudanças não estão necessariamente em quem vive ou quem morre, mas em por que essas coisas acontecem.
Estas são as 12 diferenças mais importantes entre a terceira temporada de A Casa do Dragão e Fogo & Sangue.
1. Rhaena substitui Nettles e a mudança afeta até a morte de Jace
Como é no livro: Nettles é uma das Sementes de Dragão recrutadas pelos Pretos. Uma jovem bastarda sem aparência tradicionalmente valiriana, ela conquista Sheepstealer de uma maneira completamente diferente dos demais: leva ovelhas para o dragão até ganhar sua confiança. Rhaena Targaryen, por outro lado, permanece no Vale e não participa da Batalha da Goela. Nettles luta ao lado de Jacaerys no confronto, mas não é responsável pelo que acontece com ele. Jace morre depois que Vermax cai durante a batalha e o príncipe, já na água, é atingido pelos inimigos.
Como é na série: Nettles simplesmente não existe e boa parte de sua função é transferida para Rhaena. Ela reivindica Sheepstealer e entra na Batalha da Goela, mas descobre rapidamente que não tem controle total sobre o dragão. Sheepstealer ataca inclusive os dragões aliados e interfere diretamente na sequência que termina com a queda de Vermax e a morte de Jace. A mudança cria um efeito completamente novo: Rhaena não apenas ganha o arco que originalmente seria de Nettles, mas passa a carregar algum grau de responsabilidade pela morte do próprio meio-irmão.
2. Aegon e Viserys desaparecem da Batalha da Goela
Como é no livro: os filhos mais novos de Rhaenyra e Daemon têm participação importante na Goela. Aegon, o Jovem, e Viserys estão sendo enviados para Pentos quando o navio em que viajam acaba interceptado pela Triarquia. Aegon consegue escapar montado em Stormcloud, apesar de nunca ter voado anteriormente, e chega ferido a Pedra do Dragão. Viserys, por sua vez, desaparece e é dado como perdido. São acontecimentos extremamente importantes não apenas para a batalha, mas para o futuro da própria Casa Targaryen.
Como é na série: nada disso acontece. Como a cronologia de A Casa do Dragão foi comprimida, Aegon e Viserys são muito mais novos e continuam sendo praticamente bebês. Ryan Condal confirmou que a equipe discutiu a possibilidade de adaptar a sequência, mas concluiu que colocar crianças tão pequenas no centro de uma enorme batalha simplesmente não funcionaria dramaticamente ou em termos de produção. O showrunner ainda afirmou que existe um plano para lidar com as consequências dessa mudança no futuro.
3. Baela deixa de ser espectadora e vira uma das principais cavaleiras da guerra
Como é no livro: Baela passa boa parte desse período em Pedra do Dragão. Moondancer ainda é pequena, e embora Baela comece a voar com o dragão, ela não participa da Batalha da Goela, não integra a tomada de Porto Real e tampouco sai pelas Terras Fluviais procurando Aemond e Vhagar. Nesta parte de Fogo & Sangue, a filha de Daemon é muito mais uma personagem esperando para entrar definitivamente na história.
Como é na série: Baela está em praticamente todos os grandes movimentos militares dos Pretos. Ela participa da Goela, opera em Porto Real e depois ajuda na perseguição a Aemond. A adaptação também antecipa sua aproximação com Alyn, algo que possui alguma base no livro, mas acontece muito mais tarde. Assim como Rhaena, Baela ganha uma presença muito maior justamente porque a série decidiu transformar as filhas de Daemon em personagens ativas da guerra, e não figuras que ficam durante longos períodos fora dos grandes acontecimentos.
4. Alicent praticamente muda de lado e chega a tentar matar Aemond
Como é no livro: depois que Rhaenyra conquista Porto Real, Alicent vira a famosa “Rainha Acorrentada”. Ela continua sendo uma adversária dos Pretos e, embora eventualmente peça a Rhaenyra que poupe seus filhos e tente negociar uma divisão do reino, nunca se transforma em colaboradora da antiga enteada. Muito menos recebe a missão de assassinar Aemond. Na verdade, Alicent implora para que Rhaenyra permita que seus filhos sobrevivam.
Como é na série: a aproximação iniciada no final da segunda temporada vai muito mais longe. Alicent passa parte da temporada prisioneira de Rhaenyra, mas continua sendo uma espécie de conselheira e consciência da rainha. O ponto mais extremo chega quando Rhaenyra envia Alicent a Harrenhal justamente por acreditar que ela pode se aproximar de Aemond sem despertar suspeitas. Alicent aceita participar da tentativa de assassinato do próprio filho e chega a envenená-lo, embora a temporada deixe seu destino imediato em aberto. É uma das mudanças mais radicais da adaptação porque transforma completamente o papel político de Alicent na Dança.
5. Rhaenyra mata Otto Hightower com as próprias mãos
Como é no livro: quando Rhaenyra conquista Porto Real, Otto Hightower está entre os primeiros membros do antigo regime a serem executados. Fogo & Sangue é bastante econômico sobre o assunto: Otto é condenado como traidor e decapitado. Não há um grande confronto final com Rhaenyra, tampouco qualquer indicação de que a própria rainha tenha executado o antigo Mão do Rei.
Como é na série: além de inventar toda uma trama na qual Otto havia sido secretamente aprisionado por Larys Strong, a série transforma sua execução em um momento fundamental para Rhaenyra. Daemon exige uma demonstração pública de autoridade e ela própria empunha a espada. Rhaenyra hesita, erra o primeiro golpe e só consegue decapitar Otto na segunda tentativa. O destino é praticamente o mesmo do livro, mas o significado muda: a série transforma Otto em um marco da passagem de Rhaenyra de pretendente ao trono para uma governante disposta a matar pessoalmente para preservá-lo.
6. Sunfyre “morre” e ressuscita
Como é no livro: Sunfyre fica terrivelmente ferido depois da Batalha de Pouso das Gralhas, mas sua sobrevivência nunca é realmente um mistério para o leitor. Incapaz de voar, o dragão permanece na região, alimentando-se primeiro dos cadáveres deixados pela batalha e depois de animais fornecidos pelos homens encarregados de protegê-lo. É uma recuperação longa e brutal, mas não uma ressurreição.
Como é na série: a terceira temporada transforma a sobrevivência em um grande fake-out. Aegon encontra Sunfyre imóvel e acredita que seu dragão morreu, e a narrativa reforça essa impressão durante vários episódios. Quando Aegon está novamente ameaçado, Sunfyre reaparece para salvá-lo. A diretora Nina Lopez-Corrado explicou que o dragão realmente estava muito perto da morte, mas recuperou forças durante esse período. A alteração ainda ganha uma consequência política: para parte de Westeros, o retorno quase milagroso do rei e de seu dragão pode ser interpretado como um sinal divino de que Aegon continua sendo o governante legítimo.
7. Corlys é sequestrado e se afasta de Rhaenyra
Como é no livro: depois da conquista de Porto Real, Corlys continua ao lado de Rhaenyra e se transforma numa das principais vozes de moderação do governo. É ele quem recomenda perdões e negociações com inimigos importantes. Mesmo quando pede a legitimação de Addam e Alyn, Rhaenyra aceita. A relação entre os dois terá problemas mais adiante, mas nesse ponto da Dança Corlys continua sendo um dos pilares políticos dos Pretos.
Como é na série: o relacionamento entre os dois se deteriora muito mais cedo. A temporada cria conflitos em torno de Addam e Alyn e depois inventa um acontecimento sem equivalente no livro: Jon Roxton captura Corlys e o entrega aos Hightower. O Sea Snake passa pela humilhação do cativeiro, perde um dedo para Ormund e chega a Tumbleton completamente deslocado de sua posição original na história. É uma mudança que também ajuda a abrir espaço para Alyn assumir cada vez mais funções que tradicionalmente pertenceriam ao pai.
8. Helaena é praticamente outra personagem e Maelor deixa de existir como no livro
Como é no livro: Helaena é uma mulher popular entre o povo, alegre antes de Sangue e Queijo e conhecida também como uma cavaleira ligada a Dreamfyre. Ela não possui as visões proféticas que vemos na televisão. Mais importante: Maelor, seu filho mais novo, já existe quando Sangue e Queijo atacam. Posteriormente, a criança é retirada de Porto Real e morre durante os acontecimentos de Bitterbridge. Uma das versões registradas por Fogo & Sangue liga a notícia dessa morte ao colapso final de Helaena. George R.R. Martin chegou a criticar publicamente a retirada de Maelor e alertou que a mudança produziria um “efeito borboleta” no restante da história.
Como é na série: Maelor nunca aparece como criança. Helaena é transformada desde cedo em uma sonhadora capaz de antecipar acontecimentos e, na terceira temporada, aparece grávida enquanto suas visões ficam cada vez mais fortes. Ela termina como prisioneira de Rhaenyra e se suicida ainda grávida. O resultado é que toda a cadeia narrativa envolvendo a fuga de Maelor, Bitterbridge, sua morte e as possíveis consequências disso para Helaena deixa de existir. A adaptação manteve o destino final da rainha, mas reconstruiu completamente o caminho até ele.
9. Ormund Hightower e Daeron foram praticamente reconstruídos
Como é no livro: Ormund Hightower é importante militarmente, mas Fogo & Sangue oferece pouco material sobre sua personalidade. Daeron, por outro lado, já chega a essa fase da guerra com reputação própria: ele ajuda a salvar as forças Hightower na Batalha do Vinhomel e recebe o nome de Daeron, o Ousado. Quando Tumbleton acontece, portanto, ele já é uma figura militar reconhecida.
Como é na série: praticamente toda a personalidade de Ormund foi criada para a adaptação. Seu fanatismo religioso, sua visão anti-Targaryen, suas obsessões e sua relação de controle sobre Daeron não estão no livro. Condal confirmou que a falta de caracterização no material original deu aos roteiristas liberdade para construir o personagem. A série também elimina a grande ascensão militar de Daeron em Honeywine e inventa a trama do falso Daeron, transformando sua história em algo muito mais ligado à manipulação exercida por Ormund.
10. Tumbleton começa com a cidade no lado oposto e Daemon entra na batalha
Como é no livro: Tumbleton está nas mãos dos Pretos. Os homens do Norte e das Terras Fluviais ocupam a cidade enquanto Ormund Hightower avança com seu enorme exército. Hugh e Ulf também estão presentes como cavaleiros de dragão de Rhaenyra. Daemon e Caraxes não participam da Primeira Batalha de Tumbleton, assim como Corlys e Gwayne não desempenham ali os papéis que ganham na televisão.
Como é na série: Ormund ocupa Tumbleton antes do grande confronto e transforma a cidade numa posição dos Verdes. Isso inverte toda a lógica militar: agora são Daemon e os exércitos dos Pretos que precisam atacar. A série ainda coloca crianças nas muralhas como escudos humanos para dificultar o uso de Caraxes e reúne em uma única batalha personagens que estavam espalhados por Westeros no livro. Tumbleton deixa de ser apenas uma batalha perdida graças a uma traição e vira também uma grande derrota pessoal e estratégica para Daemon.
11. Os “Dois Traidores” viram apenas um
Como é no livro: Hugh Hammer e Ulf White entram para a história juntos como os Dois Traidores. No momento decisivo da Primeira Batalha de Tumbleton, os dois abandonam Rhaenyra e viram Vermithor e Silverwing contra as forças que deveriam proteger. A ambição dos dois continua crescendo depois disso, principalmente a de Hugh, que chega a acreditar que possuir um dragão tão poderoso poderia transformá-lo no próprio rei.
Como é na série: somente Ulf trai Rhaenyra. Ormund tenta comprá-lo com títulos e poder, mas a situação sai do controle e sua destruição de Tumbleton acaba sendo alimentada também por humilhação e ressentimento. Hugh faz exatamente o contrário: abandona sua posição para tentar salvar Kat e termina encontrando a mulher morta em consequência do caos provocado por Ulf. Isso muda completamente a relação entre os dois Sementes de Dragão. No livro eles se tornam parceiros na traição; na série, Ulf pode ter criado justamente o homem que terá mais motivos para querer destruí-lo.
12. Rhaenyra transforma sua guerra pelo trono em uma missão divina
Como é no livro: Rhaenyra acredita ser a legítima herdeira de Viserys e considera Aegon um usurpador. Conforme a guerra avança, ela se torna mais paranoica, violenta e vingativa. Mas sua reivindicação continua sendo essencialmente dinástica e política. Não existe em Fogo & Sangue a profecia secreta de Aegon sobre a ameaça que virá do Norte, muito menos uma Rhaenyra que afirma publicamente ser o Príncipe que Foi Prometido.
Como é na série: a profecia introduzida ainda na primeira temporada finalmente muda a própria forma como Rhaenyra enxerga seu poder. Com Aegon e Sunfyre reaparecendo e sua legitimidade sendo questionada, ela exige que o Alto Septão a reconheça como rainha. Quando ele se recusa, Rhaenyra ordena sua morte e depois revela ao povo a profecia sobre a Canção de Gelo e Fogo, chegando a se declarar o Príncipe que Foi Prometido. Ryan Condal descreveu essa transformação como uma mudança “sísmica” na relação da personagem com Westeros e reconheceu os paralelos inevitáveis com Daenerys Targaryen.
Mas e agora? A Casa do Dragão ainda está contando a mesma história?
Apesar de todas essas diferenças, a estrutura básica da Dança dos Dragões continua reconhecível. Jace morre na Goela, Rhaenyra conquista Porto Real, Aegon foge, Otto é executado, Tumbleton termina em tragédia e Helaena tira a própria vida. Os grandes marcos de Fogo & Sangue continuam existindo.
O que mudou profundamente foi a relação de causa e consequência entre eles.
Jace continua morrendo, mas agora Rhaena participa da tragédia. Helaena continua se suicidando, mas Maelor deixa de ser parte da equação. Tumbleton continua sendo destruída por uma traição, mas Hugh não trai. Alicent continua perdendo seus filhos, mas agora ajuda Rhaenyra a persegui-los. E Rhaenyra continua caminhando para uma forma cada vez mais autoritária de governo, só que a série acrescenta algo que Martin nunca colocou no livro: a convicção de que ela não está apenas conquistando um trono, mas cumprindo uma missão divina.
E, faltando apenas uma temporada para o fim, essas alterações são grandes o suficiente para que mesmo leitores de Fogo & Sangue já não possam assumir que sabem exatamente como a Dança dos Dragões vai terminar na televisão.
A expectativa é que a quarta temporada chegue em 2028.
A Casa do Dragão
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