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Créditos da imagem: Carcereiros/Globo/Divulgação

Séries e TV

Entrevista

Carcereiros | Aly Muritiba e Paulo Lins falam o que esperar da nova temporada

Nova temporada está chegando e o reforço na direção e roteirização promete uma leva de episódios ainda mais comprometida com a realidade

Henrique Haddefinir
11.04.2019
12h12

A primeira temporada da série Carcereiros foi avaliada pela Rede Globo como um grande sucesso e isso é verdade. Vencedora de prêmios e reconhecimento crítico, a série se aplica à categoria de produções segmentadas que têm dado certo desde os tempos de Carga Pesada e Mulher até Sob Pressão: séries que não fazem parte da linha "narrativa familiar" e que costumam ocupar por longos anos os horários tardios da programação. Essas produções recortam de modo quase crônico um pedaço da engrenagem social inflamada e seguem por ele exercendo arte e engajamento ao mesmo tempo.

Carcereiros começou mostrando a rotina de Adriano (Rodrigo Lombardi), um agente penitenciário que atua como o protagonista complexo e falho que compõe o universo dramatúrgico contemporâneo. Fazia seu trabalho e também se envolvia pessoalmente com ele. A estrutura procedural dos primeiros episódios ameaçou a qualidade da temporada, com temáticas fechadas que com pouco tempo de desenvolvimento (até pelo tamanho dos episódios) soavam menos orgânicas. A série era mais emocional na maior parte do tempo e o romance entre Adriano e a mulher de um detento serviu como a costura necessária para assentar melhor os eventos.

Para o segundo ano, com Adriano em outro presídio (dessa vez totalmente cenográfico) e vivendo a troca de papeis após a mulher ser presa por matar o ex-marido, a série foi atrás de novas vozes, que dessem ao programa ainda mais seriedade e verossimilhança. Aly Muritiba chega para reforçar o time de roteiristas e será, também, o diretor dos episódios: "Acho que por ter sido agente penitenciário, por ter trabalhado como carcereiro durante alguns anos e por ter desenvolvido algumas obras audiovisuais que falam sobre o universo prisional, a minha entrada no projeto na segunda temporada veio para somar enquanto roteirista e também trazer um pouco dessa experiência antropológica que eu vivi durante sete anos dentro da penitenciária".

O trabalho de Muritiba se une ao de Paulo Lins, que esteve por trás de obras como Cidade de Deus e Suburbia, o que também reflete a preocupação em buscar vozes que possam falar diretamente com esse universo: "Fiz uma pesquisa em presídios cariocas para escrever Cidade de Deus, e deu para aproveitar pontos desse estudo, porém muita coisa mudou de lá para cá. Tivemos que pesquisar muito, assistir a palestras, e contar com o departamento de pesquisa da Globo, que é excelente. Quando eu comecei a fazer parte da equipe, também recebi um bom material dos autores para me atualizar".

A transferência de Adriano para outro presídio coincide com o momento em que ele conhece o outro lado da convivência prisional: ele agora é o homem que vai visitar a mulher na cadeia. Segundo Muritiba esse é um dos grandes pontos da nova temporada: "A segunda temporada é muito mais dramática do que policialesca. A primeira tem uma carga de ação, de aventura e de investigação policial que muito embora também exista na segunda temporada, não está em primeiro plano. Na segunda temporada, era um desejo de todos que a história do Adriano e dos agentes penitenciários fosse dotada de mais realismo social. Então, acho que esse é um dos grandes diferenciais entre a primeira e a segunda temporada. Na segunda, temos menos ação e aventura e um pouco mais de drama".

Um dos grandes pontos de tensão do universo de Carcereiros é não só mostrar como os agentes penitenciários vivem em coexistência com o medo e o crime, mas em como o papel deles dentro daquela engrenagem pode afetar positivamente o indivíduo que vai para uma dessas instituições. "No meu documentário A Gente, eu falo de maneira muito crítica sobre o sistema penitenciário, sobre o excesso de burocratização do sistema que impede que o agente penitenciário cumpra de maneira adequada as funções para as quais ele foi contratado, e falo bastante sobre a chamada 'ressocialização'. Sempre disse, quando convidado a falar sobre o tema, que o prefixo 're' é um grande erro no tocante ao sistema prisional brasileiro, porque os sujeitos que estão presos nunca foram socializados, então não há como ressocializar alguém que nunca foi socializado, pois o Estado nunca os alcançou. Essa minha visão está, com certeza, presente nos episódios que eu escrevi", diz Muritiba.

Sobre a parceria com Paulo Lins ele completa: "Eu e o Paulo Lins levamos as nossas experiências para dentro da história. No tocante ao meu trabalho como diretor, acho que um dos aspectos mais relevantes a se notar é o fato de que eu tentei trazer para esta temporada a crueza quase documental que é típica dos filmes que eu realizo. Acho que isso está muito presente nos episódios que eu dirigi, mais diretos, mais secos".

Lins já tinha uma relação de proximidade com os criadores da série e isso já ajudou na organicidade do trabalho: "Eu sou amigo de longa data dos autores. Acompanho o trabalho deles de perto. Vários de meus trabalhos passaram pelo crivo deles. Trabalhei com Dennison Ramalho e Marcelo Starobinas, que tinham participado da produção anterior. Eu aprendi muito com esses dois também. Foi uma integração total. São excelentes profissionais e muito generosos". Já sobre a parceria com Muritiba e como a entrada dos dois vai refletir no resultado final, Paulo foi categórico: "O Aly conhece o sistema por dentro, viveu na pele o que Adriano vive na ficção. Ele, como roteirista já ajudava muito e como diretor, sua participação foi fundamental. Pequenos detalhes, os pontos de vista de cada personagem, os horários em que as coisas importantes podem acontecer dentro do cárcere e, sobretudo, o sentimento dos profissionais foram filmados de forma naturalista. Toda a dimensão realística que demos no roteiro, ele, também na direção, aumentou o que precisava".

A nova temporada de Carcereiros estreia dia 16 de abril e ao contrário do que aconteceu ano passado (em que foi dividida em duas), terá 13 episódios corridos. A série é de autoria de Marçal Aquino, Fernando Bonassi e Dennison Ramalho, tendo como diretor artístico José Eduardo Belmonte. A obra é uma parceria da Globo com a produtora Gullane e Spray Filmes.