Cartaz de BoJack Horseman

Créditos da imagem: BoJack Horseman/Netflix/Divulgação

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BoJack Horseman volta ao passado e busca redenção em temporada final

Primeira parte do encerramento explora as origens do vício do protagonista em álcool

Camila Sousa
06.11.2019
15h44

Desde que estreou em 2014, BoJack Horseman cumpriu com maestria a tarefa de tratar de assuntos delicados pela ótica absurda e exagerada de um mundo habitado por animais com corpos humanos. E funcionou. Desde a primeira temporada, o público se acostumou a acompanhar a derrocada do protagonista e suas inquietudes ao lado dos coadjuvantes. Agora, a produção se encaminha para o final com a temporada mais otimista de todas, mostrando que BoJack pode ser um cavalo melhor, ainda que o caminho seja tortuoso.

A temporada começa com o protagonista sentindo dificuldades para se adaptar à reabilitação. BoJack sabe que precisa fazer o tratamento. Pela primeira vez, ele está ciente do mal que faz para si e para as pessoas ao redor e sente que precisa mudar. No entanto, o seriado acerta ao colocar - com vários exageros característicos - as dificuldades que existem no caminho. BoJack passa pelos vários estágios de negação ao tratamento, desde achar que a vida é chata sem drogas, até sentir medo de voltar ao “mundo real”. 

Nesse momento, a série apresenta um artifício que permeia toda a primeira parte da temporada final: o uso de flashbacks para tentar explicar de onde surgiu o vício em álcool de BoJack e como isso se tornou um problema em sua vida. Tomado de culpa pela morte de Sarah Lynn - presença marcante em vários retornos ao passado - ele lembra, por exemplo, quando não conseguiu fazer uma cena em Horsing Around, mas chegou ao tom de humor necessário ao tomar um gole para “ficar mais solto”. São momentos aparentemente inofensivos, mas que custaram e ainda custam muito ao personagem. Assim, BoJack Horseman traz uma reflexão sobre como é necessário ficar atento a ações aparentemente inocentes, que podem se tornar algo muito maior.

BoJack Horseman poderia, então, seguir o caminho fácil de culpar o mundo por quem se tornou, mas a resolução vai além. Ao mesmo tempo em que apresenta as pessoas que fizeram BoJack beber, a trama deixa claro que ele também é responsável por suas decisões erradas. A resposta é agridoce. Não há apenas um culpado, um grande vilão para quem apontar o dedo. BoJack é vítima de vários fatores que fazem parte de sua vida e apenas ele pode mudar isso agora. 

Maternidade e novos começos

Como já é conhecido pelo público, BoJack Horseman usa seus coadjuvantes para desenvolver temas extremamente relevantes. O primeiro deles é conciliar carreira e maternidade, dilema vivido por Princess Carolyn. A personagem terminou o ano anterior com a conquista da adoção de sua filha, mas agora precisa lidar com o dia a dia de cuidar de uma criança pequena sem uma rede de apoio. Carolyn faz o que pode para dar conta de tudo, mas eventualmente percebe que não é possível e está tudo bem. Há um confronto com a romantização da “mulher perfeita”, que tem uma carreira de sucesso, é uma mãe totalmente presente e coordena todas as partes de sua vida com maestria. Em alguns momentos, Carolyn sente falta de quem era no passado, mas eventualmente faz as pazes com sua nova versão e encontra na filha a motivação necessária para seguir em frente.

A depressão também é um tema que ganha espaço com a conhecida ironia da série. Enquanto Diane passa por momentos realmente difíceis, negando que precisa de tratamento para não ficar mais deprimida, o Sr. PeanutButter representa uma versão “romantizada” da depressão, gravando comerciais e sendo o garoto-propaganda de uma campanha criada, em primeiro lugar, para “limpar sua barra”. Enquanto ela teme perder sua personalidade no caminho para se curar, ele usa a possibilidade de ter o distúrbio como uma desculpa para seus erros. A série é precisa ao fazer um retrato sobre como se fala cada vez mais sobre depressão, mas nem sempre da forma certa.

A transição entre o meio da temporada e o último episódio acontece com a mudança de visual de alguns personagens, representando que eles estão tentando sair de seus ciclos autodestrutivos para, finalmente, se sentirem em paz em suas próprias peles. Como dito anteriormente, nada disso será fácil, o que culmina em um gancho de grandes desafios para o cavalo protagonista. BoJack Horseman é a alegoria de uma sociedade formada por adultos com medo de viver. Porém, no meio de situações absurdas e ironias precisas, a série fala com seu público de uma forma única e agora está dizendo que, sim, há esperança.

A segunda parte da temporada final de BoJack Horseman estreia em 31 de janeiro na Netflix.