Bob Saget: O pai que todos queriam ter, na casa onde todos queriam morar

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Séries e TV

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Bob Saget: O pai que todos queriam ter, na casa onde todos queriam morar

Relembre a carreira e os melhores momentos de Bob Saget, o Danny de Três é Demais.

Henrique Haddefinir
10.01.2022
16h22

Quando Full House estreou, em 22 de Setembro de 1987, a televisão americana era o oásis de todos os comediantes que sonhavam em viver do próprio talento. Isso porque, naquela época, o gênero da sitcom estava em seu auge, e mesmo que não fosse necessário ser um comediante para ser escalado em um, os protagonistas ou personagens adultos geralmente caíam nas mãos de especialistas em humor. Era tudo quase sempre igual: tudo acontecia num cenário só (uma casa), o ambiente era totalmente familiar, tinha que ter sempre uma criança adorável e aquele som velho conhecido das risadas no fundo. Sons esses, aliás, que para o público brasileiro sempre soaram bastante falsos, porque eram inseridos na dublagem final; enquanto na versão em inglês, as reações são naturais, porque a plateia assiste no estúdio.

O sucesso das sitcoms chegou até aqui e Full House (rebatizada como Três é Demais), foi exibida no início dos anos 90 na Globo e, mais tarde, no SBT, onde acabou se popularizando um pouco mais no país. A série viveu o período mais importante do gênero, indo do meio dos anos 80 ao meio dos 90, passando ilesa pelo desgaste da fórmula e redescobrindo-se, em plenos anos 2000, em um bem-sucedido revival da Netflix, que não ganhou tradução em português e foi chamado apenas de Fuller House. As sitcoms – quaisquer delas – são verdadeiras máquinas de nostalgia e se marcam na nossa memória como se fossem tatuagens catárticas. Também por isso, a morte de Bob Saget tenha tido um impacto tão forte entre os fãs de Full House. Bob vivia um pai que qualquer pessoa adoraria ter.

Inicialmente, Full House não seria Full House e nem Danny ficaria nas mãos de Saget. O programa foi planejado, originalmente, para mostrar as aventuras de dois amigos, mas a ABC mudou de ideia no percurso e pediu uma encomenda mais familiar (afinal, era isso que dominava o mercado das comédias). Quando a ideia mudou, Bob não foi escalado para o pai das meninas Tanner de primeira, mas após a filmagem do piloto, os produtores executivos não gostaram do resultado e resolveram substituir o primeiro ator escolhido. Bob, que já tinha uma experiência como comediante desde a época da faculdade, assumiu a posição e conquistou a audiência imediatamente.

Daddy Danny

Dentro da estrutura das sitcoms, as figuras do pai e da mãe são essenciais. Mas, também carregam a realidade de que, na memória dos fãs, permanecem mais os coadjuvantes super expansivos. É natural que as pessoas citem mais Michelle (as gêmeas Olsen) ou o Tio Jesse (John Stamos)... Mas, toda sitcom precisa desse norteador moral, que sempre está ali para dar as lições necessárias, que às vezes nos incomodam, mas que são carregadas de ternura. Danny, o pai das meninas Tanner, era um desses papais... Quase sempre de terno, quase sempre precisando manter o caos organizado o máximo possível, porque a “casa cheia” do título incluía um cunhado rebelde, um amigo comediante e quatro mulheres em idades totalmente diferentes.

Não era incomum, por exemplo, que acontecessem coisas inacreditáveis, como o dia em que Michelle comprou um burro e esse foi basicamente o problema com o qual Danny teve que lidar. Em uma entrevista para Conan O'Brien, Bob Saget revelou que no dia da filmagem desse episódio foi preciso ainda mais controle porque o burro teve uma ereção durante uma cena e o caos se instaurou no estúdio. É muito curioso, porque mesmo que Danny precisasse ser essa figura paterna sólida (como no episódio da quarta temporada em que ele precisa, pela primeira vez, colocar Michelle de castigo depois que todos já estão sinalizando o comportamento dela), ele também conseguia ser carismático. Como esquecer a cena maravilhosa , da primeira temporada, quando todos têm catapora e ao fingir ligar para Michelle (que mal sabe falar nesse ponto da série), Danny se diverte quando a bebê desliga na cara dele? Também nesse episódio ele canta, e a música era sempre o artifício que ele usava para acalmar a menina. Quem viu isso se repetir com a galera toda em Fuller House não conteve a emoção.

Embora o papel de Danny fosse sempre apaziguador, conciliador, ele também teve seus momentos de destacar-se para fora da curva. Em muitos casos, até mesmo para quebrar essa expectativa centrada que sempre lhe era direcionada. Na quarta temporada, por exemplo, Danny tenta ser “descolado” e aparece de rockeiro no episódio 15. No primeiro ano, ele faz provocações ótimas com Jesse fingindo que os dois são um casal, e mesmo que muitos desses momentos sejam mais constrangedores que tudo, eles sinalizam que apesar de todo sacrifício para manter a família, Danny é uma pessoa feliz.

Em uma cena da série clássica, Stephenie (Jodie Swettin) passa por um revés na escola, quando descobre que um colega com quem ela nunca se deu bem, é fisicamente abusado pelo pai. Steph não abre a história para o pai. Ao invés disso, ela confia o segredo ao tio Jesse e eles têm vários embates sobre o que é certo ou errado, já que ele toma a decisão de denunciar as agressões. Toda essa situação faz com que Steph observe o próprio pai por uma perspectiva distanciada pela primeira vez e ao final do episódio, mesmo sem dizer nada, ela caminha até ele e o abraça, como se dissesse: “Obrigado por ser o pai que você é”. Anos depois, já em Fuller House, Steph está pretendendo engravidar, ter sua própria família. Em dado momento, ela diz para o pai a frase que justifica e eterniza o papel de Danny em tudo que vimos acontecer até aqui: Steph quer ter uma família própria que possa ser ao menos parecida com a família que ele deu a ela.

Recentemente, a atriz Betty White faleceu, e Bob fez um depoimento lindo em seu instagram. Havia, no texto, a seguinte frase: “Eu não sei o que acontece quando a gente morre, mas se Betty diz que você fica com o amor da sua vida, então eu fico com ela nessa ideia”. Bob provavelmente foi encontrar-se com os seus amores, deixando aqui a certeza de que uma parte de sua trajetória representa, para muita gente, o afeto paternal mais aconchegante e a “casa cheia” mais acolhedora de toda a TV. 

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