Barrados no Baile | Elenco abraça o ridículo e faz do revival uma grande piada

Créditos da imagem: Brian Bowen Smith/Fox/Divulgação

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Barrados no Baile | Elenco abraça o ridículo e faz do revival uma grande piada

Estreia contou com o retorno de Jennie Garth, Tori Spelling e mais

Henrique Haddefinir
08.08.2019
23h06
Atualizada em
16.08.2019
14h43
Atualizada em 16.08.2019 às 14h43

Jennie Garth e Tori Spelling são guerreiras, elas não desistem nunca. Garth, durante os anos que se seguiram ao fim de Beverly Hills 90210, tentou alguns filmes, voltou para uma participação no reboot de 2008 com um novo elenco e ficou por aí mesmo. Isso até Tori (que tinha feito uma dúzia de reality shows expondo a própria vida) convencê-la a embarcar num sitcom totalmente capenga chamado Mistery Girls e que, é claro, não tinha como emplacar. As duas, contudo, não se deram por vencidas e nesses tempos de revivals recheando carteiras, lá foram atrás de seus antigos parceiros de elenco, tentar dar um jeito de convencê-los a toparem a antes impossível reunião. O mais surpreendente é que, dessa vez, elas conseguiram.

Beverly Hills 90210 se tornou um fenômeno no mundo todo e aqui no Brasil chegou a ganhar horários nobres de exibição na Globo, que a batizou de Barrados no Baile tirando como base a premissa inicial: Brandon (Jason Priestley) e Brenda  (Shannen Doherty) se mudam com a família para a rica Beverly Hills e por terem vindo de uma origem conservadora e "humilde”, se chocam com os modos abastados e sem controle dos milionários da região. Na logomarca criada pela Globo, os dois erres da palavra barrados se deslocavam na abertura, também como uma referência ao fato de Brandon e Brenda serem gêmeos. Na cidade eles se tornavam amigos da virginal Donna (Tori Spelling, filha do produtor principal), a estereotipada loira fatal Kelly (Garth), o deslocado David (Brian Austin Green), a figura materna Andrea (Gabrielle Carteris), o boêmio Steve (Ian Zering) e Dylan, o rebelde (Luke Perry).

Quando o revival foi anunciado a grande dúvida era de como as histórias aconteceriam, uma vez que aquela era uma série sobre problemas juvenis e o elenco já está bem longe dessa realidade. O público não aceitaria ver episódios que ainda insistissem em problemas clássicos das séries adolescentes, contextualizados em atores já tão maduros. A solução encontrada acabou sendo o grande atrativo da produção: a série mostrará em seis episódios versões dos próprios atores, lutando com a realidade de que os personagens que viveram os perseguem; e decidindo se reunir para produzir uma volta. Atores vivendo versões exageradas deles mesmos já tinha funcionado em Apartment 23, por exemplo, onde James Van Der Beek se saiu muito bem justamente ao abraçar a forma como Dawson Leery era parte inerente de sua carreira. E fazendo muita piada disso.

A estreia de BH 90210 tem uma iluminação exagerada, filtros de imagem bastante protecionistas e o elenco se esmera ao máximo para estar sempre perfeito em cena, sem nenhum fio de cabelo fora do lugar. É uma preocupação típica da televisão dos anos 80 e 90. Após os anos 2000, a boa televisão tem alta resolução, mas valoriza a sujeira, a distorção, a imperfeição. Essa super preocupação com o vídeo limpo aproxima demais a série de um tom novelesco, que de certa forma, não deixa ser coerente com os objetivos dessa renovação. O texto, entretanto, se esforça para fazer graça com toda a situação, usando uma linguagem moderna e tentando se comunicar com o que está vigente nas comédias contemporâneas. O resultado ainda é um pouco estranho, mas sobretudo para quem acompanhou os dez anos da série original, é bem divertido.

Nesse reboot, Tori tem seu último reality cancelado, Jennie está passando por um traumático divórcio, Brian tem uma esposa bem sucedida enquanto ele é esquecido, Ian também tem problemas com o casamento, Gabrielle lida com desejos sufocados por muito tempo e Jason, que viveu anos de uma fama de bom moço, mostra que não é tão bom moço assim. Nesse cenário, uma mistura louca de elementos reais com pura ficção se desenvolve ao passo que uma convenção de fãs os obriga a se verem após anos. Há muitas menções espertas ao passado da série e muitas boas piadas sobre como eles estão agora. Shannen Doherty, que foi demitida por mau comportamento no set logo após a quarta temporada, havia se recusado a voltar, mas voltou atrás quando Luke Perry morreu. Por anos os fãs pediram pelo retorno de Brenda e um dos pontos altos da estreia foi quando o roteiro precisou lidar com isso. Já queremos saber se eles falarão claramente sobre o que aconteceu quando ela saiu ou mesmo da terrível rivalidade que Jennie e Tory tinham com Tiffany Thiessen, que entrou para substituí-la. Tudo é extremamente falso e ao mesmo tempo, não é.

De fato, mesmo com toda a comédia feita com eles zombando de si mesmos, o aspecto mais real é a ausência de Luke, que faleceu repentinamente em março desse ano, vítima de um derrame. As homenagens a ele provavelmente vão continuar nos próximos episódios, mas foi especialmente bonito, durante a sequência no avião particular da esposa de Brian, ver que o momento de falar sobre isso escolheu a delicadeza e não o sensacionalismo. Ficam as palavras de Tori sobre o que realmente sobra da experiência de ter sido parte de algo tão importante: “Nós não vamos ficar aqui para sempre, mas o que fizemos juntos vai”.