De A Feiticeira até WandaVision, o que mudou para as bruxas na TV?

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De A Feiticeira até WandaVision, o que mudou para as bruxas na TV?

Relembre a trajetória das personagens feiticeiras dos últimos 60 anos

Renata Moniz
25.10.2021
11h34

A década de 60 foi muito conturbada em todas as suas esferas: política, social e principalmente, no aspecto cultural. Conforme o movimento de contracultura atravessava aqueles anos e prometia mudanças significativas na sociedade, uma outra causa social também criava um levante muito forte nessa época: o movimento feminista. Muitos estudiosos apontam que a segunda onda do movimento aconteceu nesse período, sendo norteado por obras como O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, e A Mística Feminina de Betty Friedan. Além disso, durante a década de 60 e 70, várias pautas sociais tidas como minoritárias começaram a aparecer mais fortemente. É dentro de todo esse contexto que, em 1964, surgiu A Feiticeira, uma das primeiras séries a trazer uma bruxa como protagonista. 

No momento que essa série surge, o criador Sol Saks tinha uma certeza: ele iria criar uma série com uma protagonista bruxa. No entanto, faltava um conflito central que fizesse a história caminhar, e é assim que surge a premissa da série: uma comédia de situação, de um casal que representasse os valores da família tradicional norte-americana a todo custo, ainda que a esposa fosse uma feiticeira. Em todos os episódios, a protagonista se vê diante de situações em que é chamada a usar o seu poder, mas frente à repressão do marido, prefere sempre resolver pelo caminho humano, e apenas na última instância recorrer ao uso de seu poder. 

A Feiticeira e Jeannie é um Gênio

A comédia dos episódios aparecia justamente nisso, nas tentativas de Samantha torcer o nariz e resolver algo magicamente, entretanto, isso sempre acontecia de um modo atrapalhado, levando a uma consequente bronca do marido. Quanto ao pano de fundo que justifica isso, a escritora e roteirista Renata Corrêa explica: "Desde os anos 50, os grupos minoritários politicamente (causas raciais, de direitos humanos, LGBT+) estavam fazendo avanços substanciais, mas é nos anos 60 e 70 que isso fica mais evidente. Com isso, passa a existir uma forte reação conservadora dos meios de comunicação e do status quo em geral. A televisão sempre teve uma característica de ser um meio de comunicação de massa mais conservador, porque ela depende do dinheiro dos anunciantes e isso fica bem claro quando a gente fala das comédias de família, de situação (sitcoms) que a gente vê nos anos 60 e 70."

Conforme A Feiticeira (exibida pela ABC) atingia ótimos índices de audiência e tinha uma boa recepção pela crítica, o canal concorrente NBC decide criar como resposta a série Jeannie é um Gênio, que acaba não tendo o mesmo sucesso e prestígio de sua concorrente, mas também consegue perpetuar na sua narrativa as mesmas atitudes repressivas, dentro dos valores vigentes -- ainda que em algum momento tentasse flertar com a modernidade da época.

"Tanto Samantha quanto Jeannie tinham poderes mas eram reprimidas, porque ainda refletiam a mulher da sociedade do início dos anos 60. As duas eram proibidas de usar seus poderes justamente pelos homens que elas amavam e obedeciam, talvez porque eles se sentiam emasculados. De qualquer maneira, Samantha e Jeannie eram uma evolução das mulheres dos anos 50 e até flertavam com o pensamento feminista, mas ambas não deixavam de ser fruto de sua época", afirma Jacqueline Cantore, executiva de televisão. 

Em A Feiticeira, o flerte entre as causas feministas, versus a repressão conservadora dentro disso fica muito claro. Enquanto que a personagem da Samantha representa a figura da mulher que era dona do lar e não contestava as atitudes do marido, sua mãe, que também era uma feiticeira muito poderosa, vai na contramão disso. A todo instante, Endora tenta desmanchar o casamento da filha, contestando que ela não deveria se casar com um homem sem poderes, ou ainda, se submeter às regras dele de normalidade. "Nesse período existe um renascimento com essas características mais modernas, do tipo 'a minha esposa é uma feiticeira', mas apesar delas não serem as esposas tradicionais e absorverem essa contracultura, existe uma repressão ali. Então, é curioso, porque você absorve esteticamente a contracultura e ao mesmo tempo você se rende a esse backlash, que é essa reação conservadora aos avanços sociais nessas tramas", afirma Renata. 

Buffy, Sabrina e Charmed

Após o auge das bruxas nos anos 70, na década seguinte as narrativas de sci-fi continuam a aparecer nos programas da rede aberta norte-americana, mas é só no decorrer dos anos 90 que essa representação volta com força e expressividade. Começando com Buffy, a Caça-Vampiros, protagonizada por Sarah Michelle Gellar, que interpreta uma caçadora de seres malignos sobrenaturais. Apesar da série focar mais na trajetória de Buffy, que era uma caçadora e não uma bruxa, a série foi um sucesso absoluto de audiência, influenciando e inspirando consequentemente várias outras que viriam a seguir.

Dentro do contexto em que Buffy foi lançada, ou seja, no decorrer dos anos 90 e início dos anos 2000, Hollywood vivia sua efervescência e ápice de tramas que giravam em torno do universo adolescente. É o caso de Sabrina, Aprendiz de Feiticeira", que surge em 1996, como a segunda encarnação da bruxinha na televisão. Uma das co-criadoras da série, Nell Scovell, chegou a afirmar em uma entrevista para a revista Elle americana em 2021 que, apesar das referências e de crescer assistindo séries como A Feiticeira, em Sabrina, a protagonista não é proibida de usar seus poderes, e inclusive é incentivada a aprender e usar com cautela. Já em 1998, surge Charmed, série que retrata a história de três irmãs que descobrem ser bruxas, e que usando os poderes juntas, eram imbatíveis contra as forças do mal. Charmed foi pioneira ao trazer o protagonismo para três mulheres -- que ainda por cima eram bruxas e indestrutíveis.

WandaVision e a Feiticeira Escarlate 

Com o passar dos anos, frente a tantos avanços sociais, muitos elementos foram se transformando, e essas bruxas vieram se tornando personagens complexas, cheias de camadas psicológicas. É o caso do grande fenômeno da Marvel, a aclamada minissérie WandaVision, que explora a força do luto na vida de uma mulher poderosa. 

Em um primeiro momento, em uma tentativa escapista, Wanda decide criar um universo paralelo se baseando completamente no repertório que ela tinha das sitcoms dos anos 60, de tranquilidade e vida ideal, mas é apenas com o passar do tempo que ela vai entendendo que aquele universo não é tão perfeito como parecia ser. "A série traz os formatos televisivos como metáfora para esse conflito subjacente da personagem. Essa mulher sofreu um luto violento e a fantasia dela de vida perfeita é essa vida, a princípio, da década de 50, da sitcom familiar, ingênua, inocente. E a gente pode fazer uma análise feminista no sentido de que, isso também é a queda, a saída do paraíso, porque conforme as décadas vão avançando, a feiticeira Escarlate vai ganhando, a Wanda vai ganhando consciência de que aquela vida perfeita na verdade não existe, ela é uma simulação. Aquela vida perfeita é uma farsa", explica Renata. 

Outras duas franquias importantes que retrataram suas bruxas com complexidade e protagonismo são American Horror Story: Coven e O Mundo Sombrio de Sabrina. A primeira trouxe o funcionamento de um coven (uma assembleia de bruxas) nos dias atuais, onde o antigo tribunal de Salém seria o novo tribunal virtual, onde essas bruxas não tinham receio de usar seu poder à luz do dia, como cada uma bem desejasse. Já em Sabrina, a franquia que surgiu em 1962 nos quadrinhos ganhou uma repaginada mais representativa e condizente com os dias atuais. Em O Mundo Sombrio de Sabrina de 2018, a protagonista é definitivamente mais segura de seus poderes do que suas predecessoras que já haviam interpretado esse papel. 

Com o passar dos anos, o que mudou? 

"Sabrina, a jovem meio bruxa, meio mortal, é atrevida, abertamente feminista e quer 'derrubar o patriarcado',  embora use os termos mais como 'lacração' do que posicionamento. Mas considerando que ela tem só 16 anos, vale a intenção, certo?", diz Jacqueline na entrevista. "Melisandre, de 'Game of Thrones', subverte todos os símbolos da bruxaria convencional e é uma das mulheres mais poderosas de Westeros. E Wanda Maximoff, de 'WandaVision', é um poço de complexidade emocional. É claro que 50 anos depois de Samantha e Jeannie, as bruxas estão mais liberadas e em linha com o pensamento atual. Todas têm controle sobre seu poder, mesmo Wanda, que vai aprendendo", conclui. 

Um livro famoso lançado em 2013, Homens Difíceis, foi muito importante para exemplificar e mostrar a complexidade psicológica de personagens como Tony Soprano, Walter White e Don Draper, personagens icônicos da TV. A obra revela também um machismo gritante existente na indústria. Enquanto que para um homem ser considerado difícil ele deve ultrapassar limites morais e éticos, para uma mulher ser considerada difícil, o parâmetro é totalmente diferente. "Para uma mulher ser considerada difícil, estar vilanizada, ela precisa fazer muito pouco. Então quando a gente fala dessas metáforas da bruxa, ou da mulher que não tem medo de mostrar o seu poder, geralmente ela é vilanizada na história. Eu acho que a bruxa entra nessa metáfora, nesse lugar e nesse arquétipo da mulher que não pode ser dominada, e quando os criadores colocam esse arquétipo de forma que a mulher que mostra o poder é vilanizada, acho que a gente continua patinando nos mesmos estereótipos", explica Renata. 

Muita coisa mudou nas últimas décadas dentro da televisão. Várias séries criaram um espaço significativo para a representatividade dentro de suas tramas, mas ainda há muito o que ser feito para que essas mulheres possam abraçar seu poder sem culpa -- tanto na bruxaria como fora dela. Agora só resta torcer por mais roteiristas como Michaela Coel e Phoebe Waller-Bridge, para que as "mulheres difíceis" ganhem cada vez mais o seu devido protagonismo.  

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