Arquivo X e o império dos arquétipos
A verdade está nos mitos
Durante todas as temporadas de Arquivo X, o maior mistério que a série escondeu não foram conspirações ou criaturas, mas o segredo de seu próprio sucesso.
Com temática um tanto esquisita e aparentemente limitada - alienígenas e outros fenômenos que, para muitos, são apenas "fantasias" - o programa superou todas as expectativas e, no primeiro ano de exibição, sua longevidade já era previsível. Mas, haveria realmente um segredo?! Ou tudo ocorre ao acaso e pronto? Chris Carter é o maior gênio da ficção científica do século XX e os atores David Duchoviny e Gillian Anderson tiraram a sorte grande na loteria televisiva?
scully e mulder
arquivo x
mulder e scully
As explicações vão além da sorte e do marketing. Não é tão simples compreender a fórmula que manteve Arquivo X "vivo" por quase uma década e que ainda aguça a curiosidade dos fãs. É preciso entrar na mente humana, descobrir aquilo que a sensibiliza e desvendar quais itens, que reunidos, mobilizam milhares de pessoas.
É aqui, então, que vale a pena recorrer à Psicologia Analítica e mostrar que o envolvimento da audiência pode ser explicado pelo conteúdo arquetípico de Arquivo X.
Jung e o Inconsciente Coletivo
Definidos pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, os arquétipos - do grego arqui, arcaico, antigo e typos, padrão, matriz - são idéias primordiais, que existem no inconsciente. Estão presentes na mente de todos os seres humanos, sendo uma característica psíquica herdada. Diferente de Sigmund Freud que só concebia a existência de um inconsciente individual, Jung propunha também um setor da mente partilhado por todos os seres humanos, o chamado Inconsciente Coletivo, do qual os arquétipos fazem parte. Dito isto, estas estruturas arcaicas podem ser consideradas a matéria-prima dos sonhos, dos mitos e de tudo o que é criado pelo homem. Isso explica por quê duas ou mais pessoas têm as mesmas idéias em diferentes lugares do mundo, criando os mesmos objetos e gerando uma grande confusão quanto à patente das obras, como ocorreu com o avião, a televisão e outras invenções revolucionárias.
Como exemplo de arquétipo temos a concepção primordial do paraíso. A representação dela pelo homem torna-se mito: o Jardim do Éden, a Cidade de Ouro, o Céu. Assim como o paraíso, a idéia do "ser superior e criador" também é um arquétipo que leva a diversas representações, tais como o Deus católico, o Alá muçulmano e o Zeus grego. Todos partem do mesmo ponto, mas são materializados de forma diversa, por pessoas diferentes em épocas e locais distintos.
A mitologia de Arquivo X
O mesmo fenômeno de tradução dos arquétipos acontece em Arquivo X. Eles são a base do enredo, mas sua representação toma formas variadas. Novos mitos surgem nos episódios como personificações de conceitos imemoriais. A cada episódio, adquirem roupagem diversificada, mas continuam ligados às mesmas idéias, com significados semelhantes.
Esta prevalência dos arquétipos não é exclusividade de Arquivo X. Ela responde pelo sucesso de filmes como Guerra nas Estrelas, e da maioria dos desenhos animados da Disney. Via de regra, películas com grande aceitação de público e crítica são aquelas que equilibram, com perfeição, arquétipos, mitos e símbolos que, de modo quase subliminar, estimulam nosso inconsciente. O filme O silêncio dos inocentes, de Jonathan Demme, - uma das inspirações na criação de Arquivo X - é um exemplo notório deste processo de identificação do público. Olavo de Carvalho analisou-o, em minúcias, no seu livro Símbolos e mitos no filme "O silêncio dos inocentes".
Uma vez presentes tanto na psique humana quanto no seriado Arquivo X, os arquétipos promovem a identificação do público com a trama. A audiência é atraída pelo conteúdo de sua própria mente. A roupagem da trama é nova, mas o conteúdo já é conhecido inconscientemente.
A verdade está nos mitos
Vimos acima como o emprego engenhoso de arquétipos garante a Arquivo X um enorme poder de sedução sobre os telespectadores e explica sua longevidade. Para Carl Gustav Jung, arquétipo é uma idéia ou pensamento, proveniente do inconsciente coletivo, que aparece nos mitos, nos contos e em todas as produções imaginárias de qualquer ser humano.
A magia que cativa a audiência está presente desde a concepção das personagens do programa. São elas que transmitem credibilidade ao público, dando equilíbrio aos episódios. A principal, o agente especial Fox Mulder, personifica o mito do alquimista medieval. Este ícone une práticas científicas e místicas a fim de encontrar a pedra filosofal, a fórmula capaz de converter qualquer metal em ouro, e que, num sentido mais espiritual, seria a resposta para a transcendência humana. A alquimia era uma prática mística que utilizava tanto o ocultismo quanto a ciência. Sendo eclética, não hesitava em empregar diferentes caminhos em busca das respostas.
Mulder é crédulo. Acredita em fenômenos paranormais e, por meio deles, espera, compreender melhor a vida. Em momento algum, duvida da existência do inexplicável Mesmo assim, respeita a ciência, empregando-a, quando necessário, para comprovar suas "loucas" teorias. Nesse cativante agente do FBI, voltam a se encontrar misticismo e ciência, que, na Idade Média, uniram-se para desvendar o segredo da pedra angular. Em suma, Mulder é um homem holístico, sem limitações, aberto a novas descobertas.
Dana Scully, por sua vez, é a personificação do ceticismo. Ela precisa de provas concretas para crer no paranormal. E, mesmo quando as tem, recusa-se a enxergar a verdade. A personagem encarna o mito do cientista, ou seja, o pensamento lógico-racional, que, desde sua sistematização, na Grécia do Séc VII a. C., vem impondo o método científico como o único válido e rechaça toda e qualquer crença mística.
Scully é a representação do arquétipo que forma a base da ciência contemporânea. Como médica, sua conexão com o pensamento científico é ainda maior. Procura enquadrar os fenômenos paranormais, e sempre busca respostas cabíveis. Ao contrário de Mulder, tem a mente fechada, restrita por padrões e preconceitos.
Juntos, os agentes Mulder e Scully retratam o arquétipo do Par Supremo: macho e fêmea, dia e noite, calor e frio, sol e lua, bem e mal, credulidade e ceticismo. Em Arquivo X, é essa paridade que garante o equilíbrio da trama; o bem, representado pelos agentes, e o mal, personificado pelos inimigos da dupla, são opostos arquetípicos que conferem harmonia à série.
A tensão se faz presente, porque os opostos nunca se tocam totalmente. Mulder e Scully jamais se unem e a profundidade de seu relacionamento permanece um mistério. O mesmo se dá com o bem e o mal: os agentes nunca solucionam os casos por completo, o mal nunca é aniquilado por completo. A credulidade de Mulder não anula o ceticismo de Scully, e o contrário parece igualmente impossível.
Nunca Mais
O episódio Nunca Mais (Never Again) é um exemplo de como os mitos, os símbolos e os arquétipos laçam a atenção do público. Neste capítulo, Mulder tira férias e envia Scully à Filadélfia à cata de suspeitos. Ela está descrente dos Arquivo X, pois os casos nunca se solucionam por completo. Quando segue um suspeito até uma loja de tatuagens, encontra Eduard Jerse tentando se livrar de uma tatuagem feita na noite anterior. Ele acredita que fala com a ilustração e que esta o manipula, levando-o até mesmo a matar.
Amargurado com a perda da esposa e dos filhos, Jerse mandara tatuar uma garota em seu braço direito, junto à inscrição Nunca Mais. A imagem representa um arquétipo de iniciação que marca transições como casamento, nascimento e morte. Para algumas sociedades primitivas, muitos ritos marcam o fim da infância e o início da fase adulta. Realizam-se, entre outros, por meio de jejum, circuncisão, dente arrancado e o que nos interessa agora, tatuagem.
Ed cria seu próprio ritual de transição a fim de morrer como esposo e pai para renascer independente. A tatuagem em questão traduz sua libertação das mulheres, pois elas o fizeram sofrer - a ex-esposa e a chefe que o despediu. Também representa um arquétipo, a anima, que, de acordo com Jung agrega tendências psicológicas femininas na psique dos homens. Sua contraparte na psique das mulheres é o animus.
A anima pode se manifestar de forma positiva ou negativa. No último caso, acarreta pensamentos depressivos, apatia, medo e até mesmo suicídio. A de Ed influencia-o negativamente, fazendo-o odiar as mulheres.
Como Ed, Scully também passa por uma transição. Sente-se insegura quanto aos Arquivo X, bem como oprimida por Mulder, com quem reedita a convivência com o pai, um autoritário oficial da marinha. Ao conhecer Eduard, crê estar em busca de algo novo que quebre o caminho sem fim de seu cotidiano. Jerse a desafia a fazer uma tatuagem, e com isso romper o vínculo com o passado. A ruptura é, na verdade, com o arquétipo do pai, representado tanto por seu genitor, já morto, quanto por Mulder. A imagem que ela escolhe, para seu próprio ritual de iniciação é uma urobóros, a serpente que morde a própria cauda; símbolo do renascimento e da transcendência, bem como da medicina. Este último significado agrega os pares opostos: morte/renascimento e enfermidade/cura.
Como símbolo da medicina, a serpente evidentemente relaciona-se à Scully, mas, na qualidade de animal telúrico, também representa o aprisionamento à terra, que aqui se traduz na fixação da agente à figura paterna. Por fim, é a marca de sua transcendência de uma vida linear, sem expectativas, para uma fase "circular", o renascimento para novas perspectivas.
Curiosamente, a urobóros é o símbolo de Millennium, série também criada por Chris Carter, o produtor de Arquivo X.
No fim do episódio, Scully descobre que Ed "ouve" a tatuagem, porque a tinta usada pelo tatuador possui uma toxina, semelhante à mescalina, capaz de gerar alucinações auditivas, visuais e comportamentos violentos. Essa substância, um alcalóide presente no cacto peyote, é utilizada por tribos primitivas em rituais de transcendência. Quando Scully se tatua, Ed exige que o desenho seja feito com a mesma tinta, acentuando a importância da substância para o ritual.
A sociedade moderna perdeu o vínculo com crenças que nos guiam e conferem significado à vida. Em Nunca Mais, ambas as personagens sentem-se desorientadas. Ed perdeu a fé no casamento. Não há crença que possa ajudá-lo ou mitologia a que se apegar. Daí, ele cria seu próprio ritual. Scully, por sua vez, deixa-se levar pela crença de Ed e colabora para a ressurgimento de um ritual primitivo na sociedade civilizada.
Mais uma vez, em Arquivo X, um arquétipo ganha nova representação e cativa os telespectadores.
Todas as nove temporadas de Arquivo X e o filme de 1998 estão disponíveis no Brasil em DVD. Compre aqui.
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