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Artigo

Amora tempera o tragicômico do livro original com uma pitada de estranheza

Série do Canal Brasil é um deleite por misturar sensibilidades bem distintas

Omelete
2 min de leitura
11.10.2026, às 07H30.
Ana Hikari em cena de Amora (Reprodução)

Créditos da imagem: Ana Hikari em cena de Amora (Reprodução)

Juliana Rojas não consegue se conter. A grande diretora paulista, conhecida pela exploração do horror e do suspense em trabalhos como Trabalhar Cansa e As Boas Maneiras, deixa sua assinatura incômoda e atmosférica por todo o primeiro episódio de Amora – isso apesar do capítulo não ter nada de horror ou suspense, pelo menos a primeira vista.

Inspirada no livro de Natalia Borges Polesso, uma coletânea de contos centrada em personagens sáficas que virou marco da literatura LGBTQIAPN+ no Brasil, Amora contém histórias tragicômicas sobre família, aceitação, assertividade, romance… mais dramédia indie, enfim, do que cinema de gênero.

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Mas Rojas sabe bem que sempre há tensão a ser minada em algum lugar, independente da história que você está contando. Em “Tia Marga”, o capítulo de estreia de Amora, exibido para convidados no Festival do Rio 2026, esta tensão está na iminência do parto de Dani (Ana Hikari), e em quão pouco ela deseja que esse parto aconteça durante a visita que ela e a esposa, Tereza (Bruna Linzmeyer), precisam fazer à família ultra religiosa da moça após a morte de uma tia.

Rojas aproveita essa deixa para incluir tomadas assombrosas das estátuas sacras espalhadas pela casa da tal tia, iluminada através de vitrais coloridos como uma igreja antiga. E “Tia Marga” vira, nas mãos dela, uma alquimia deliciosamente charmosa – a comédia de reconhecimento e drama familiar do roteiro de Thais Guisasola e Julia Anquier se misturando com o nervosismo também muito identificável da direção.

O melhor de tudo isso é que, emocionalmente, o mix faz todo o sentido. A estreia de Amora traduz perfeitamente o medo de crescer LGBTQIAPN+ em um ambiente historicamente hostil, seu humor se posicionando de forma precisa como estratégia de sobrevivência e instrumento criador de comunidade (a cumplicidade de Tereza com o único primo gay da família é um grande acerto), seu drama servindo para tornar mais complexa essa relação em que afeto e desprezo caminham muitas vezes de mãos dadas.

Quando se fala do desejo por representatividade, enfim, me parece que é de Amora que se fala: histórias que encerram sentimentos complicados, que atravessam ideias de gênero e linguagens para expressar uma experiência que não existe de outra forma, nem feita por outra gente. Exatamente como sua diretora, esta série é uma de uma.

*Amora exibiu o seu primeiro episódio no Festival do Rio 2026. A série estreia no Canal Brasil no primeiro semestre de 2027.

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