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Séries e TV

Artigo

Amor de Mãe | Novela da autora de Justiça vai te fazer lembrar de Lost

Narrativas fragmentadas e teoria dos degraus de separação surgem em flashes na estreia da nova trama global

Henrique Haddefinir
27.11.2019
17h27

Antes da estreia de Amor de Mãe, nova novela das 21h da Globo, o evento de lançamento revelou um urgente senso de expectativas. Não só por conta dos fracassos de A Dona do Pedaço perante a crítica e a classe artística, mas também por conta do nome por trás da nova história: Manuela Dias. A autora chega em um horário nobre tomado pelo mesmo ciclo de autores, que nos últimos anos vem seguindo à risca as recomendações da gestão de Sílvio de Abreu na direção de teledramaturgia: seja popular.

É uma afirmação ambígua, visto que denota uma perigosa ideia de correlação entre popular e tacanho, enquanto, na verdade, a preocupação com o popular deve ser apoiada na ideia de acessibilidade, sem nunca perder de vista o respeito. Antes mesmo de estrear, a novela precisou passar por transformações para ficar “mais simples”, o que é uma confirmação de que essa ambiguidade nem sempre foi interpretada corretamente pela emissora. Queremos ser entretidos, não ofendidos.

A Dona do Pedaço, no ar até poucos dias atrás, era um tratado de equívocos de interpretação na relação entre público e criação. As justificativas de seu autor eram de que ele “escrevia novelas para o povo e esse tipo de obra era discriminada”, esquecendo-se do fator identidade na hora de fazer esse julgamento. A rejeição da crítica não alcança obras como Bom Sucesso, tão simples e folhetinesca quanto, justamente porque ela não subestima. A rejeição não era um dos objetivos de A Dona do Pedaço, mas seu autor parecia incapaz de entender que desleixo textual não é o deleite das massas.

Manuela Dias chega até o horário com a série Justiça no currículo. Conhecida e festejada pelos fãs de séries espalhados pelo Brasil, Justiça tinha uma forma incomum de contar sua história, focando em um personagem a cada dia da semana e fazendo com que eles se interligassem discretamente no decorrer dos eventos. Era algo novo para nossa teledramaturgia, sempre amedrontada de arriscar-se ao novo, com medo de que a audiência escorresse entre os dedos devido a uma suposta preguiça de juntar peças.

Ainda que alguns se recusem a admitir, foi Lost que começou a mudar o jeito de se fazer TV em 2004. Se hoje temos uma Westworld no ar pela HBO, fragmentanda, referencianda e distorcendo ao máximo sua trama, isso de deve ao trabalho de Damon Lindelof e Carlton Cuse anos atrás. Lost “acordou” os estúdios, mostrando a eles que o público evoluiu e estava pronto para aceitar novos desafios. Para a série, uma história tem mais grandiosidade quando é o espectador que a desvenda e todos estão conectados de alguma maneira, contribuindo para o quadro geral de uma cadeia de eventos.

Já pensando nisso, Manuela Dias preparou três núcleos. Lurdes (Regina Casé) vem do nordeste atrás do próprio filho, que fora vendido pelo pai para uma traficante de crianças. Thelma (Adriana Esteves) descobre um aneurisma que a matará, mas não conta ao filho. Vitória (Taís Araújo) sempre quis ter um filho, mas acaba engravidando depois de uma única noite ao lado de um estranho. As três protagonistas vão se interligar em determinado ponto da história e é nisso que se apoia a novela, essencialmente. Ainda que dada aos exageros dramáticos do gênero, as peculiaridades da autora não podem se perder.

Na sua sequência final do capítulo de estreia, o personagem de Juliano Cazarré desce do ônibus e anda pelo trânsito a caminho de casa. Nessa longa sequência está embutido o núcleo da identidade da autora: espalhados pela trajetória que o personagem faz, estão as protagonistas e as pistas do que está por vir, passando pela tela em segundos, nos desafiando a prestar atenção, sair da catatonia presumida do horário e esperar pelo próximo evento, mais que pelo próximo produto a ser vendido. Boas novelas sabem ser ousadas sem abandonar o óbvio. A abertura da que acaba de começar é um exemplo disso: óbvia nas imagens e controversa nas fontes. Óbvia e ousada. Clássica e moderna. Alívio e provocação. Tudo ao mesmo tempo.

É fato que tudo pode mudar. O tal do “grupo de discussão” que avalia as novelas globais ainda é um dos organismos corrosivos que precisam ser superados. Mas, as perspectivas são bem animadoras. As novelas sempre deverão ser novelas (elas não são séries), mas elas não devem agir para nos anestesiar. Já não toleramos mais “pão e circo”. Hoje merecemos mais. Se é para ser circo, que seja o du soleil.