Sarah Paulson em cena de Impeachment: American Crime Story

Créditos da imagem: Divulgação

Séries e TV

Artigo

American Crime Story retorna com Sarah Paulson em mais uma atuação impecável

Estreia da terceira temporada da antologia, Impeachment, chega disposta a ser a pedra no sapato de Bill Clinton

Henrique Haddefinir
09.09.2021
16h41

Em uma das entrevistas que deu sobre a criação de American Crime Story, Ryan Murphy disse aos jornalistas que as temporadas da antologia só teriam histórias que refletissem os hematomas que a justiça americana infringiu na ordem social; e o quanto a engrenagem midiática foi conivente com crimes cometidos contra mulheres e minorias. Não bastava apenas reproduzir um crime famoso, mas estudar quais seriam as cordas que foram puxadas para que ele acontecesse, além dos desdobramentos públicos dessa ocorrência.

Por isso, o foco da primeira temporada – People Vs. OJ Simpson – foi a discussão étnica e o esmagamento de Marcia Clark. A temporada seguinte seria sobre o furacão Katrina, mas mesmo com elenco escalado e roteiros escritos, o FX resolveu engavetar o tema. A temporada The Assassination of Gianni Versace, que seria a terceira, passou na frente e focou na figura do assassino Andrew Cunanan e o quanto ele se aproveitou da negligência e da homofobia para continuar com seus crimes.

A franquia American Crime Story apresenta um Ryan Murphy gourmetizado. Tanto o primeiro quanto o segundo ano foram extremamente bem sucedidos, com prêmios caindo do céu por todos os lados. O longo hiato que separa as temporadas é uma evidência do quanto há uma preocupação em tornar as histórias críveis e equilibradas. Até a temporada atual, houve um hiato maior que o natural (por conta da pandemia), e, também por conta das circunstâncias, mais tempo ainda para conduzir a história de Monica Lewinsky da melhor maneira possível.

A história de Monica Lewinsky? Sim. Talvez a maior surpresa seja essa. Nos anos 90, quando tudo aconteceu, era inadmissível pensar em qualquer livro, filme ou série tratando o escândalo sexual de Bill Clinton pela ótica de Monica sem fazer dela uma oportunista ou uma lunática. A cultura mundial da época não dava créditos para uma estagiária gordinha, em detrimento de um presidente “charmoso”, conservador e “bem casado”. Monica era a “vilã”, a sonsa, a cínica, a aproveitadora, a sedutora... Em 2021 o olhar retrospectivo é diferente. A própria Monica Lewinsky aceitou o convite de Ryan Murphy para ser produtora executiva da temporada. Dessa vez, finalmente, ela teria o veículo e o mentor perfeito para levar sua história ao mundo.

Bad Tripp

American Crime Story: Impeachment está se apoiando no livro A Vast Conspiracy, de Jeffrey Toobin. A temporada sobre OJ Simpson já tinha usado um dos livros do autor, mas mesmo que no segundo ano a base tenha sido a obra de Maureen Orth, ambos acabam sendo somente um tapete bem embasado em que o drama dos roteiros pode se deitar sem medo. Aqueles que puderam ler os livros correspondentes a cada temporada sabem que eles não fazem os recortes que a série faz. Pegar todo esse material e situá-lo dentro da cultura da época, destacando tudo que ela representou lá e tudo em que ela ecoa aqui, é o trabalho dos envolvidos na parte artística da franquia.

Por isso – e para aqueles que já acompanham a antologia – não é estranho que o destaque dessa estreia tenha sido Linda Tripp (Sarah Paulson). A decisão de trazer a ex-funcionária da Casa Branca para a frente dos eventos é estratégica e faz parte do DNA da marca. Tanto no primeiro quanto no segundo ano, os protagonistas não eram os mais óbvios dentro da história, o que funcionou a favor da narrativa. Na primeira temporada, Marcia e Christopher eram refletores mais impactantes da tragédia que envolvia Simpson e Nicole. No segundo ano, a trajetória do assassino era tão importante quanto a da vítima, porque juntas elas traçavam mais completamente o “apagamento” da existência homossexual no país.

Então, Linda Tripp e seus sonhos de grandeza, misturados a uma constante sensação de humilhação, precisavam ser destacados para que ficasse claro um ponto essencial: Monica Lewinsky (Beanie Feldstein) foi um brinquedo na mão de pessoas que tinham determinado que o presidente seria derrubado a qualquer custo. O mais emblemático nisso tudo é que as motivações para isso nada tinham a ver com o comportamento nojento de Clinton. Ninguém queria combater os abusos. O que os envolvidos queriam era somente usá-los como arma para o Impeachment.

Com isso em mente, Ryan Murphy assumiu a direção do episódio, como costuma fazer nas estreias, entregando uma hora de assentamento da história, que, à primeira vista, parece reforçar o circo que seguiu-se às confissões de Monica sobre o caso com o presidente. Mas, talvez seja seguro dizer que o estranhamento também fez parte das estreias das outras duas temporadas, que logo em seguida passaram a se organizar melhor. Como também sempre acontece (e apesar de prevermos), as atuações são parte fundamental do que a antologia construiu ao longo dos anos.

Sarah Paulson não desperdiça um só momento como Linda Tripp. Aqui a experiência dela será diferente de quando viveu e redimiu Marcia Clark. Como fica claro desde os primeiros momentos, Linda não está ali para ser redimida. Com próteses para parecer mais corpulenta (algo que sempre aconteceu com atores homens, sem que a crítica tivesse feito qualquer problematização), com dentes falsos e uma postura baixa, Sarah transforma sua linda numa pessoa real, com motivações e impulsos que se justificam imediatamente. Mas Linda é “monstrificada” nesse primeiro momento; ela precisa parecer asquerosa, abjeta, ainda que saibamos que mais para frente, ela será provavelmente dimensionada. Ou não.

Ainda não podemos dizer como serão o Clinton de Clive Owen e a Hillary de Edie Falco, mas o potencial de grandeza dessa temporada é grande. O potencial de assombro para a Família Clinton é igualmente gigante. É como se Monica, através de Ryan Murphy, estivesse gritando o que na época ninguém quis ouvir: mesmo que tenha sido usada pelos adversários de Bill, ele cometeu um crime, ele era um abusador, um assediador; e ele merecia ter sido derrubado.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.