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AHS: Apocalypse revira as mitologias de Coven e Murder House

Crossover corrige problemas de Coven, mas invade negativamente o território de Murder House

Henrique Haddefinir
20.10.2018
16h04
Atualizada em
20.10.2018
18h14
Atualizada em 20.10.2018 às 18h14

Se os fãs de American Horror Story tivessem sido consultados a respeito de qual seriam suas temporadas sonhadas para um crossover, provavelmente os títulos não estariam de acordo com as escolhas do próprio Ryan MurphyAsylum foi a temporada mais adorada pela maioria do público e de lá para cá os outros anos estiveram sempre na margem da ambiguidade. Freak Show Hotel tiveram recepções diversas; Roanoke chegou perto de ser melhor recebida pelos seus fatores originais e Cult foi bem planejada, embora seja a menos popular de todas. Murder House sempre teve o carinho dos fãs, mas Coven foi, sem dúvida nenhuma, a temporada mais odiada de toda a história do seriado. Eis a surpresa generalizada após o anúncio de que seriam elas duas as protagonistas desse inusitado retorno.

Foto de American Horror Story
American Horror Story/FX/Divulgação

Murder House foi a primeira, aquela que estabeleceu o ritmo, a forma e deu destaque para o nome de American Horror Story, com sua abordagem antológica nunca antes vista com tanta força e doses de horror-dramático que transformaram o gênero no novo queridinho da TV. De fato, a série acordou a indústria para uma sequência de características esquecidas que agora fazem parte da rotina do entretenimento, tais como o retorno de astros do cinema que ficaram esquecidos pelos estúdios e a redução no contingente dramatúrgico, que possibilita a contação de arcos por apenas uma temporada. Murder House conduziu-se muito bem.

Já Coven teve a má sorte de vir depois de Asylum, uma temporada idolatrada pela crítica e que tinha um tom extremamente sombrio. Para o terceiro ano, Murphy quis fazer uma obra de pop-horror, com uma infinidade de referências mitológicas (frutos da longa e incrível história pregressa de New Orleans) que se misturavam ao texto natural da produção, que já é, por essência, uma metralhadora giratória de críticas ao showbizz americano. Justamente na temporada com referências mais seculares, o criador resolveu ser o mais moderno possível. Ele criou um Coven de bruxas afiadas, que usavam suas habilidades para vencer o tempo e a morte, invocando o passado de Tituba, mas fazendo isso vestidas com as melhores grifes. Era uma receita arriscada e embora riquíssima, extremamente passível de fracassar. E fracassou.

Murder House X Coven

Olhando para trás, os resultados finais de Murder House Coven demarcam muito bem as decisões que fizeram Murphy retornar à elas. A primeira temporada termina com Michael Langdon sendo sinalizado como um psicopata/monstro que nasceu das forças maléficas presentes na casa. Fazia sentido que numa temporada sobre o anticristo (e que era bem provável para anos seguintes) ele tivesse um retorno. Murder House deixou apenas essa ponta solta, de modo estratégico, tendo conseguido contar sua história corretamente e sendo muito mais contemplativa que problematizada. Murder House não tinha do que se redimir.

Coven, contudo, passou por problemas notórios. Por definição ela já era problemática e tinha um número de personagens maior do que seu pouco tempo de tela podia suportar. Além, é claro, de um número de referências acessíveis três vezes maior do que os dois anos anteriores. Inebriado, Murphy quis dar conta de tudo. O FX também ficou empolgado com números e pediu um derivado. Mais tarde, o showrunner admitiu que por causa dessa possibilidade, eles começaram a mudar a história e isso foi ferindo o planejamento da temporada. Quando deram-se conta do estrago já era tarde demais e quase como se estivesse punindo a si mesmo, Murphy foi exterminando personagens do clã e a história terminou cheia de decisões questionáveis.

Fantasmas e Bruxas

O anúncio do crossover levantou uma infinidade de teorias e até o episódio 5 as coisas seguiram de maneira extremamente coerente. A razão para isso foi o extremo reconhecimento dos envolvidos na série de que essa seria uma oportunidade para passar um corretivo principalmente nos problemas de CovenApocalypse preparou o terreno, explicou ao público que as bruxas do clã tinham previsto o evento catastrófico e tentaram fazer alguma coisa para evitá-lo. Nesse processo, a dramaturgia foi recuperando elementos mal-resolvidos de Coven, que incluíam a correção das “mortes” de Quennie (Gabourey Sidibe) e Misty (Lily Rabe), que na época em que aconteceram tiraram os fãs do sério. O resgate de Quennie, inclusive, proporcionou até mesmo um pequeno retorno a Hotel.

Ainda que extremamente problemática, a volta ao universo das bruxas foi catártica para boa parte da audiência. Apocalypse é uma temporada estruturada em torno disso mesmo: fan service. Cada personagem foi calculado para reaparecer no intuito de arrebatar o público, mas os roteiros dos episódios até então seguiam uma organização coesa. As bruxas tinham um trabalho a fazer e isso levava até onde tudo começou. Porém, enquanto Coven tinha muita coisa para resolver e explicar – um resultado de todas as suas pontas soltas – Murder House deveria ser apenas uma vitrine por onde os mais saudosos fãs poderiam vislumbrar o passado.

Não foi isso que aconteceu, infelizmente. Dirigido por Sarah Paulson (que viveu sua terceira personagem só nessa temporada), Return to Murder House foi um episódio que trouxe Jessica Lange de volta depois de três anos, o que seria para os fãs uma experiência religiosa. E ela não decepcionou ninguém. De fato, no que diz respeito a Constance não há o que refutar. Nem a ela e nem ao enredo que envolvia a passado de Michael (e a forma como ele chegou a ser reconhecido como o filho de Satanás). O grande problema do esperado sexto episódio foi achar que o universo de Murder House precisava de redenção. A mesma fórmula que reescreveu positivamente a história de Coven, acabou sendo negativa para a casa dos fantasmas.

Murder Romance House

Em suas entrevistas, Murphy sempre diz que um de seus motivadores criativos é o otimismo. Voltando aos finais das temporadas de todas as suas séries, eles são quase sempre otimistas. Ainda que muita gente morra, que haja dor e pesar, os últimos momentos são sempre otimistas. Murder House chegou a ter um problema de excesso de otimismo em sua finale, mas terminou mantendo seguros os seus aspectos primordiais: a família Harmonn tinha sido devastada pela chegada ao lugar e algumas das coisas que aconteceram eram irreversíveis. Para um mundo como o de AHS, manter a escuridão em alguns compartimentos é muito importante. Finais felizes fazem o horror escorrer por inteiro da receita, por isso algum sofrimento precisa resistir ao ímpeto otimista de seu criador.

"Return to Murder House" deixou tanta luz entrar que no fim das contas pouco sobrou da temporada como a conhecemos. Foi ótimo ver todo mundo de volta, mas o roteiro fez escolhas de redenção que feriam a essência da série. Ter pena de Moira (Frances Conroy), lamentar os destinos de Vivien (Connie Briton), Violet (Taissa Farmiga) e Ben (Dylan McDermott) era parte importante do código genético da série. O revés do destino, que fere e mata de forma aparentemente aleatória, precisa se manter vivo para que as emoções não fossem enganadas por falsos sacrifícios. Por isso foi lamentável ver os personagens serem reconfigurados em arremedos dramatúrgicos redentores, que estavam, de fato, carregados da incoerente pena dos roteiristas. Murder House terminou como deveria terminar. Nada ali precisava de “conserto”. Como em toda casa mal assombrada o público só deveria ter entrado - por curiosidade mórbida - dado uma olhadinha e saído sem mexer em nada.

Ao contrário disso, foi preciso engolir licenças românticas cafonas, ver Tate (Evan Peters) ser totalmente descaracterizado e ainda aturar a possibilidade de que ao sumir da casa, Michael (Cody Fern) – que era o produto do mal residente por ali – tenha levado com ele essa escuridão, transformando a residência em uma casinha de fantasmas felizes, como se esse fosse um infanto-juvenil de Steven Spielberg.

Há tempo e lugar para tudo. A paixão de Ryan Murphy é admirável e resulta quase sempre em trabalhos tomados de significados e epifanias. Mas, nesse caso, ela também feriu parte importante de sua obra. Infelizmente, por voltar a um universo redimido, é possível dizer que sim, o que era bom foi arranhado com traços irreversíveis. É claro que um episódio apenas não afeta definitivamente a recepção de Apocalypse. Ainda que o tropeço tenha sido dado, essa é uma temporada cheia de gratidão. Isso é bonito e, no fim, ainda faz valer a jornada.