A Queda da Casa de Usher é Succession versão terror da Netflix

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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A Queda da Casa de Usher é Succession versão terror da Netflix

Último trabalho de Mike Flanagan na plataforma começa com muitos personagens e um leque de mistérios

Omelete
4 min de leitura
11.10.2023, às 10H49.

Para quem espera ver a história de A Queda da Casa de Usher, conto de Edgar Allan Poe, na nova – e última – minissérie de Mike Flanagan na Netflix, é bom tirar isso da frente: a produção homônima não segue os passos da história original do escritor. Na verdade, julgando pelos três primeiros episódios, Flanagan está muito mais interessado em apenas temperar um universo completamente seu com o sabor de Poe. Existe uma vibe gótica, diversos acenos em nomes e versos recitados e um desconforto peculiar de Poe nos personagens, principalmente Roderick Usher (Bruce Greenwood), patriarca da família protagonista – mas a curta narrativa do conto original nem serviria para os oito episódios da minissérie. O foco de Flanagan é, portanto, criar uma versão moderninha do universo de Poe em uma história à la Succession

Isso porque a série A Queda da Casa de Usher foca na memória do milionário Roderick Usher, conforme conta ao Detetive Dupin (Carl Lumbly) sobre a morte de cada um de seus seis filhos, todos ambiciosos e terríveis herdeiros da fortuna Usher. A dinastia é assombrada há décadas e Roderick relembra sua história abrindo, aos poucos, alguns mistérios ao espectador: algo sinistro aconteceu com sua mãe na sua infância, uma reviravolta veio no Ano Novo de 1980, e, hoje, no meio de um julgamento criminal que envolve a família, uma espécie de maldição recai sobre cada um de seus filhos, que colapsam em circunstâncias misteriosas um a um. São muitas interrogações e muitos personagens para uma série só, mas isso não é exatamente novo para Flanagan, que equilibrou muitos pratos na recente – e boa – Missa da Meia-Noite

O criador já provou, também, com ótimos títulos, como Jogo Perigoso e Hush - A Morte Ouve, que sabe como prolongar uma premissa restrita por horas. Mas se supõe, também pelos títulos de cada um dos episódios da Queda da Casa de Usher, que remetem a diferentes contos de Poe, que Flanagan pretende viajar pelas narrativas do autor criando um universo que é embalado por Poe mas nunca guiado por ele. Enquanto investiga um traidor na Casa Usher e se aprofunda na vida de cada um dos integrantes da família, Flanagan passeia por bailes mascarados, gatos pretos, corvos sinistros e por aí vai – sem nunca perder o foco da luta de poder dentro da casa.

Como de costume, Flanagan está presente em cada pedaço da Casa de Usher, não apenas pelo seu tradicional elenco, formado sempre pelos mesmos rostos, mas porque os Ushers têm coisas a dizer, monólogos a serem feitos. Por trás de Usher está um pretenso discurso sobre a indústria farmacêutica e a epidemia dos opióides, com alfinetadas à Inteligência Artificial e por aí vai, mas os vacilos tradicionais de Flanagan – um discurso específico sobre limões e limonadas à parte –, estão menos visíveis aqui. Seja porque este é seu último projeto na Netflix, ou porque ele já falou demais em Missa da Meia-Noite, Flanagan parece se divertir mais em A Queda da Casa de Usher precisamente porque abriu mão de passar uma mensagem específica ou pesada. 

A dinastia, a indústria farmacêutica ou a fome de poder dos Ushers, portanto, servem mais como graça do que como lição e, nisso tudo, é admirável que Flanagan consiga dar peso para o discurso sóbrio (apesar do conhaque) e lento de Roderick, ao mesmo tempo que entrega absurdos e ridiculariza os personagens que o circundam. O magnata e Dupin, aliás,  parecem operar em frequências diferentes do resto do leque de personagens, mas o reflexo entre os dois tipos de narrativa – pelo menos até o terceiro episódio – se sustenta bem no contraste.

A Queda da Casa de Usher soa como um Mike Flanagan mais livre, e o engraçado é que, por mais que seja seu último projeto da Netflix, não é das rédeas de uma corporação que o autor parece ter se libertado, mas de si mesmo. Em uma adaptação livre de Poe, Flanagan encontrou um terreno para fazer o que quiser, como quiser, sem precisar ser verborrágico para distrair ou provar um ponto. Com terror o suficiente para prender a atenção, personagens divertidos e um equilíbrio admirável, parece que o criador vai dar um bom adeus ao seu público na plataforma. 

Os oito episódios de A Queda da Casa de Usher estreiam em 12 de outubro na Netflix.

 

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