10 anos de Fringe | O legado e a ousadia da série de J.J. Abrams

Créditos da imagem: Bad Robot/Divulgação

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10 anos de Fringe | O legado e a ousadia da série de J.J. Abrams

Cultuada produção de JJ Abrams faz 10 anos e seu co-criador continua sendo um dos nomes mais poderosos do showbizz.

Henrique Haddefinir
11.09.2018
13h52

Quando Fringe estreou na TV, em 2008, J.J. Abrams já era um produtor executivo de sucesso, já vinha ganhando respeito do público e da crítica por conta de trabalhos que movimentaram a indústria e repercutiram positivamente. Curiosamente, sempre fica a impressão de que o nome de produtor de televisão ganha mais destaque que um diretor de televisão, enquanto no cinema é o oposto. Por isso, mesmo que já tivesse feito filmes importantes como Armageddon e Missão Impossível 3, o nome de J.J era um Graal na televisão, onde Felicity, Alias e Lost já eram estabelecidas como exemplos do quanto a criatividade dele podia continuar rendendo muito ao entretenimento como um todo.

Embora a primeira série criada tenha sido Felicity (um drama juvenil de 1998 sobre uma menina indecisa com fartos cabelos ondulados) e a seguinte já tenha sido Alias (sobre uma jovem que escondia a vida paralela como espiã e que tinha  Jennifer Gardner e Bradley Cooper  no elenco), os trabalhos seguintes de J.Jcomeçaram a ter uma grande coisa em comum: a ligação do criador com elementos científicos e sobrenaturais, teorias quânticas, universos oitentistas, cultura pop abrangente ou direcionada a tudo que diz respeito especificamente aos geeks. De fato, foi a partir do fenômeno Lost (uma série que unia o mitológico e o científico de uma maneira que acabou mudando o curso da televisão), que o trabalho de J.J. como explorador desses conceitos ganhou terreno definitivo.

De fato, antes de Fringe, ele tentou emplacar uma série chamada Six Degrees e ela não deu muito certo. A produção tinha foco em uma teoria usada em Lost de que todos nós estamos a seis degraus de separação de qualquer outra pessoa do planeta. Contudo, o trabalho de J.J. na TV contém alguns desses erros de percurso, que, em sua maioria, pretendiam reciclar boas ideias tidas antes. Undercovers, Alcatraz e Revolution são alguns exemplos de títulos que tinham o selo J.J. e que reeditavam conceitos ou estruturas narrativas que haviam sido exploradas em sucessos anteriores. Fringe, inclusive, tem uma primeira temporada que sofre o peso dessas repetições até em sucessos que não tem a ver diretamente com  Abrams. Contudo, a partir de sua segunda temporada ela encontrou seu caminho e passou a ser forte o suficiente para se tornar uma poderosa referência.

Fronteiras

A premissa de Fringe é bastante direta, o que não deixa de ser uma ironia, já que todo o resto que circunda o show é extremamente abstrato. O piloto (tão caro quanto o de Lost, que já era um dos mais caros da história até aquele momento) começava com um misterioso caso que caía nas mãos da agente Olivia Dunham (Anna Torv), que na busca por tentar resolvê-lo, precisava da consultoria de um cientista excêntrico e genial chamado Walter Bishop (John Noble), que estava, por ventura, internado numa instituição mental. Olivia então precisava da ajuda do filho dele, o igualmente genial Peter (Joshua Jackson), que não tinha uma boa relação com o pai, mas que topava ser seu "tutor" para que as investigações pudessem acontecer fluidamente.

Durante sua primeira temporada, as coisas na trama central andaram bem devagar. Fringe invocava os sistemas narrativos procedurais que tinham em Arquivo X a sua maior referência. Agentes do FBI investigando coisas estranhas não eram uma novidade na TV. De certa forma, a passagem de Fringe pela TV foi menos notória do ponto de vista da audiência porque esse primeiro ano impôs menos a identidade do série, o que acabou sendo complicado dali para frente, com cada nova temporada sendo renovada depois de muita angústia dos fãs. De fato, com o tempo, a inteligência e sagacidade de Fringe foram crescendo tanto que ela passou a ser não mais um procedural sobre ficção científica, mas um estudo realmente especial das fronteiras conceituais que se escondem muito além do pensamento prático.

Foi apenas a partir da segunda temporada que a história central de Fringe começou a se desenhar claramente. O acidente de avião que dá início a tudo (olha ai, outro acidente de avião) acaba sendo apenas uma fresta por onde os três protagonistas precisam olhar corretamente. Assim que eles o fazem, a série entra na base dramatúrgica que a guiará quase totalmente até o ano 4, quando tudo sofre mais uma virada. Estamos falando de um seriado que trabalha cautelosamente conceitos como os de psicosinese, inteligência artificial, matéria escura, transmogrificação, neurocinese, projeção astral, pandemia, transcendência e muitos outros (inclusive citados na própria abertura). Mas, a base da série se estabelece na ideia de universos paralelos e é na junção entre isso e a misteriosa corporação chamada Massive Dynamics que residem os grandes segredos que literalmente deixam os espectadores sem chão.

Observers Are Here

Assim como em produções como Lost e Arquivo X (onde referenciação era parte do charme), Fringe também era cercada de elementos a serem descobertos e que faziam diferença na hora de entregar o panorâma da série. A abertura trazia os conceitos que cercavam os episódios e eles mudavam a cada ano ou mesmo de um episódio para o outro. A frase "Observers Are Here" estava escondida em todos os episódios, mas a presença dos homens carecas vestidos com terno só começou a ser esclarecida muito tempo depois do início (por fim eles se tornaram parte essencial da última e ousada temporada do show). Eles aparecem, também, em todos os episódios, o que mostra que a série pode ter começado a andar devagar, mas já sabia muito bem para onde pretendia ir. Além disso, a cada fim de bloco, antes da ida para o comercial, uma imagem surgia na tela e cada uma tinha um ponto amarelo em um lugar diferente a cada vez. Mais tarde descobrimos (graças aos fãs) que se tratava de um glyph code, correspondente as letras do alfabeto; e que a cada semana revelava  uma palavra que se ligava à trama do episódio. Uma iniciativa totalmente original e extremamente elegante.

Autores, estudiosos, romancistas e matemáticos são parte constante, também, da estrutura narrativa de Fringe. A série partia da Sequência de Fibonacci até os livros de  Isaac Asimov, passava por teorias quânticas e até flertava com espiritualidade.  Walter  era um cientista com uma mente em constante expansão e Olivia, mesmo sendo uma agente do FBI, tinha uma pré-disposição corajosa de enfrentar a realização de alguns dos experimentos propostos, muitas vezes indo contra as preocupações de  Peter. Astrid (Jasika Nicole), uma personagem secundária daquelas típicas em tramas de investigação (a pessoa do computador), cresceu tanto no apreço dos fãs que integrou definitivamente o elenco, passando a aparecer no material promocional da última temporada junto ao trio principal. Enfim, a paixão dos personagens afetou tanto a audiência que mesmo cercada de ciência, Fringe conseguia ser extremamente emocional.

Tulipas Brancas

Em um intenso episódio que discutia ciência e religião, lá na segunda temporada, Walter falava a respeito de como precisou passar a acreditar numa força maior para que ele pudesse ter para onde direcionar seu anseio pelo perdão do filho, que ele usurpou de seu lugar original, causando um colapso no eixo entre realidades que acabou colocando todo o planeta no caos temporal. O episódio usou para isso uma tulipa branca como metáfora (as flores são raras e belíssimas) e ela passou a ser um símbolo de esperança e afeto em vários outros momentos do show. A série jamais teria sido tão bem sucedida se seus poucos personagens centrais não tivessem sido tão bem construídos e preservados no decorrer da história.

Walter e Petertinham uma relação muito difícil e exatamente por isso qualquer momento de ternura entre eles era devastador. John Noble construiu um Waltercomplexo e impressionante; e  Joshua Jackson vinha de seu primeiro papel adulto depois do fim de Dawson’s Creek e conduziu o personagem com uma discrição e contenção corretas para os propósitos daquele universo. O mesmo para Anna Torv, atriz que teve muitas chances de mostrar sua versatilidade, como quando viveu sua versão do lado B, ao incorporar a consciência de William Bell (Leonard Nimoy, numa participação especialíssima). A atriz chocou com tamanha segurança no estudo minucioso dos trejeitos de Leonard.

As tensões das relações entre Walter e Peter; e também entre Peter e Olivia (que se apaixonam), ficam em pauta por muito tempo e em determinado ponto da trama, dão espaço a uma ligação que atravessa qualquer fronteira, qualquer tempo, qualquer universo... Ao lado de Astrid, os personagens chegam ao quinto e último ano já sendo exemplos cabais de como a ficção científica pode abrigar o coração com a mesma força que qualquer drama rotineiro da TV. Queríamos ver se eles conseguiriam vencer seus inimigos, mas também queríamos que eles pudessem viver suas vidas, torcíamos para que eles pudessem descansar. Nosso carinho por eles era tão concreto quanto as teorias que eles comprovavam. E esse é, também, um traço do trabalho de  J.J.  como artista; e que aparece em Alias, Lost  e até nas recentes Westworld e Castle Rock.

Por fim, Fringe encerrou sua trajetória de modo coeso e dramático, tendo conseguido o feito de não se ferir narrativamente em sua história, o que suas irmãs-antecessoras como Lost (em menor grau) e Arquivo X não conseguiram fazer. É bem provável que no futuro ela seja usada como exemplo definitivo do que a televisão é capaz de fazer quando feita com a ousadia da ciência e a simples paixão que nos move para onde precisamos estar. Essa paixão que o cérebro chama de personalidade e que o coração chama simplesmente de alma.