Sepultura

Créditos da imagem: Marcos Hermes

Música

Entrevista

Andreas Kisser fala do Sepultura na quarentena: "a gente já sobreviveu a tudo"

Conversando com o Omelete, o guitarrista do grupo focou na parte positiva do isolamento, e atribuiu o sucesso de Quadra ao fim dos dramas internos da banda

Julia Sabbaga
07.07.2020
15h51

Para Andreas Kisser, o trabalho não para. Mesmo em plena quarentena, quando o Sepultura foi forçado a adiar todas as datas de turnê – que promoveriam o aclamado último disco Quadra – para 2021, o guitarrista do grupo fala do isolamento social e de passatempos de quarentena sem parar de focar no trabalho. Conversando com o Omelete, Kisser contou tudo que tem feito durante este tempo em casa, e apesar de atividades incluírem maratonar Dark e terminar a série de Clone Wars, o foco é outro. Enquanto organiza a casa, ele prepara videoaulas, revê possibilidades de investir em programas de TV e está estudando como nunca. Para o músico, que tem praticado ao lado do filho Yohan, esse é o momento para “evoluir no instrumento”.  

Tudo isso faz bastante sentido para Kisser, que vê a quarentena com otimismo. Para ele, que é a principal força-motor da banda há algumas décadas, a paralisação do mundo pode ter atrapalhado os planos a curto-prazo, mas não é nenhum obstáculo incontornável. Retomando toda a história do Sepultura, Kisser descreve o momento atual como mais um capítulo na história conturbada da banda: “O Sepultura está muito acostumado com mudanças. Só que agora aconteceu com todo mundo e antes era só com a gente. Sai vocalista, troca de gravadora, aí depois acaba o vinil, vem CD, daí volta vinil, daí Spotify, streaming... A gente tá aqui, sobreviveu a tudo”.

Este discurso faz parte de uma visão de otimismo contagiante do músico. Questionado várias vezes sobre o impacto da quarentena sobre a banda, ele prefere ver tudo de um modo positivo, compartilhando uma visão que talvez tenha sido responsável por trazer a banda até aqui. Para ele, que está no Sepultura desde 1987, o grupo nunca esteve tão forte, e o argumento é bem fundamentado no sucesso de Quadra. Lançado em fevereiro deste ano, o 15º trabalho de estúdio marcou o retorno do Sepultura às paradas, em uma trajetória comercial que em alguns países superou o sucesso de Roots, um dos trabalhos mais reverenciados do grupo.

Para Kisser, tudo isso não é coincidência ou sorte, mas fruto de investimento, trabalho, e resultado de uma organização interna no Sepultura, que está mais bem-estruturado do que nunca: "Finalmente a gente conseguiu fazer uma coisa profissional, sem muito drama. O Sepultura sempre foi muito drama ligado ao business. Agora, a gente chega no ensaio e não fica brigando por causa de dinheiro”. Para ele, Quadra é o melhor disco até hoje porque a banda encontrou um equilíbrio inédito. Além disso, tudo se encaixou com o momento pessoal de cada um dos integrantes: “Eu me sinto melhor do que nunca, como compositor, como guitarrista, e tenho certeza que o Derrick [Green] o Paulo [Xisto] e o Eloy [Casagrande] também estão no seu melhor momento”.

Aprendendo na quarentena

O Sepultura foi uma das bandas atingidas fortemente pela quarentena, porque estava prestes a embarcar em uma turnê mundial para divulgar o Quadra quando tudo foi paralisado. Sobre o momento em que percebeu que as coisas estavam fora do comum, Kisser revelou que o baque aconteceu dois dias antes de embarcar para os EUA: “recebi ligações de bandas dizendo que era melhor não fazer [a turnê], que outras bandas estavam cancelando as turnês na Europa, nos EUA... Tudo aconteceu muito rápido a partir daí”. O que eles fizeram então? “Começamos a trabalhar”, claro.  

“Foi frustrante, mas ao mesmo tempo acho que a gente teve sorte até, de ter lançado o disco em fevereiro, que o disco saiu, teve um impacto, fizemos as promoções”. E para o grupo, a resposta foi continuar investindo onde consegue. Desde o início da quarentena, eles ensaiam remotamente e promovem a SepulQuarta, série de lives do grupo para conversar com os fãs, falar sobre o novo disco, seguir se apresentando e, como sempre, se manter ativo. “O Derrick está em Los Angeles, o Paulo tá em BH, e eu e o Eloy aqui em São Paulo. Mas a banda continua a todo vapor”.

O que faz falta de verdade é tocar ao vivo, que para Andreas Kisser é o objetivo de tudo. “Música para mim, é palco. O resto é tudo consequência”, ele diz, pela primeira vez mostrando certa ansiedade: “então é muito difícil”. Mesmo assim, ele rapidamente retoma o pensamento de persistência e aprendizado: “É estranho, mas nada que a gente não possa adquirir um conhecimento novo e usar para o nosso próprio bem”. 

Seguindo o trabalho na quarentena, o Sepultura estará na SuperLiveNerd Rock, que acontece em 12 de julho, a partir das 18h, no canal do Omelete no YouTube - saiba mais.