San Diego Comic-Con 2020

Artigo

De Aeon Flux a Furiosa, Charlize Theron conta como virou ícone de filme de ação

Atriz fala na Comic-Con sobre sua jornada para quebrar as barreiras do gênero

Marcelo Hessel
24.07.2020
15h14
Atualizada em
27.07.2020
10h20
Atualizada em 27.07.2020 às 10h20

O lançamento recente de The Old Guard colocou novamente em evidência Charlize Theron como um dos principais nomes em Hollywood hoje que buscam espaços para as mulheres no cinema de ação. Também pelo aniversário de cinco anos de Mad Max: Estrada da Fúria, parecia a hora ideal de celebrar a atriz sul-africana e seu trabalho no gênero, e um painel dedicado a ela aconteceu nesta quinta-feira na San Diego Comic-Con virtual.

Theron falou abertamente sobre sua jornada para ser reconhecida em meio aos homens que fizeram a história dos filmes de ação. "Eu fui criada por uma mãe que adorava os filmes de Chuck Norris e Charles Bronson, e meu pai adorava Mad Max. Fui criada com essa influência, além de ver já dramas adultos quando eu tinha oito, dez anos. Não acho que eu acordei um dia e decidi fazer filmes de ação, foi mais uma coisa que eu sempre tive vontade de fazer mas não tinha a oportunidade", conta.

O primeiro papel de destaque nesse sentido foi como protagonista da adaptação da animação Aeon Flux, em 2005, dois anos depois de Theron ter feito Monster com Patty Jenkins, filme que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz. "Isso foi logo depois de ganhar um Oscar em 2004, mas foi um filme difícil de fazer porque todo mundo tentava colocar o filme dentro de caixinhas e tinha ideias pré-concebidas do que poderia ou não ser feito ali, e acho que hoje há mais liberdade para um projeto assim, mesmo em termos visuais. Na época não foi um sucesso e a resposta foi bem dura, as pessoas repetindo que mulheres não tinham condição de estrelar seus próprios filmes de ação. Foi só quando Mad Max: Estrada da Fúria apareceu que eu percebi as oportunidades e consegui ressignificar isso, e desde então o gênero se abriu para mim."

Mesmo antes de Aeon Flux, Theron já enfrentava as barreiras a seu modo. "Quando eu fiz Uma Saída de Mestre [em 2003], foi minha primeira experiência mais focada em cenas de ação com dublês e lembro vividamente que era uma dinâmica desigual, por eu ser a única mulher num elenco masculino, e quando eu recebi meu cronograma de gravações e eu precisaria treinar seis semanas a mais do que qualquer um dos caras, isso foi meio que um insulto. Mas eu tomei como um incentivo, 'se vocês querem jogar desse jeito então vamos ver'." Embora envolvesse mais cenas de ação com carros do que lutas em si, Uma Saída de Mestre já exigia talentos que o estereótipo associa normalmente aos homens, desde os tempos dos filmes de carro com Steve McQueen nos anos 1960. "Eu me orgulho muito do trabalho com direção de carros e ação que fiz nesse filme. Lembro uma vez, no meio do treinamento, que Mark Wahlberg não aguentou as manobras em 360 graus que fazíamos com os carros e passou mal. Teve uma cena em que dávamos 180 graus com os carros, com objetos e pessoas dentro de um armazém, e eu fiz toda sozinha essa manobra. Me senti orgulhosa e nesse momento percebi que, sim, mulheres também podem fazer esse tipo de coisa."

Das filmagens difíceis, Theron relembra de como Atômica a desafiou profissionalmente, com os planos mais longos que seriam rodados de sete a dez minutos por vez. "Parece pouco mas é muito tempo para um ator, e você tem que fazer tudo direito. Eu não estudei artes marciais, mas acho que consegui fazer parecer plausível e eu me orgulho do trabalho nessas lutas. Eu senti que a gente estava desafiando a fórmula e mostramos que as mulheres realmente podem lutar duro num filme desses. Eu me sujeitei a uma situação extrema em Atômica porque, como atriz, eu ainda tenho aquela sensação de que aquele determinado papel pode ser meu último, então eu preciso dar meu máximo. Eu me senti muito responsável por aquele filme porque participei no roteiro, desde o começo, e eu não queria errar. É o que falamos sobre Aeon Flux, existe uma pressão e você não pode errar. E eu fiz Atômica aos 40 anos, então o relógio também não estava ajudando... No fim eu sinto que tive sorte de trabalhar com gente altamente competente nesse filme."

O que a atrai nos papéis, entre os dramas e os filmes de ação? "O que me intriga em geral é a bagunça do ser humano, especialmente as mulheres. Caras como Jack Nicholson e Robert De Niro têm a licença de fazer esses papéis de homens incrivelmente ferrados e perturbados e eu sentia muita inveja disso. A sociedade coloca a gente nessas caixas de madonna em que somos ou extremamente boas putas ou extremamente boas mães, mas e tudo que está entre uma e outra? Mulheres podem ser muito mais coisas, e podem ser muito mais complicadas que esses dois pólos. Quando me descrevem uma personagem como uma guerreira ou uma heroína eu não me empolgo porque não me relaciono com 'heróis', eu me relaciono com seres humanos normais, que agem com medo, bravura etc", diz a atriz.

O ponto de virada veio em 2015, com o quarto Mad Max, embora Theron já viesse fazendo filmes de ação há anos, como Hancock e Prometheus. "Furiosa é uma das personagens mais importantes que já fiz. Eu sei a importância dela e eu vi o potencial dela desde o início da produção, de poder colocar uma mulher numa posição daquelas. Foi como quando vi Sigourney Weaver fazendo Ripley [em Alien] e a força daquilo, ela não estava vivendo uma personagem que foi escrita como 'forte', ela estava vivendo aquilo, vivendo a força. Era muito autêntico. E Furiosa também parecia real para mim, autêntica. Isso não acontece sempre e eu me sinto sortuda de ter tido a oportunidade de fazer Mad Max e de estar preparada para aquilo."

Quando é questionada sobre o balanço que faz da realidade de Hollywood hoje, e do que imagina para o futuro de sua carreira, Theron reconhece que é um processo sempre em evolução. "Eu me inspiro constantemente nas outras mulheres que estão lutando essa luta, como Patty Jenkins, que está subindo a barra de filmes de ação femininos, e a pressão continua, ainda é um mercado muito dominado por homens, e essa luta para abrir espaços continua", diz. "Essa essência que eu projeto de que não tenho medo de nada é completamente motivada por medo [risos]. Eu encubro mas a verdade é que tudo me amedronta e eu só consigo criar a partir de um lugar de temor. Acredito que entrar num projeto e não ter medo dele é o que realmente soaria errado e terrível pra mim. Minha criatividade é assim. Você levanta, faz acontecer, encobre seu medo, e é isso que te faz seguir em frente. Eu tenho essa energia obsessiva mas ela é movida pelo pânico."