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Rock in Rio | The Who faz panorama da carreira em um dos melhores shows da história do festival

Banda abriu para o Guns N' Roses dando uma aula de coesão e vigor

Marcelo Hessel
24.09.2017, às 11H50
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H45
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H45

Depois de fazer seu histórico primeiro show no Brasil na sexta-feira, no São Paulo Trip, como headliner, o The Who abriu para o Guns N' Roses no Rock in Rio neste sábado com uma apresentação um pouco mais compacta, com três faixas a menos. Ainda assim, foi um panorama irrepreensível do rock britânico dos anos 1960 e 1970, e os veteranos Roger Daltrey e Pete Townshend mostraram vigor de moleques em um dos melhores shows da história do Rock in Rio.

Enquanto o telão exibia imagens de arquivo do grupo, fundado em 1964, com um efeito estilizado de fumaça que sugeria a viagem no tempo, ao lado de registros de época de casais mods ingleses com suas motos e lambretas, "Can't Explain" e "Substitute" abriram a apresentação, que no geral se organizou cronologicamente. "Who are You" entrou num arranjo com piano mais sinuoso, e depois "The Kids are Alright" ganhou mais peso na guitarra de hoje de Townshend.

"Muitos de vocês não eram nascidos quando essa música foi escrita", brinca o guitarrista quando introduz "My Generation" - cuja entrada Daltrey acertou depois do pequeno deslize no show em São Paulo. Já virou lugar-comum lembrar que a banda sobreviveu a décadas de rock embora cantasse que preferia morrer antes de envelhecer, mas a piada resiste - não apenas segue tocando "My Generation" como o The Who atualiza o seu maior hit com um arranjo um pouco mais dançante e com um rock displicente, como se improvisado, que no RiR arejou a música. No geral não foi uma apresentação que tivesse soado manjada, apesar da forma certinha como o setlist se organizou.

A partir de "Bargain", de 1971, a banda entra na década seguinte de vez e Townshend começa a mostrar a que veio. Ele tem a delicadeza de dizer que a faixa, nem tanto conhecida do público, é a sua favorita da banda - uma tentativa de empatia que se repetiria até o final do show. O Who não cedeu ao populismo, mas conversou com o público, fez graça (Townshend brincava, "é agora que vamos tocar 'Magic Bus'?"), e dizia que não era justo ele poder dançar e pular enquanto todo mundo se apertava na pista. E Townshend, aos 72 anos, pulou como ninguém. Entre canções, fazia tipo, colocava a mão na bacia como se estivesse exausto, mas logo em seguida já dedilhava girando os braços de novo, em seu movimento de efeito consagrado. Só faltou quebrar a guitarra no final.

O resultado foi uma apresentação panorâmica com um caráter didático (a banda emendou um quase medley de "Pinball Wizard", "See Me, Feel Me" e "Listening to You" que passou rapidamente pelos hits) mas que acabou sendo construída num crescendo irresistível, bastante coeso e conciso, com as operas rocks e o som setentista de instrumental mais vigoroso fechando a apresentação, depois da banda ter conquistado o público com suas canções de apelo mais pop e imediato.

Daltrey visivelmente faz um esforço fisico, como quando toca a gaita, mas isso acaba transmitindo autenticidade à apresentação. Essa volta do Who e sua tão esperada vinda ao Brasil não tiveram nesses dois dias uma cara de empreitada caça-níquel, mas de correção e justiça histórica. Tivemos a sorte de ver não uma banda no auge, mas uma banda na maturidade.

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