Rock in Rio | Guns N' Roses vence pelo cansaço e aplica surra de hits

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Rock in Rio | Guns N' Roses vence pelo cansaço e aplica surra de hits

Axl Rose não se poupa e banda estabelece com seus fãs uma ligação muito particular

Marcelo Hessel
24.09.2017
12h39
Atualizada em
29.06.2018
02h45
Atualizada em 29.06.2018 às 02h45

Começou com um show de logística a apresentação do Guns N' Roses no Rock in Rio neste sábado. Axl Rose não atrasou demais e a banda conseguiu entrar no palco a tempo de pegar a energia intensa deixada pelo The Who pouco antes. Ainda assim, já era começo de madrugada, e depois com uma apresentação de mais de três horas em que a banda venceu pelo cansaço, o Guns premiou os resistentes e os fãs completistas com uma surra de hits.

Sem ter o mesmo senso de narrativa que tiveram as apresentações do Who e de Alice Cooper, ou o mesmo senso de repertório coeso do Aerosmith, o grupo de Axl Rose e Slash se demorou nos altos e baixos. A cada hit no início da apresentação, enfileirado a toque de caixa sem muita conversa com o público, vinha uma ou outra faixa de Chinese Democracy, e depois de "Coma" começou francamente a debandada na parte mais afastada da pista. Junto ao palco, porém, a experiência foi singular, não só pelo teste físico aplicado ao público mas principalmente à voz de Axl, que partiu berrando desde "It's So Easy" e só foi parar em "Paradise City".

Ainda que descansasse (e trocasse de roupa) entre os solos de guitarra ou quando Duff McKagan assumiu os vocais, Axl se apresentou no Rio de Janeiro como uma fênix reenergizada, e inclusive parecia mais jovem do que no Rock in Rio trágico do Guns em 2001. A entrada de Melissa Reese na banda ano passado, como tecladista, ajuda nos vocais em alguns momentos, como em "Live and Let Die", e Axl só mostra fragilidade quando as canções mais sutis de fato evidenciam sua voz, como em "This I Love"; a rouquidão funciona melhor nas faixas mais gritadas, quando a parede de som abafa um pouco o vocal.

A vantagem da apresentação foi a invejável galeria de sucessos, ainda que enfileirados sem contexto num best-of anabolizado. "Sweet Child O' Mine" serviu como gatilho, ainda na metade do show, e mesmo no cover vacilante de "Black Hole Sun", homenagem ao falecido Chris Cornell em que Axl derrapou no tempo, a banda buscou o popular e o consagrado para se conectar com o público. Em alguns momentos a execução parecia bem protocolar (uma imagem sintomática é Slash caminhando sem pressa à passarela superior para fazer o solo de "November Rain") mas em outros banda e público pareciam trocar energias para seguir de pé mais um pouco, e foi inegável a conexão estabelecida nesta noite entre o Guns N' Roses e seus fãs.

Obviamente a apresentação não será a volta triunfante do grupo, que se reuniu para se celebrar e deu ao show um clima de despedida, embora Axl tenha mandado um "vejo vocês em breve" ao fim. Se muito, quem voltará mesmo é a moda da bandana, onipresente no Rock in Rio. A viagem no tempo lavou a alma de quem ficou até o final, porém, e o Guns N' Roses mostrou, depois do milagre do retorno da voz de Axl Rose, que é possível viver de nostalgia com alguma dignidade.