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Rock in Rio 2011 | Diário - Dia 5: Shakira, Lenny Kravitz e Marcelo D2

Dia mais eclético do festival faz a plateia vibrar com Ivete Sangalo e Shakira

Carina Toledo
01.10.2011
13h03
Atualizada em
29.06.2018
02h45
Atualizada em 29.06.2018 às 02h45

Durante esta maratona de Rock in Rio 2011, tem sido muito interessante observar as diferenças entre as pessoas que frequentam cada dia. Nesta sexta-feira, o público parecia bem variado, assim como o esquisito line-up montado pela organização. Logo ficou claro eu estava frente a frente com aquele público que seu autodenomina "eclético", que "gosta de tudo", enfim, que veio mais pela festa que é o Rock in Rio, e não tanto por serem muito fãs de uma banda ou artista. Ou seja, foi o extremo oposto do Dia Metal.

Cheguei na Cidade do Rock já no fim do show do Buraka Som Sistema em parceria com Mix Hell, projeto do baterista Iggor Cavalera e sua esposa, Laima Leyton. O grupo português abriu as atividades do Palco Sunset com o ritmo angolano kuduro, misturado a batucada e batidas eletrônicas. Conseguiram animar plateia, que logo estava entregue, cantando e dançando com eles. Depois de quase 50 minutos de muita dança e animação, com direito a 20 garotas da plateia convidadas a subir no palco, o Buraka encerrou sua apresentação para "poucos, mas bons", como disse um dos integrantes.

Muito talento, pouca energia

O segundo show do dia foi a parceria de Céu, da nova geração da MPB, com o veterano João Donato. O show, infelizmente, foi morno, apesar do talento de ambos os músicos. Outro ponto um pouco desanimador foi que mais uma vez, o encontro musical parece não ter sido bem preparado, e teve segmentos dedicados apenas à performances solo. Céu escolheu canções do álbum Vagarosa (2009), enquanto João Donato resgatou o clássico álbum A Bad Donato, de 1970.

É uma pena que Céu não consiga trazer sua presença de palco em shows menores para uma grande plateia. Sua melhor performance que assisti foi em um teatro do SESC, em que estava tão solta, charmosa e dançante que quase nos hipnotizava. Sua voz permanece linda em qualquer ambiente, mas é preciso que ela encontre alguma maneira de levar esse clima intimista para um grande público. Ainda assim, entre uma plateia levemente animada e o sol que castigava a Cidade do Rock, tivemos um belo encontro de música brasileira.

Palco Sunset rouba a cena

Em seguida, tivemos uma mistura de rap, raggae e samba com Emicida, Cidade Negra e Martinho da Vila, sem dúvida uma das melhores apresentações do festival até aqui. Agora com o Palco Sunset já bem lotado, a plateia mostrou-se animada e cantou junto tudo o que conhecia, incluindo os hits do Cidade Negra, os sambas de Martinho da Vila e aplaudiu loucamente as rimas improvisadas de Emicida. Apesar do atraso de quase meia hora que com certeza eliminou muita coisa boa do setlist, a parceria entre os músicos fluiu muito bem, com o trio comandando a linha de frente o tempo inteiro. Este show foi com certeza mais um momento do Rock in Rio em que o palco secundário roubou a cena.

Para encerrar as apresentações do Sunset, Monobloco instaurou o clima de carnaval que mais tarde se consolidaria no show de Ivete Sangalo. "Isso Aqui Tá Muito Bom" e "Pagode Russo" inauguraram a festa, que deu lugar ao funk carioca com "Rap da Felecidade". Os convidados do show foram a banda pop espanhola Macaco, que colocou todos a cantar "Moving", que veio seguida de "Tengo" e "Monkey Man". Apesar de esforçados, as músicas não combinaram muito com o restante do setlist - o que o povo queria era sambar e pular.

Depois de mais uma música solo do Monobloco, entrou o segundo convidado do show, Pepeu Gomes, com visual roqueiro, acrescentando sua guitarra à músicas clássicas de Jorge Ben Jor, "Taj Mahal", "Fio Maravilha" e "País Tropical". Enquanto Monobloco, Macaco e Pepeu Gomes encerravam seu show, era hora de correr, pois estava começando o primeiro show do palco principal.

Apologia domada

Marcelo D2 abriu as atividades do Palco Mundo, provavelmente com um dos shows mais politicamente corretos de sua carreira. Tocando em um festival de grande porte e televisionado ao vivo, seguiu o setlist e com comentários para animar a plateia, mas sem causar furor com nenhuma declaração de apologia à maconha.

Seu principal estandarte apenas foi comentado enquanto entrava no palco, quando resumiu sua história dizendo, "Nasci no subúrbio, cresci na Lapa [...], fundei o Planet Hemp, defendi a legalização da maconha e hoje estou no Palco Mundo do Rock in Rio". Note o verbo no passado. Talvez aos 43 anos, o rapper sinta que já cumpriu seu papel no manifesto, ou talvez apenas saiba escolher suas batalhas e decidiu deixar suas músicas falarem por si. O fato é que Marcelo D2 apresentou-se com postura de veterano, muita presença de palco e muita energia para levantar a plateia.

O show foi enxuto e concentrou-se nos maiores sucessos de sua carreira solo, predominando as músicas do álbum A Procura da Batida Perfeita (2003). "Vai Vendo" abriu a apresentação, seguida de "A Maldição Do Samba" e "A Procura Da Batida Perfeita". Tivemos também "A Arte do Barulho", do disco homônimo, com Seu Jorge participando via sample.

Em "Profissão MC", D2 chamou seu filho, Stephan, o garotinho fofo de "Loadeando" que hoje é um adolescente tatuado, para uma participação especial. Hélio Bentes, da banda de raggae Ponto de Equilíbrio, também entrou para cantar "Eu Já Sabia que Ia Terminar Assim", que precedeu um segmento de beatbox com "músicas de festival". Fernandinho Beatbox imitou com a voz as batidas de músicas clássicas como “Sunday Bloody Sunday”, do U2, “Seven Nation Army”, do White Stripes, "Billie Jean", de Michael Jackson, "Another One Bites the Dust" e “We Will Rock You”, do Queen. Pena que as habilidades de Fernandinho Beatbox, apesar de louvadas por D2, não são lá essas coisas, ficando atrás de muito zé ninguém do YouTube.

"Mantenha o Respeito", clássica do Planet Hemp, foi o começo do fim e sem dúvida um dos pontos altos da apresentação, emendando o refrão de "Quem Tem Seda?", para completar a nostalgia. Depois de "CB (Sangue Bom)", Marcelo D2 anunciou a saideira e finalizou o show com "Qual é?", que foi acompanhada pela plateia desde a primeira estrofe.

A próxima banda foi Jota Quest, com o mesmo show de sempre, que se mostrou mais uma ótima oportunidade para o público fazer aquilo que mais gosta: cantar junto. Novamente, o Rock in Rio transformou-se em um grande coral com faixas conhecidas como "Na Moral", "Só Hoje", "Encontrar Alguém", "De Volta ao Planeta dos Macacos" e "Do Seu Lado".

Axé in Rio

Depois de todas as reações negativas atraídas por Claudia Leitte (que só piorou a situação escrevendo em seu blog), Ivete Sangalo veio para provar que o problema não é o axé. Amada pelo público brasileiro há anos, a baiana trouxe o carnaval de Salvador para o Rio de Janeiro, instaurando a folia fora de época. A reação das pessoas era impressionante, e em todos os cantos da arena todos estavam cantando e pulando.

Sempre muito simpática, Ivete Sangalo declarou estar honrada por tocar nesse festival de rock e ainda fez piada com o meme mais recente, parodiando Cristiane Torloni. "Hoje é dia de suingue, bebê!", brincou a cantora. E dá-lhe agitação com "Acelera Aê", "Abalou", "Arerê", "Festa", "Beleza Rara" e "Eva", momento em que me senti quase um ET, por ser a única pessoa em um raio de 100 metros que não estava cantando, com muito sentimento, "EVAAA, Nosso amor na última astronaveee... EVAAA".

Ivetão ainda surpreendeu com um cover de "More Than Words", do Extreme, que tocou no violão. O momento calminho foi só uma pausa, já a caminho do fim. Antes da última música, a cantora parou para dedicar o show a seu filho, com palavras bonitas e algumas lágrimas. Para encerrar, a música "Na Base do Beijo", em que o público aproveitou para gastar suas últimas energias.

O único rock do dia

Deu até pena de Lenny Kravitz, agendado para vir depois de Ivete Sangalo. A baiana fez o público atingir um estado catártico e agora todos estavam cansados, sem muita energia para a única atração de rock da noite. Kravitz começou o show com "Come On Get It", de seu mais recente álbum, Black and White America, seguida de "It Ain't Over Till It's Over" e "Mr. Cab Driver".

O setlist foi uma boa combinação de músicas calmas e agitadas, mas sem basear-se totalmente em hits, o que colaborou para um show morno. O público começou a se animar só no meio da apresentação, com "American Woman", "Always on the Run" e "Fly Away", já no final, que provou-se o hit mais conhecido do cantor por aqui e "Are You Gonna Go My Way", que encerrou a apresentação num ponto alto.

O show poderia ter ficado por ali, mas Kravitz decidiu voltar para o bis com "Let Love Rule". A banda foi bem-recebida, mas Kravitz teve um momento de frustração ao tentar puxar um coro com o refrão. Tanto insistiu que fazer o público cantar parecia ter se tornado uma questão de honra, e para isso ele fez de tudo. Desceu até a grade, distribuiu abraços, pegou uma bandeira do Brasil e enrolou-se nela e, ainda assim, poucos cantavam. Uma ironia para um público tão disposto a participar e interagir.

Sinceridade, pop latino e muito rebolado

O principal show da noite começou com quase uma hora de atraso, dando bastante tempo para que todos buscassem uma posição confortável em torno do palco principal. Antes do show começar, já tocava uma música latina eletrônica, para colocar a plateia no clima. Shakira finalmente subiu ao palco, com uma blusa dourada de escamas que lembrava o uniforme do Aquaman. Já chegou com o pé na porta cantando o grande sucesso de sua carreira, "Estoy Aqui", inserida no setlist depois de ter ficado de fora da Sale El Sol Tour, que passou pelo Brasil em março.

A cantora colombiana mostrou-se muito verdadeira, genuinamente alegre por estar ali, e trouxe o melhor de seu pop latino e todo seu rebolado, com direito até a uma aulinha para as garotas da plateia no meio de "Whenever, Wherever". Falando em português perfeito o tempo todo, Shakira anunciou que aquele seria um momento para as garotas, "Só para nós!". Escolheu algumas mulheres para subir ao palco, cumprimentou todas com abraços calorosos e ensinou, "É só fazer o que eu faço: para aqui, para lá...".

Entre os pontos altos do show estão "Nothing Else Matters", inesperado cover de Metallica em versão mais lenta, "Gipsy", com uma dança flamenca meio cafoninha, "Loca", que agitou todo o público e "Ojos Así", que antecedeu um dueto com Ivete Sangalo em "País Tropical", de Jorge Ben Jor, que cantou em português sem passar vergonha. "Agora quero convidar ao palco uma verdadeira deusa. É um prazer, uma honra pra mim cantar com ela, aqui na sua terra que eu amo, com vocês a minha amiga, a rainha, Ivete Sangalo", anunciou Shakira.

Logo depois, a cantora fechou sua excelente e animada performance com "Hips Don't Lie" e a música da Copa do Mundo, "Waka Waka", encerrando assim o dia mais eclético do Rock in Rio.