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Rock in Rio 2011 | Diário - Dia 4: Stevie Wonder, Jamiroquai, Joss Stone e Janelle Monáe

Dia extra dedicado à música negra teve shows excelentes e momento histórico com o ícone do soul, Stevie Wonder

Carina Toledo
30.09.2011
14h33
Atualizada em
29.06.2018
02h45
Atualizada em 29.06.2018 às 02h45

A maratona do Rock in Rio 2011 recomeçou nesta quinta-feira, dia marcado por atrações da música negra, do soul, R&B e hip hop. A única exceção era Ke$ha, o elemento avulso do dia - afinal, já virou tradição do festival ter ao menos uma atração que não se encaixa.

A Cidade do Rock estava experimentando um dia de sol forte pela primeira vez e o clima entre o público era de tranquilidade e relaxamento, com muitas cangas estendidas pela grama sintética.

Chegamos quase no fim do show de Curumim e Marcelo Jeneci no Palco Sunset, mas pegamos seu bonito encerramento, com o público já empolgado e pedindo mais na primeira apresentação do dia. No entanto, já deu para perceber que o palco secundário mais uma vez seria prejudicado por problemas técnicos no som, que estava muito alto e estourado. Uma pena, já que sua programação ainda teria muitos artistas interessantes.

É preciso investir na arte do encontro

O segundo show do Palco Sunset foi a parceria de Afrika Bambaataa com a brasileira Paula Lima e o rapper português Boss AC. A apresentação começou bem, com cada um deles cantando uma música solo.

Bambaataa, um dos responsáveis por criar as bases do hip hop que conhecemos hoje, entrou no palco vestindo trajes tradicionais africanos e acompanhado dos rappers da Zulu Nation, abrindo o show com "If You Don't Work". Depois, Paula Lima veio com "Quero Ver Você no Baile" e Boss AC rimando com sotaque da terrinha em "Sou Eu e És Tu".

No entanto, quando chegou a hora da colaboração começar de fato, ficou nítido que aqueles músicos nunca tinham se visto antes e tampouco tiveram tempo de ensaiar o que fariam ali. Sempre tinha alguém que acabava sobrando, e quando íamos reparar, lá estavam Paula Lima e AC enfiados no meio da percussão, procurando uma maneira de manterem-se úteis. Neste momento, cabe questionar: o que a organização do Rock in Rio estaria fazendo para viabilizar estes encontros musicais que quer promover? Tudo poderia ser resolvido, por exemplo, se os convidados internacionais chegassem ao Brasil com um ou dois dias de folga, com uma sessão de ensaio agendada em estúdio.

Outro ponto negativo, talvez por falta de um repertório estruturado, é que todos pareciam muito preocupados em fazer a plateia vibrar e, enquanto os pedidos de "put your hands up" (jogue as mãos pro alto) e "let's make some noise" (façam barulho) foram animadores no começo, ia ficando cansativo o jogo de "siga o mestre". A retribuição da plateia é algo que deve vir por merecimento e é preciso dar algo em troca para receber o aplauso. A preocupação em entregar um show de qualidade deveria vir primeiro.

Ainda assim, tínhamos ótimos músicos no palco e o show seguiu animado, em clima de oba-oba. A banda de apoio, formada por brasileiros, também merece destaque, por dar fluidez a bagunça que estávamos assistindo. Para finalizar, a confusão foi salva por uma ideia de Paula Lima, que puxou "Sossego", de Tim Maia, e assim a plateia foi cantando para si mesma enquanto os músicos deixavam o palco.

Carisma e simplicidade

Joss Stone foi a terceira apresentação do Palco Sunset, mas sem colaborações. Mais uma vez, a organização escolheu colocar um artista de grande porte em seu espaço secundário. Este detalhe, porém, parece nem ter sido percebido pela cantora britânica, que entrou graciosamente e demonstrando carinho com os fãs, que já estavam gritando por ela há algum tempo.

Começou a apresentação com "You Had Me", cantou algumas canções de seu último álbum, LP 1, e ainda atendeu a pedidos da plateia, incluindo "Last One to Know" no setlist. "Super Duper Love", como já se esperava, foi um dos pontos altos em uma apresentação em que a plateia já estava ganha. Muito carismática e à vontade, Joss Stone chegou até a parecer emocionada ao ver o público cantando com ela. "Right to Be Wrong" fechou o show, que foi sem dúvida um dos melhores do festival até aqui.

Matando a saudade

Terminado o lindo show de Joss Stone, foi a hora de seguirmos para o Palco Mundo, para mais um momento épico. Orquestra Sinfônica Brasileira, Dado Villa Lobos, Marcelo Bonfá e seus filhos, Rogério Flausino, Pitty, Tony Platão, Dinho Ouro Preto e Herbert Vianna estavam reunidos para uma homenagem ao Legião Urbana. Neste momento, percebemos o poder das músicas de Renato Russo, que fizeram toda a Cidade do Rock cantar em uníssono. Assim, quase não importava quem assumia os vocais de qual música, já que o grande desejo da plateia era demonstrar o sentimento de saudades guardado há 15 anos, desde a morte do vocalista.

As únicas vozes que pareciam deslocadas eram Pitty, cujo tom não se adequava ao que estava sendo tocado, fazendo com que ela desafinasse bastante, e Rogério Flausino, não por sua habilidade como vocalista, mas como intérprete. Cantou "Tempo Perdido", música que tem uma certa tristeza intrínseca, com a mesma animação com que puxa a "macacada reunida" de "De Volta ao Planeta".

Entre os momentos mais sentimentais, tivemos as músicas cantadas por Dinho Ouro Preto, ex-integrante do Aborto Elétrico, que mais tarde daria origem ao Legião Urbana, e Herbert Vianna. Com uma plateia totalmente entregue, o show foi encerrado com "Será", repetida para o bis, e até a piadinha de que Tony Platão ficaria para cantar a épica "Faroeste Caboclo" à capella recebeu gritos extasiados. E tudo isso foi só a abertura do Palco Mundo.

Devagar se vai ao longe

Depois de uma apresentação tão contagiante, Janelle Monáe entrou no palco de maneira discreta, sem interagir muito com a plateia. Apesar de sua banda excelente e seu talento como cantora, tive a impressão de que ela não teria estofo para conquistar a multidão do palco principal. Ledo engano. A novata entregou uma apresentação consistente, que foi crescendo e ganhando o público a cada música.

Havia grande preocupação com a performance, e todos os músicos adicionavam movimentos de dança ao trabalho instrumental. Monáe fez até uma pausa para a pintura, em "Mushrooms and Roses", pintando ao vivo a silhueta de uma mulher. Suas grandes influências também estiveram presentes, com um ótimo cover de "I Want You Back", do Jackson 5, que cantou com voz quase idêntica a de Michael Jackson nos anos 1960 e ainda surpreendeu com um ótimo moonwalk. A seguir, "Cold War" e "Tightrope", de seu álbum de estreia, The ArchAndroid (Suites II and III), e mais um cover, agora homenageando Prince com "Take Me With You".

O show dançante foi encerrado com "Come Alive", em que Janelle Monáe conquistou o auge de sua performance, foi para o meio da galera, simulou a morte dela e de sua banda, e deixou o palco de sopetão, sem bis ou agradecimentos, finalizando com ainda mais dramaticidade uma performance já altamente teatral.

Muita pose e pouco rock

Uma característica que reparei no quarto dia de Rock in Rio é que a plateia, apesar de mostrar-se sempre empolgada, não tinha tantos fãs enlouquecidos como nos dias anteriores. Afinal, ter o artista como ídolo absoluto é uma síndrome que normalmente acomete os adolescentes e os artistas desta quinta-feira tinham público mais adulto, mais interessado em apreciar. A única exceção foi Ke$ha.

Apesar de muitos questionarem o que uma novata como ela estava fazendo no Palco Mundo, Ke$ha atraiu uma parcela considerável de público ao festival. Antes mesmo que que ela entrasse no palco, já estavam animadíssimos cantando suas músicas. Ainda bem que tinham tanta predisposição para amar tudo que ela fizesse, pois o show foi musicalmente muito fraco. Ke$ha desafinou muito, quanto não parecia que estava dublando com playback. Isso não me veio como grande surpresa, afinal os ajustes de Pro Tools são nítidos quando ouvimos suas gravações.

A performance foi sólida, com dois grandes hits para abrir e fechar o show em grande estilo. Começou com "We R Who We R" e seguiu para "Take It Off". Afetou tocar guitarra só para quebrá-la em seguida. Ainda emprestou um número do show de seu novo amigo, Alice Cooper, e bebeu sangue falso de um jarro em forma de coração em "Cannibal". O show chegou ao fim com seu maior hit, "Tik Tok", que foi cantada por grande parte da plateia. As demais músicas, menos conhecidas, não empolgaram tanto, e a impressão que ficou é que ainda falta muito estofo do verdadeiro rock'n'roll para embasar sua performance cheia de pose, samples e autotune.

Disco music contida

Jamiroquai fez uma performance muito competente, para uma plateia tímida. A disco music começou a rolar pontualmente às 23h10, com "Rock Dust Light Star". O vocalista Jay Kay entrou adornado com seu tradicional cocar de índio e também mostrava-se tímido e focado na música, apenas agradecendo e interagindo pouco com a plateia.

O público, apesar de silencioso, estava muito atento e reagia apenas em alguns momentos, tornando a interação com os músicos um pouco mais especial. O setlist passeou por alguns dos principais hits do Jamiroquai, como "Cosmic Girl", "High Times", "Canned Heat" e "Deeper Underground".

Um dos destaques foi "Love Foolosophy", tocada com introdução semi-acústica, criando um momento intimista que, para quem estava na frente, foi quebrado por alguns famosos e queridinhos dos organizadores, que dançavam e agitavam em uma rodinha, como se estivessem em uma festa de formatura. Enquanto já se tornou normal que artistas assistam ao show discretamente no fosso de fotógrafos, tivemos ali um grupinho mal-educado, com "celebridades" que iam de Fiuk a Alemão do BBB. Por sorte, a festa foi logo cortada pelos seguranças e pudemos voltar a nos concentrar no show.

Infelizmente, a apresentação foi breve e os músicos encerraram com a mesma pontualidade do começo. Depois de "Deeper Underground", tocada em versão um pouco mais eletrônica, voltaram para o bis com "White Knucle Ride", deixando muitos fãs gritando por "Space Cowboy", um dos hits que ficou de fora.

Grand finale

Depois de um intervalo que pareceu durar eternamente, Stevie Wonder, grande destaque da noite, entrou no palco acompanhado de uma introdução instrumental de sua banda, já sendo ovacionado pela plateia em seus primeiros passos. Começou o show com "How Sweet It Is", engatando em "My Eyes Don’t Cry".

Por não dispor do recurso da visão, Wonder buscava uma conexão sonora com a plateia, tentando comandar interações que pareciam ser de nível muito avançado para o público. Tentou dividir um coro entre homens e mulheres em "The Way You Make Me Feel", de Michael Jackson, e também quis dividir a plateia em três partes para cantarem diferentes variações tonais em "Living for the City" - ou seja, dinâmicas básicas de canto que qualquer igrejinha do Bronx tiraria de letra, mas que eram complicadas demais para uma plateia de 100 mil pessoas.

Seguiu adiante, e deixou para conquistar a verdadeira conexão com a plateia mais tarde, no fim de "Isn't She Lovely" e quando uma de suas backing vocals, Aisha, cantou "Garota de Ipanema". Depois da introdução em inglês, o público cantou sozinho a segunda estrofe. Stevie Wonder pediu bis, e lá fomos nós novamente cantar a música do início ao fim, em um dos momentos mais lindos do show. A partir dali, a plateia estava ganha e obedecia facilmente a todos os comandos. Em retribuição, Wonder cantou que amava a música do Brasil e puxou "Você Abusou", de Toquinho, para novamente ser acompanhado por todos.

O show ainda teve sucessos como "Sir Duke", "Master Blaster", "My Cherie Amour", "You Are The Sunshine Of My Life", "I Just Called to Say I Love You" e "Superstition", que encerrou o show, com uma participação especial de Janelle Monáe que, emocionada, até chorou ao subir no palco ao lado do grande ícone do soul. Depois de um rápido suspense, Stevie Wonder voltou para o bis e cantou com Monáe mais uma vez, fechando o show com "Another Star".

E assim acabou mais um dia de Rock in Rio, deixando todos com um sentimento de que tínhamos presenciado um show histórico, que entrará para o registro de momentos notáveis do festival e também da vida de cada um que esteve ali.