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Rock in Rio 2011 | Diário - Dia 2: Red Hot Chili Peppers, Snow Patrol e Stone Sour

Hits do Red Hot Chili Peppers fazem a plateia eclipsar o poderoso sistema de som do festival

Carina Toledo
25.09.2011
13h57
Atualizada em
29.06.2018
02h45
Atualizada em 29.06.2018 às 02h45

No segundo dia do Rock in Rio 2011, chegamos à Cidade do Rock no início da tarde, a tempo de assistir aos shows do Palco Sunset, dedicado a experimentações musicais, unindo artistas veteranos e novatos, ou brasileiros e estrangeiros - o foco é o encontro.

Rock in Rio 2011

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A primeira apresentação que pegamos ali foi Tulipa Ruiz, revelação recente da MPB e Nação Zumbi. Foi uma parceria fácil e ambas as bandas pareciam bem entrosadas. O show foi construído como uma simples justaposição das canções de ambos os artistas, que iam se alternando no setlist. O Nação ganhou uma voz feminina para suas músicas, enquanto as canções de Tulipa ganharam arranjos mais elétricos.

No entanto, o que parecia não combinar era justamente as obras de cada banda. Nação Zumbi, com Jorge du Peixe nos vocais, tem composições mais agitadas e agressivas, com críticas em suas letras. As composições de Tulipa Ruiz, por sua vez, são mais suaves, românticas, de sonoridade quase infantil. "Brocal Dourado", "Efêmera" e "Só Sei Dançar com Você", de Ruiz, marcaram presença no setlist, mas foram as clássicas da Nação Zumbi, como "Manguetown" e "Hoje, Amanhã e Depois" que animaram a plateia. Para finalizar, um ótimo cover de "Tomorrow Never Knows", dos Beatles.

Roubando a cena

Em seguida, tivemos o encontro de Milton Nascimento e Esperanza Spalding, cantora de jazz premiada como Artista Revelação no Grammy 2011. A estadunidense é altamente influenciada pela música brasileira em seus discos (já gravou covers de Baden Powell, Vinícius de Morais e Tom Jobim) e impressionou o público com sua ótima pronuncia do português. Para abrir o show foi escolhida a faixa "Ponta de Areia", composição de Nascimento que foi regravada por ela em seu penúltimo álbum, Esperanza (2008).

Apesar de grande parte da plateia estar lá para ver Milton Nascimento (antes do show todos já estavam gritando por ele), Esperanza Spalding roubou a cena com seu carisma, humildade e prontidão. A todo momento ela estava alerta, participando do show. Quando não estava cantando, estava tocando baixo ou contrabaixo, ou marcando o ritmo com movimentos de corpo - se fosse necessário, ela estaria pronta para salvar a banda a qualquer momento.

O mais impressionante é que Spalding usa sua voz não apenas para cantar as letras das canções, mas como instrumento, com lindas vocalizações improvisadas - até Milton Nascimento podia ser flagrado em alguns momentos curtindo o show de sua companheira, esquecendo-se que estava no palco. Enquanto o brasileiro mal se mexia durante a apresentação, sem grandes interações com a plateia, a moça mostrava toda sua beleza ao cantar e falar com a plateia em português. Mesmo pequenina, mostrava sua sensualidade discreta com dancinhas ao tocar o contrabaixo - uma sensualização cult.

Para encerrar o show, "I Know You Know", do segundo álbum da cantora, e "Maria Maria", que fez todos cantarem em coro seu "Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!! Lá Lá Lá Lerererê Lerererê".

Barulho bom!

Fechando as atividades do Palco Sunset, Mike Patton apresentou-se com o álbum Mondo Cane, acompanhado da Orquestra Sinfônica de Heliópolis. O show começou com mais de uma hora de atraso, depois do NX Zero ter deixado o Palco Mundo.

O projeto de Patton combina música erudita italiana ao rock'n'roll, mas o principal atrativo é com certeza a performance surtada do vocalista do Faith No More, seus olhares alucinados e cara de louco. Altamente performático, o cantor às vezes parecia um caricato apresentador de cabaré (especialmente com aquela trilha sonora), já que estava de terno e seu já tradicional cabelo lambido para trás. Pulava, se agaixava, interagia com a orquestra, com seus músicos e com a plateia, fazendo um dos shows mais agitados e teatrais daquela noite. Assim que Patton terminou sua apresentação, Stone Sour começou a tocar no Palco Mundo, e o som alto poderia comprometer o aguardado bis, que foi tocado mesmo assim.

Os primeiros acordes de rock mais pesado no festival vieram com Stone Sour, que abriu seu show com "Mission Statement". Corey Taylor mostrou-se muito carismático e atencioso com a plateia, xingando-a de vários palavrões em inglês, para o delírio de todos (afinal, não há carinho mais rock'n'roll do que chamar seus fãs de "little motherfuckers"). Na terceira música, "Made of Scars", a chuva que ameaçou cair várias vezes durante o dia, com uma rápida pancada no show de Nascimento e Spalding, veio com força e permaneceu durante um bom tempo, fazendo todos vestirem suas capas de chuva.

A apresentação foi enérgica e ao final da segunda música, todos os integrantes da banda já estavam pingando de suor. Apesar de grande parte da plateia estar ali para ver o Red Hot Chili Peppers, o Stone Sour conseguiu lidar com o fato de estar sob a sombra da atração principal, conversando sempre com a plateia, afirmando o quão felizes estavam de tocar no Rock in Rio e explicando o título de cada música, de que álbum ela veio. Assim, fizeram com que todos se sentissem envolvidos e apresentaram seu som para as pessoas que estavam tendo contato com ele pela primeira vez. A tática funcionou e o público pulou alucinadamente em vários momentos.

Antes do Gran Finale...

Snow Patrol, por sua vez, não teve a mesma sorte e não conseguiu conquistar o público, já cansado de tantas horas em pé guardando um lugar na enorme arena do Palco Mundo. O vocalista Gary Lightbody estava inseguro, com uma postura que quase pedia desculpas por ser o obstáculo que separava a banda do Santo Graal que seria o último show da noite. Todas as músicas foram muito bem executadas, mas até o Capital Inicial, que se apresentou antes com seus hits de sempre ("Independência", "Quatro Vezes Você", "Natasha", "Primeiros Erros", "Veraneio Vascaína", etc) consquistou mais animação.

O fato é que a sonoridade do Snow Patrol quase não tem influência do pop, sem músicas muito agitadas ou refrões pegajosos, rendendo assim um show bonito e de qualidade, mas morno. A redenção do grupo irlandês viria ao final, quando Lightbody ganhou uma canga com a bandeira do Brasil e enrolou-se nela, ganhando aplausos do público. A brasileira Mariana Aydar, muito linda com seu novo cabelo curtíssimo, subiu ao palco para um dueto em "Set The Fire To The Third Bar". "Open Your Eyes", a música mais conhecida do Snow Patrol, ficou para o final, fazendo todos cantar junto já na primeira estrofe, mas até nisso não deram sorte, por causa de problemas técnicos no som. "Se nós começarmos de novo, vocês prometem cantar com a gente mais uma vez?", pediu Lightbody, e foi correspondido.

No Gargarejo

Inexplicavelmente, consegui cavar meu lugar naquela multidão (cerca de 100 mil pessoas passaram pela Cidade do Rock), chegando pertinho da grade para assistir ao show sem depender dos telões, que nas duas últimas apresentações usaram a filmagem ao vivo para aplicar efeitos e filtros, escolha infeliz em um festival daquela magnitude. Depois de esperar pelos ajustes no palco, que pareceram durar uma eternidade, entraram Flea, Anthony Kiedis, Chad Smith, Josh Klinghoffer e o percussionista convidado Mauro Refosco, catarinense de Joaçaba.

O Red Hot Chili Peppers começou o show com "Monarchy of Roses", de seu mais recente álbum, I'm With You, que funciou bem como abertura, com sua bateria alta e marcada. O delírio da plateia, no entanto, veio quando identificaram os primeiros acordes de "Can't Stop", tocados por Flea. Em seguida, uma sequência de antigas - "Charlie", "Otherside" e "Dani California".

A primeira parada da banda no Brasil foi em São Paulo, na última quarta-feira, 21 de setembro. Depois de um show cheio de erros por parte do novo guitarrista, ficou nítido o esforço da banda para melhorar e fazer uma performance impecável no Rock in Rio, afinal sua responsabilidade como headliner de um festival é muito maior. Para isso, havia uma dinâmica entre Flea e Klinghoffer, que começaram a tocar a maioria das músicas quase no fundo do palco, juntos e um de frente para o outro - provavelmente uma maneira encontrada pelo baixista veterano de colocar seu guitarrista novato em sintonia. Encontrado o caminho certo para Klinghoffer, ambos separavam-se para acompanhar Kiedis na linha de frente. A tática foi certeira, e o show do Chili Peppers correu sem imprevistos.

Como já se esperava, Flea roubou a cena em vários momentos, tanto por seu talento como baixista como por sua habilidade de contorcer-se, dançar e dar pulos de quase um metro, tudo isso sem errar uma nota sequer. Além disso, estava vestindo uma camiseta da Seleção, já conquistando o carinho dos brasileiros. Anthony Kiedis também entregou uma ótima performance, sem deixar de cantar em nenhum momento, mesmo quando o coro da plateia eclipsava o poderoso sistema de som do Rock in Rio.

Por sorte, o Red Hot Chili Peppers tem hits suficientes (e muita presença de palco) em sua carreira para não deixar que as menos conhecidas "Factory of Faith", "The Adventures of Rain Dance Maggie", "Look Around" e "Did I Let You Know", também do último álbum, representem uma quebra significativa em sua apresentação.

O show foi chegando ao fim com "Me and My Friends" e o ótimo cover de "Higher Ground", de Stevie Wonder. As duas últimas faixas, "Californication" e "By the Way" fizeram praticamente toda a Cidade do Rock cantar em coro, sem dúvida o momento mais bonito da noite.

O grupo demorou alguns minutos para voltar para o bis, que começou com uma performance do baterista Chad Smith e do percussionista Refosco, com uma transição ritma que incluiu até batidas de funk carioca. A banda toda voltou com "Around the World", "Blood Sugar Sex Magik" e encerrou a noite com a agitada "Give It Away", um final gratificante para a cansativa jornada de festival.

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