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Raio Negro | Racismo é o principal vilão da nova série da DC; confira nossas primeiras impressões

Estreia traz premissa interessante e história instigante sem ignorar discussões mais profundos

Rafael Gonzaga
24.01.2018
17h00
Atualizada em
09.10.2019
14h51
Atualizada em 09.10.2019 às 14h51

Logo em sua primeira cena, Raio Negro, nova investida da CW no universo da DC, mostra a que veio. Ao invés de exibir o herói imponente, revelando seus poderes em clichês como um confronto com vilões dentro de um banco ou salvando um ônibus cheio de criancinhas de despencar de uma ponte, a série abre com o protagonista sendo humilhado na frente das filhas durante uma abordagem policial carregada de racismo. Essa escolha é esclarecedora em relação a todo o restante do capítulo de estreia e, certamente, ao conteúdo geral da temporada. Com um elenco formado majoritariamente por atores negros, a nova série de super-herói tem potencial para se destacar em relação às outras produções semelhantes do canal por justamente mostrar o debate social como ponto de partida de toda a trama.

Aliás, há outros pontos preliminares que distanciam a série de The Flash, Supergirl e das demais série do Arrowverso. Um deles é que Raio Negro não é uma história que mostra o surgimento do herói protagonista: quando a trama começa, Jefferson Pierce (Cress Williams), o Raio Negro, está aposentado do ofício de vigilante há nove anos e se tornou diretor de uma escola. A trama acompanha um homem que tentou mudar o mundo usando indiscriminadamente seus poderes a ponto deles se tornarem um problema em sua vida pessoal - em contrapartida, descobriu no ofício de educador uma forma mais eficiente de ajudar seu bairro a prosperar e se tornar um lugar mais seguro. O conflito ético da trama está em voltar a fazer algo que a própria experiência mostrou não ser a via mais eficiente, mas que, anos depois, volta a se mostrar necessário.

Isso não quer dizer, por outro lado, que dilemas juvenis como a descoberta da intensidade dos poderes e o dilema de quando é moralmente adequado usá-los estejam de fora da trama. Orbitando ao redor de Jefferson estão Anissa (Nafessa Williams) e Jennifer (China Anne McClain), as jovens filhas do protagonista. O primeiro episódio traz o que parece a primeira manifestação dos poderes de Anissa - nos quadrinhos, ela é uma heroína chamada Tormenta e forma uma dupla de combatentes com a irmã, sob o alter-ego de Rajada. Ao contrário de Jefferson, Anissa tem uma postura mais rebelde na hora de manifestar seu desagrado em relação à violência em seu bairro e ao descaso das autoridades - a impulsividade da jovem certamente renderá embates entre ela e o pai na hora de usar os poderes.

O principal da trama, na verdade, está na contextualização do meio como vilão principal da trama - ainda que ele ocasionalmente se personifique na pele de Tobias Whale (Marvin 'Krondon' Jones III). Há uma questão cíclica no primeiro episódio: Jefferson usa os poderes de Raio Negro para tentar salvar sua cidade da violência, mas começa a colocar a estabilidade de sua família em risco. Ele, então, suprime os poderes e busca outra via de ajudar sua comunidade; contudo, ao longo dos seus anos fora de ação, a violência aumenta a ponto de colocar a segurança de sua família em risco. É quando, então, ele revive o Raio Negro para salvar as próprias filhas. Há uma questão confusa na cabeça dele, já que Jefferson acreditava no alcance de seu papel como diretor de uma instituição de ensino e foi obrigado a encarar que, sozinho, ele não é tão eficiente.

Aliás, essa é uma mensagem interessante em Jefferson: o pai de família é um herói imerso na lógica de que a educação é a melhor arma contra a violência, o que é ótimo. Mesmo que ele volte a trabalhar como um vigilante, há a iniciativa de recuperação do criminoso e não meramente da punição - isso fica claro quando o herói encara o rapaz que ameaçou sua própria filha com uma arma e, mesmo assim, orienta o rapaz a não prejudicar a própria vida. Essa dinâmica não poderia ser diferente, na verdade. O pano de fundo da série é o racismo estrutural que segrega a comunidade negra, nega oportunidades e empurra seus membros para a criminalidade - há, ao que tudo indica, uma discussão mais profunda que a média sobre o que leva alguém a se tornar um bandido, passando longe da lógica maniqueísta de mocinhos e vilões.

Para um primeiro episódio, o saldo é positivo de modo geral. O drama do herói aposentado voltando à ativa é uma premissa concisa e coerente que tem potencial para se desenrolar de diferentes formas ao longo dos episódios, mas não é a única coisa na qual a série se apoia. Há a jornada de amadurecimento das filhas de Jefferson, há claramente um arco romântico mal resolvido com a ex-esposa Lynn (Christine Adams), há vilões trabalhando para alimentar um sistema nocivo para a comunidade do herói. Além disso, as atuações não decepcionam e os efeitos especiais evitam o exagero e, em função disso, convencem.

A cena do policial racista abrindo a série vai, portanto, além de ser só um catalisador do retorno de Jefferson Pierce ao uniforme de Raio Negro, servindo principalmente como pano de fundo de toda a motivação do herói na trama. O racismo é algo tratado em todos os níveis em Raio Negro: há o descaso das autoridades, há o comportamento violento da polícia, há a forma deturpada como negros são retratados na mídia, entre várias outras coisas. Curiosamente, o primeiro episódio não indica uma série que seja panfletária de forma óbvia: a atração é sobre um herói e seus dilemas pessoais. A questão é que em um programa cujo elenco é formado por vários atores e atrizes negros, o empoderamento dessa comunidade, que raramente é retratada de forma tão diversa, acaba sendo algo inevitável - ainda bem.

Raio Negro estreou nos EUA em 16 de janeiro e chegou ao Brasil uma semana depois, em 23 de janeiro. No Brasil, a Netflix divulga semanalmente novos episódios da série.