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A origem do Quarteto Fantástico nos quadrinhos

Saiba como surgiu a série que deu impulso ao Universo Marvel

Pedro Hunter
30.07.2015
11h47
Atualizada em
12.11.2018
15h45
Atualizada em 12.11.2018 às 15h45

Em 1961, uma nova série bimestral (e que depois virou mensal) surgiu nas bancas dos Estados Unidos. Seu nome era Fantastic Four, a primeira série de super-heróis moderna da Marvel Comics. Seu sucesso levou à criação de personagens como Hulk, Homem-Aranha e centenas de outros ícones dos quadrinhos - naquilo que ficou estabelecido como o começo do Universo Marvel nos quadrinhos.

A memorável capa da primeira edição de Fantastic Four mostrava um grupo de heróis sem uniformes enfrentando um monstro gigante. Embora bichos de grandes proporções fossem muito comuns nas HQs da editora àquela altura, havia ali uma quebra de um dos paradigmas da época: a ausência dos uniformes (ok, o grupo os adotou pouco tempo depois, mas o que vale é o impacto inicial). E assim começava uma revolução nos quadrinhos americanos, que com os anos se tornou clichê: na Marvel, são os dramas humanos que importam, não necessariamente os super-heroicos.

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Ao contrário da criação do Homem-Aranha, envolta em mistérios, há testemunhas confiáveis e provas documentais de quase todo o processo de criação do Quarteto, que se desenrolou mais ou menos da seguinte maneira:

O dono da Marvel, Martin Goodman, jogava uma partida de golfe com Jack Liebowitz, um dos donos de sua grande rival, a DC Comics. A falência de sua distribuidora, anos antes, deixara a editora sem um meio de colocar suas revistas à venda e Martin teve de se submeter a um acordo humilhante com a DC, que passou a distribuir as revistas da Marvel, impondo a esta um limite de oito títulos por mês. A outrora poderosa Marvel (ou Atlas ou Timely, nomes que a editora de Goodman usou em alternância até os anos 1960) estava em ruínas e Liebowitz aproveitou a ocasião para tripudiar de Goodman, comentando como a nova série de sua editora, Liga da Justiça, vendia bem, usando o expediente simples de juntar todos os maiores heróis da DC em um título só. Goodman decidiu então aproveitar-se da idéia e fazer um título similar na Marvel.

O único que poderia fazer isso naquela altura era seu sobrinho Stanley Martin Lieber, ou apenas Stan Lee, que era, na ocasião, o editor-chefe e principal escritor da Marvel Comics. A editora sofria com a crise e a maior parte dos seus títulos remanescentes eram histórias de monstros formulaicas (1 - Monstro surge. 2 - Monstro tenta conquistar/destruir a humanidade. 3 - Monstro é derrotado por um humano normal com um plano engenhoso. 4 - Repetir à exaustão.). Dessas, as melhores eram desenhadas por Jacob Kurtzberg, também conhecido como Jack Kirby, hábil e prolífico artista com talento para cenas de ação. Ele era o artista ideal para desenhar uma nova HQ de super-heróis.

O caminho óbvio seria juntar os velhos super-heróis da Timely, como o Capitão América, Namor e o Tocha Humana original, em um mesmo título, mas Lee tendia a mudanças. Já um homem de meia-idade que escrevera quadrinhos toda a sua vida adulta, sem nenhum resultado palpável, Lee declarou anos depois que fora para casa decidido a largar tudo, mas sua esposa o convenceu a tentar escrever uma HQ sem a mesmice de sempre. Lee topou e escreve para Kirby o roteiro de uma série com quatro personagens diferentes dos tradicionais super-heróis perfeitos dos quadrinhos.

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Kirby discordaria dessa versão em declarações posteriores, alegando que ele teria criado os personagens para Lee. A argumentação dele faz sentido, já que o grupo é bem parecido com uma de suas antigas criações para a DC, os Desafiadores do Desconhecido. Nesse caso, porém, um documento de peso veio a público, quando o escritor e ex-editor da Marvel, Roger Stern, encontrou uma preciosidade ao vasculhar o arquivo morto da editora: o primeiro roteiro da origem do Quarteto!

Em suas duas envelhecidas páginas datilografadas, o roteiro revela a extensão da contribuição de cada criador. A história é praticamente igual à da edição publicada: o grupo parte no foguete para as estrelas (Lee menciona a Lua no roteiro, mas muda de ideia uma linha depois e sugere as estrelas, já que a conquista da Lua "estava muito próxima"; ainda assim, histórias posteriores, algumas do próprio Lee, mencionam a viagem como sendo para a Lua ou Marte), a nave é bombardeada por raios cósmicos, cai e o grupo emerge dos destroços com estranhos poderes.

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A diferença está nos personagens. Na versão de Lee, Ben Grimm se transformaria em um monstro como aqueles que invadiam a Terra, e a Mulher-Invisível e o Tocha Humana não podiam "desligar" seus poderes. Kirby alterou isso fazendo do temperamental Coisa o único prejudicado do acidente e definiu também muito de sua personalidade nas duas explosões de raiva do personagem durante a origem do Quarteto. As contribuições do desenhista para o roteiro aumentariam ainda mais nos anos seguintes, conforme a série ganhava fama, estabelecendo a natureza aventureira do grupo (certamente inspirada nos Desafiadores do Desconhecido).

Assim, é possível dizer com certa precisão como foi a criação do Quarteto: Lee teve a ideia inicial e Kirby a refinou progressivamente (com a ajuda de Lee, claro), e foi, com sua imaginação fértil e sua arte expressiva, talvez o grande responsável pelo sucesso da série, que seria a HQ mais vendida da Marvel por anos, até ser superada pelo Homem-Aranha.

Com o tempo, o Aranha - líder de vendas da Marvel por décadas - tomou para si a fama de ter sido o primeiro dos "heróis humanizados" da Marvel, mas isso era na verdade um conceito egresso das páginas do Quarteto Fantástico, a genial criação de Stan Lee e Jack Kirby.