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Entrevista

Turma da Mônica | "Eu sempre oriento que evitem assuntos polêmicos e politicamente incorretos", diz Maurício de Sousa

Em entrevista ao Omelete, o criador da Turma da Mônica revisita o passado, discute o presente e prevê o futuro

Pedro Martins
01.11.2017, às 16H09
ATUALIZADA EM 01.11.2017, ÀS 17H00
ATUALIZADA EM 01.11.2017, ÀS 17H00

Aos 82 anos recém-completados, Maurício de Sousa é considerado por muitos o Walt Disney brasileiro. Afastado da prancheta de desenho, hoje o ilustrador se dedica à administração de sua produtora, que mantém influência sobre a antiga legião de fãs e conquista admiradores que sequer existiam quando a dentuça mais famosa do país surgiu.

Entre Mônicas e Cebolinhas, são mais de 400 personagens criados e um bilhão de gibis vendidos. Números superlativos que, a seu ver, devem aumentar cada vez mais. Em entrevista ao Omelete, o criador da Turma da Mônica revisita o passado, discute o presente e prevê o futuro:

Omelete: Dentre os 400 personagens da Turma da Mônica, qual seria o seu melhor amigo?
Maurício de Sousa: O conversador em termos filosóficos é o Horácio. Ele é um filhote de Tiranossauro Rex, não obstante vegetariano, gentil e que prega a harmonia, bem parecido comigo. Suas tiradas filosóficas servem perfeitamente para falar sobre o mundo atual.

Até hoje, Horácio é o único personagem roteirizado e desenhado apenas por ti, certo?
Sim. Com o tempo, percebi que, se continuasse trabalhando sozinho, não conseguiria dar a arrancada necessária para enfrentar a concorrência. Então, consciente e lentamente, formei uma equipe. Com dor no coração, admito. Afinal, eram filhos que eu estava deixando para outras pessoas cuidarem.

Mas como você enxerga outras pessoas escrevendo e desenhando seus personagens?
Os artistas são fãs natos da Mônica. Reproduzem e criam gibis desde criança. Isso facilitou muito. Eu olho o que eles estão fazendo, de vez em quando dou um pitaco, sugiro correçõezinhas, mas aquela preocupação maior já deixou de existir. O estúdio amadureceu. Hoje, alguns deles já me ultrapassaram: desenham ou tratam de algum tema melhor do que eu.

Qual é o segredo para manter o sucesso conservado durante estes quase 50 anos?
Respeitar a realidade dos leitores. Os personagens têm que ser de hoje e de agora. Por isso, eu insisto que minha equipe seja composta de gente jovem, informada e curiosa. Eles precisam estar sempre atentos ao que está acontecendo ao redor e inserir os personagens no mundo de hoje. Apesar de que, obviamente, se você pegar uma revista da Mônica de 40 anos atrás, vai entendê-la perfeitamente. A essência permanece a mesma.

Inseri-los inclusive em situações polêmicas? Que envolvem sexualidade, por exemplo?
Eu sempre oriento que evitem assuntos polêmicos e politicamente incorretos. Não que eu adore o sistema de vigilância que existe atualmente, mas os costumes mudam, e os personagens têm que acompanhá-los. No entanto, não devemos levantar bandeiras. Temos que pegar a bandeira que está passando. Me cobram muito: onde estão os personagens gays? Eu respondo: estão esperando o momento em que serão vistos com naturalidade pela sociedade. Eu não quero me adiantar, mas também não quero perder o bonde.

Algum tempo atrás, a Mônica virou meme. Como é sua relação com a internet, com os blockbusters e best-sellers do momento?
Eu acompanho indiretamente. De vez em quando, convido meus filhos, netos e bisnetos para um um almoço e provoco conversação sobre assuntos do momento. Não dá para acompanhar tudo, mas eu não posso ficar completamente de fora.

Dentro do estúdio, cada vez mais estamos saindo do papel e migrando para a internet. No YouTube, temos o Mônica Toy, animações curtas que, por não terem um idioma, são entendidas por qualquer espectador ao redor do mundo. Cada semana está estourando em um país diferente e, antes do fim do ano, chega a três bilhões de visualizações.

Além do Mônica Toy, quais são as novidades da Maurício de Sousa Produções?
Recentemente, entramos no texto corrido com Turma da Mônica Jovem: Uma Viagem Inesperada [uma antologia de contos escritos por autoras e YouTubers juvenis]. Penso também em livros mais ambiciosos, com mais páginas.

Em entrevista à Veja, você comentou que pretende abrir uma empresa no exterior. Quais são os planos para o mercado internacional?
Com a explosão do Mônica Toy, nossa entrada em outros países foi apressada. Lançaremos produtos da Turma da Mônica no exterior, inclusive por meio de licenciamento, que eu sempre tive dificuldade em aceitar. Na América Latina, estamos sendo exibidos pelo Cartoon Network; no Japão, voltamos a ser publicados; na França, entramos com graphic novels. Os próximos passos serão alinhavados conforme os resultados. Não podemos fazer nada antes da hora.

Alguns leitores brincam que a Turma da Mônica é a Disney brasileira. Você concorda? Ou será que a Disney é mais uma concorrente?
Eu não considero a Disney concorrente, pois a realidade e as possibilidades deles são outras. Mas não deixa de ser uma grande vitrine para nos inspirarmos e ver o que dá para fazer por aqui. Mas muita coisa que a gente faz a Disney também faz, à moda deles.

No fim de setembro, foi revelado o elenco do primeiro live-action da Turma. Durante todas estas décadas, nunca passou pela sua cabeça fazer um filme desses?
Não. Eu não entendo de cinema. Sempre foi uma grande oportunidade, mas precisávamos estar com o pessoal da área. As produtoras que estão conosco são das melhores, e eu confio plenamente que vai sair um produto muito bom.

Com que proximidade você está acompanhando a produção?
Eles me mostram tudo que estão fazendo e, para variar, eu concordo. É o melhor que se pode fazer no cinema nacional e eu estou muito satisfeito.

Você já pensou em produzir algo fora da Turma da Mônica?
Não. A Turma da Mônica é apenas uma das famílias de personagens que eu criei. No mesmo estilo, agora vamos trabalhar as histórias das outras famílias. Espero ter uma saúde adequada para o que ainda quero fazer.

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