HQ/Livros

Artigo

Roy Crane e Wash Tubbs

Roy Crane e Wash Tubbs

Waldomiro Vergueiro
29.03.2002
00h00
Atualizada em
26.01.2017
18h02
Atualizada em 26.01.2017 às 18h02

Wash Tubbs

Wash Tubbs e Captain Easy

Wash Tubbs II

Buz Sawyer

Buz Sawyer
Na história dos quadrinhos, poucos nomes atingiram a perfeição gráfica de Royston Campbell Crane, um quadrinhista que basicamente aprendeu a desenhar a partir de um curso por correspondência e que não contou em seu currículo com grandes estudos acadêmicos. Nascido em 1901 na cidade de Abilene, Texas, Crane, desde cedo, dedicou-se ao desenho, sendo até mesmo incentivado a isso por seus pais, como uma forma de entretenimento, na ausência de irmãos com quem brincar. Após atuar algum tempo no New York World, onde basicamente colaborou no acabamento de ilustrações, obteve a chance de trabalhar na Newspaper Enterprise Association, apadrinhado por seu antigo professor do curso de correspondência, Charles N. Landon. A partir daí, com dedicação e mestria, Roy Crane transformou uma tira, que originalmente havia sido idealizada como humorística, na grande precursora de todo um gênero de quadrinhos, o de aventura.

Uma questão inicial coloca-se ao se tentar enfocar o principal trabalho do norte-americano Roy Crane nos quadrinhos. Ela envolve a decisão sobre como identificar sua série mais conhecida: por Wash Tubbs, seu primeiro protagonista&qt;& ou por Captain Easy, aquele que nela durante mais tempo pontificou&qt;&

De uma certa forma, a dúvida surge com uma certa naturalidade, pois a criação de Crane representa, sob vários aspectos, uma história em quadrinhos anterior à sua própria época. Assim, ao se identificar com uma fase criativa deslocada no tempo, Wash Tubbs (no Brasil, Tubinho) perdeu grande parte da proeminência que poderia ter tido, contrariamente ao que aconteceu com Easy, que surgiu depois, quando os quadrinhos viviam o predomínio de uma outra modalidade narrativa, com a qual ele mantinha muito mais proximidade.

De fato, surgida em 1924, alguns anos antes que Tarzan e Buck Rogers iniciassem nos quadrinhos as ousadias aventurescas que os tornaram conhecidos como introdutores do gênero de aventuras nesse meio, Wash já desenvolvia, ainda que timidamente e de forma disfarçada, em traços propositalmente caricaturescos, o mesmo nível de aprofundamento e continuidade narrativas que viriam posteriormente a caracterizar o Senhor das Selvas, criado graficamente por Hal Foster sobre o texto pulp de Edgar Rice Burroughs, e o aventureiro interplanetário do século 25, de Philip F. Nowlan e Dick Calkins. À época, poucos talvez tenham se dado conta de que se tratavam de narrativas realistas, nas quais o suspense e o exotismo misturavam-se de uma maneira poucas vezes igualada (à exceção talvez dos leitores que acompanhavam as peripécias da personagem – e, ainda assim, intuitivamente...).

Talvez estivessem aí, no desenvolvimento narrativo, as razões da grande aceitação da série, originalmente denominada Washington Tubbs II, que, em pouco tempo, caiu no gosto dos leitores de quadrinhos de seu tempo; no entanto, não necessariamente apenas nesse aspecto. Grande parte de seu sucesso pode ser também atribuída à virtuose do ilustrador responsável pela história, um texano que havia estudado brevemente na Academia de Belas Artes de Chicago e trabalhado em vários jornais antes de se ligar ao Newspaper Enterprise Association (NEA).

Como protagonista de uma série diária, Wash Tubbs era, fisicamente, aquilo que hoje se denomina um verdadeiro anti-herói: baixinho, de óculos, com os cabelos sempre revoltos, um terno amassado e uma cara de bobo que parecia sempre portar um eterno sorriso. Firmemente convicto de que era irresistível para as mulheres, ele não tinha quaisquer atributos de destaque, nem mesmo um nível de inteligência acima do normal. Embora seja até uma personagem bastante simpática e agradável, os elementos humorísticos nele sempre foram predominantes. Wash era um aventureiro que não se levava muito a sério. Inicialmente trabalhando como ajudante em um armazém, logo abandonaria essa atividade para iniciar de vez uma interminável e desenfreada busca de fama e fortuna. Passou, então, a se engajar na recuperação de tesouros perdidos no fundo do mar e a enfrentar os mais diversos tipos de bandoleiros, em geral vivendo situações totalmente picarescas.

Wash Tubbs permaneceu como o protagonista absoluto da série por vários anos, secundado eventualmente por personagens meteóricas que jamais chegaram a lhe toldar o brilho ou mesmo a lhe retirar a graça de pequeno, indomável desbravador. Esta situação permaneceu inalterada até 1929. Neste ano, durante uma aventura nos confins do deserto do Sahara, Wash, ao enfrentar mais uma de suas diversas vicissitudes, foi aprisionado e ficou sem muitas chances de escapar; conseguiu finalmente livrar-se dessas dificuldades, como sempre, mas, desta vez ,devido apenas ao inesperado aparecimento de uma personagem inicialmente mal-encarada, cujas feições pouco preconizavam de seu futuro. Assim, como aconteceu em tantas outras séries –por exemplo, em The Thimble Theatre, na qual o marinheiro Popeye debutaria naquele mesmo ano – , ao recém-chegado estavam destinadas as luzes da ribalta. Sai Wash Tubbs; entra Captain Easy.

Desde o seu início, ainda como personagem secundário, Easy revelou-se a antítese de Wash Tubbs: alto, atlético, bom de briga, normalmente de rosto sério e com uma inteligência aguçada para a solução de mistérios (embora nem sempre acertasse em suas investigações). Caiu rapidamente no gosto do público, logo se tornando o companheiro definitivo do protagonista e depois, em 1933, estrelando sua própria série dominical, Captain Easy, Soldier of Fortune (no Brasil, Capitão César). Os tempos estavam então maduros para a aventura nos quadrinhos: naquele ano e no seguinte, estrearam nos jornais algumas das principais séries do gênero, como Brick Bradford (de William Ritt e Clarence Gray); Flash Gordon, Jungle Jim e Secret Agent X-9 (todos com arte de Alex Raymond, um dos maiores artistas que já se dedicaram às histórias em quadrinhos); Red Barry (de Will Gould); Radio Patrol (de Eddie Sullivan e Charlie Schmidt) e Terry and the Pirates (do grande Milton Caniff), entre outras.

Com o ingresso de Captain Easy, a produção de Roy Crane inseriu-se plenamente no âmbito dos quadrinhos de aventura. E, com ele, chegou, também, a paulatina transformação visual da série, para um estilo mais realista, com experimentações gráficas inusitadas e um ritmo mais frenético de acontecimentos. Aos poucos, o autor foi se afastando da tira diária, que passou a assistentes, dedicando-se cada vez mais às páginas dominicais, onde encontrava espaço para ousar cada vez mais. E ele o fez. Muito.

De uma certa forma, a introdução do novo protagonista representou também uma nova etapa na carreira de Crane, que, a partir daí, tornou-se, reconhecidamente, um dos maiores mestres no uso de meios tons, obtidos por meio de Craftint, material quimicamente tratado sobre o qual se aplicava a tinta, desta forma obtendo-se vários tons de cinza. Ele aplicou essa técnica de pintura principalmente em fundos e paisagens, nela se aprimorando cada vez mais com o passar dos anos e dando a suas ilustrações características quase fotográficas, numa busca de perfeição na qual perseverou até sua aposentadoria. Além disso, o autor notabilizou-se também pelo uso constante de onomatopéias, inserindo-as perfeitamente na narrativa, de uma maneira como poucos conseguiram igualar.

Crane continuou responsável por Captain Easy até 1943, quando se afastou definitivamente da Newspaper Enterprise Association para trabalhar no King Features Syndicate, de Hearst. No King Features, lançou aquela que poderia ser denominada sua obra da maturidade, Buz Sawyer, trazendo as aventuras de um aviador da marinha norte-americana e levando ao máximo extremo as experimentações gráficas que tanto o destacaram. Em seu lugar à frente de Wash Tubbs e Captain Easy, permaneceu seu ajudante Leslie Turner, que conseguiu manter e, em alguns momentos, até mesmo superar a obra de seu criador, ilustrando a história até 1969, quando, por sua vez, passou-a para as mãos de Bill Crooks e Mick Casale.

Roy Crane faleceu em 1979, depois de passar Buz Sawyer para seus assistentes Ed Granberry e Hank Schlensker.

-------------------------

Leituras recomendadas

GOULART, Ron. Lickety whop! In: --------. The adventurous decade: Comic strips in the thirties. New Rochelle : Arlington House Publ., c1975. p.25-45.

-------------------------