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Resenha - Lampião

Resenha - Lampião

Pedro Hunter
30.06.2000
00h00
Atualizada em
10.11.2016
14h00
Atualizada em 10.11.2016 às 14h00
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Lampião... Era O Cavalo do Tempo Atrás da Besta da Vida (de Klévisson)
Ed. Hedra - formato álbum
Edição Única - 56 páginas P&B;

Lampião (ganhador do HQ Mix de 1998) é outro lançamento de quadrinhos em livraria. Embora já esteja na 2ª impressão, só começou a aparecer agora no Rio de Janeiro.

É um trabalho de qualidade. Meticulosamente pesquisado, conta os últimos momentos da vida do célebre cangaceiro do ponto de vista de um sertanejo da época (1938).
O autor, o cearense Klévisson, quis fazer uma obra que retratasse o cangaço da forma mais fiel possível. E conseguiu. Juntando fatos históricos documentados, testemunhos especialistas no assunto e de sobreviventes da época e vasta referência bibliográfica (detalhada no final do álbum) - que inclui de literatura de cordel a artigos dos jornais da época! - Klévisson faz uma perfeita reconstituição do tempo dos cangaceiros. E ainda se dá ao luxo de preparar uma bíblia sobre o assunto no álbum para que futuros autores de quadrinhos não cometam os erros mais comuns envolvendo o tema. Eu, por exemplo, poderia jurar que as bandoleiras que os cangaceiros levavam atravessadas sobre o peito carregavam munição...

A arte de Klévisson varia do mais caricatural ao bastante realista -como na seqüência que mostra as cabeças dos membros do bando de Lampião sendo expostas ao público -, de acordo com o momento da trama. A atenção para os detalhes de roupas, cenários, objetos é incrível!

Mas nada é perfeito. O álbum peca pela brevidade da história. Grande parte da edição é composta por material de referência, o que limita o espaço destinado à história em si, que termina por contar apenas uma parte bastante restrita da interessante carreira de Lampião. O tom tom é, por vezes, excessivamente didático, bem como faz-se concessão a uma imagem idealizada do cangaceiro; perdoável se considerarmos que o ponto de vista do narrador sertanejo.

Um último detalhe é que, novamente por conta da história ser contada por um sertanejo, a narrativa (e os diálogos) tem um pesado sotaque nordestino. Isso não é um problema por si, mas para este pobre nativo de além-mar, deslindar o significado de vernáculos como treleu, macaíba, fie (corruptela de filho) e similares é uma tarefa hercúlea. Felizmente, o significado dos termos mais complicados é fornecido, poupando o leitor de descobrir sozinho a natureza de um papangú di quaresma.

AVALIAÇÃO OMELETE