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Quadrinhos como arte. Enfim o reconhecimento?

Quadrinhos como arte. Enfim o reconhecimento?

JA
16.11.2000, às 00H00.
Atualizada em 16.12.2016, ÀS 06H06
Para quem não sabe, a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, é considerada o maior evento do mercado editorial, bem como o mais importante encontro de escritores do mundo. Por seis dias, representantes de 107 países negociam direitos de publicação de quase 7 mil expositores. Normalmente, este não é um ambiente muito afeito à nossa velha conhecida, a História em Quadrinhos. Pelo menos assim o era até outubro de 2000, quando a feira deu destaque à nossa querida arte seqüencial. Ela ganhou, além de um Hall especial, vários eventos relacionados. Como se não bastasse, para o assombro de quem está acostumado a ver as HQs relegadas a um segundo plano, veio uma notícia arrasadora:

"Quadrinhos são reconhecidos como Literatura! HQ é Arte!" foi o que proclamaram inúmeros jornais movidos pelo inesperado reconhecimento a uma arte (tão) popular.

Omelete Recomenda

Ilustração por Milo Manara - pornografia&qt&

Se antes, até mesmo na Europa, eles eram vistos como leitura para adolescentes e crianças. Ou, no caso dos álbuns eróticos, como pornografia, agora recebem lugar de honra num evento de prestígio global. Tratados como um gênero literário pleno, seja artística ou comercialmente. Enfim, a feira abriu suas portas às HQs como jamais o fizera qualquer outro evento de semelhante porte ou influência.

O que é algo realmente maravilhoso, pois finalmente os quadrinhos encontram um aval "oficial" de que não são apenas um objeto de consumo descartável, Mas sim uma genuína forma de arte. Dona de seu próprio valor. Ou não&qt&

Bom, que quadrinhos são arte todos nós sabemos. Senão não estaríamos contentes com as boas novas. Mas e o valor dos quadrinhos por si só, como ficam&qt&

Um ponto de polêmica que pode surgir ao se considerar os quadrinhos simplesmente como mais uma forma de literatura, é que, a partir de então, eles se tornam um "subgênero" de outro maior. Não um gênero por si só, mas uma variante deste. Talvez seja ranço tocar nesse ponto. No entanto, analisemos o seguinte:

Graphic Novel por Will Eisner, um dos maiores mestres da arte seqüencial

Quadrinhos possuem todo um vocabulário próprio, desenvolvido ao longo do último século no sentido de conseguir a mais perfeita interação entre texto e imagem possível. Elementos como o balão, a linha cinética, a onomatopéia ou mesmo a própria linguagem seqüencial são próprios deles. Elementos esses, às vezes um tanto quanto estranhos para quem ainda não está um pouco familiarizados com tal vocabulário. Mas, então, podemos nos perguntar: "Por que a polêmica se quadrinhos são feitos para serem lidos&qt&"

Bem, eles realmente são uma forma de leitura. Isso não dá para negar. Mas enquadra-los simplesmente como um gênero literário, é simplificar demais. Há quem os classifique até mesmo como "literatura visual". Todavia, ao agirmos assim, não estaríamos nos valendo do apoio de uma arte já reconhecida&qt& De uma muleta&qt& Um meio de alcançarmos nosso real objetivo, que não é outro se não o próprio reconhecimento&qt& Quadrinhos são mesmo uma forma de literatura ou são uma arte independente&qt& Quando falamos em leitura, a primeira coisa que nos vem à mente são as palavras. Afinal, sem o poder de síntese delas, como poderíamos expressar nossas idéias&qt& Perpetuar nossa história e, claro, criar nossas narrativas&qt& O ser humano é uma criatura "verbal". Nosso mundo é construído em cima das abstrações da palavra. Graças aos conceitos por ela expressos, nós podemos nos comunicar de maneira eficiente e simples, sem se importar com a eventual complexidade da linguagem. Entretanto, não podemos esquecer que, ao mesmo tempo, somos seres predominantemente visuais. Até mesmo as letras, utilizadas em qualquer alfabeto, seja arcaico ou atual, nada mais são que representações gráficas de um som ou mesmo de uma idéia. Um conceito que é representado através de uma abstração. De um desenho.

Ilustração por Peter Kuper

Quando pensamos em quadrinhos sempre pensamos no casamento entre texto e imagem, mas nós sabemos que nem todas as HQs se valem, ou necessitam do auxílio da palavra escrita para se fazer entender. Há intermináveis exemplos de gibis mudos pelo mundo. Talvez não sejam os mais populares, mas sejam os que possuem maior poder de síntese. Afinal, vão direto ao âmago da mensagem a ser transmitida. Veja por exemplo O Sistema de Peter Kuper, onde se viaja pelo cotidiano de uma metrópole e seus anônimos e complexos habitantes. Tudo isso sem utilizar uma única palavra em quase 100 páginas. Podemos, então, concluir que os quadrinhos não precisam ser lidos para serem entendidos. Ou que quadrinhos não são mesmo uma forma de leitura. Bem, a coisa não é tão simples assim Afinal, uma imagem ao ser interpretada, de uma forma ou de outra é "lida" pelo receptor da mensagem que ela expressa. E para isso é necessária uma certa bagagem, um certo repertório. Este repertório, por sua vez, só pode ser adquirido com alguma "leitura". Talvez, por isso, mesmo obras como O Sistema não sejam digestivas para o público médio. Como foi dito antes, quadrinhos lidam com todo um "vocabulário" visual, regido por regras próprias do seu meio.

No entanto, este é apenas um exemplo. E só se aplica no caso de um artista "completo", que domina todas as etapas da criação de suas HQs. E como bem sabemos, na maioria dos casos, quadrinhos são uma arte coletiva, feita a várias mãos, em especial as do geralmente desprezado roteirista.

Se quisermos aproximar novamente HQ e literatura, ninguém mais indicado a esse trabalho do que o roteirista. Na verdade, pouco difere um escritor, por exemplo, de romances do de uma HQ. Ambos se preocupam em construir uma narrativa coesa, uma trama envolvente ou mesmo um clímax digno. Infelizmente, o papel do roteirista é, via de regra, relegado a um segundo plano. Quando falamos em HQ, valorizamos em primeiro lugar a "arte", como se (veja o absurdo da coisa) escrever não pudesse ser classificado como tal. Bom, pelo menos assim é o senso comum. Afinal, o número de leitores que compram uma revista em quadrinhos por causa do visual é bem maior do o dos que sabem citar, pelo menos, dois bons roteiristas.

Por mais que a HQ seja resultado da união de ambos, sempre existe o conflito entre o texto e o desenho. As vezes, casam perfeitamente. Watchmen, é um bom exemplo. O roteiro complexo e metódico de Alan Moore é mais que coeso com os desenhos, "acadêmicos" e precisos de Dave Gibbons. Um aspecto não suplanta outro. Ambos se complementam na criação de uma grande história.

Sandman

Entretanto, nem sempre as coisas fluem assim. É notória a eterna reclamação dos fãs dos roteiros de Neil Gaiman que, em muitas HQs do Sandman, os desenhos não estavam ao mesmo nível do texto. Bem aquém, na verdade. Por sinal, Moore e Gaiman são também ótimos exemplos de como roteiristas de quadrinhos podem ser extremamente verborrágicos.

Ilustração por Rob Liefeld

Se pararmos para analisar, veremos que uma história bem escrita, mesmo que não tão bem desenhada, ainda assim conserva seu encanto. Ou seja, você vai voltar a lê-la. Já no caso contrário, a gente lê uma vez e nunca mais. Podemos até folhear de vez em quando e apreciar as figuras, mas ler mesmo... De resto, fica bonito na estante. Enfim, texto é mais do que importante na construção de uma boa HQ. Se não fosse assim, (perdoem os fãs da Image Comics) os trabalhos de Rob Liefield seriam sucesso arrebatador.

Como já foi dito anteriormente, talvez seja excessivo colocar pimenta em uma notícia como o reconhecimento artístico dos quadrinhos. Além do mais, não é a primeira vez que isso acontece. Nem será a única, por mais que a tendência sempre seja a mesma de se esquecer esse aval. Mas é difícil não deixar de pensar: "Enfim reconheceu-se o óbvio..."

Em outras palavras, os organizadores da feira de Frankfurt perceberam o que muita gente ignora: o tamanho do mercado que estavam desprezando. Afinal, segundo eles mesmos declararam que "o setor é tão dinâmico (lucrativo) quanto criativo".

Gao Xingjian

Em todo caso, é uma iniciativa mais do que positiva, pois, desta forma se quebram alguns tabus; daqueles que dificultam a valorização de qualquer forma de arte popular. Não só quadrinhos. Afinal, toda manifestação artística não restrita aos meios acadêmicos ou consagrados (as artes "maiores") são tratados como artigos de segunda mão.

E quanto ao fato das histórias em quadrinhos serem ou não um gênero literário, que cada um pondere sua posição; ou que faça como o chinês (e Prêmio Nobel de literatura deste ano) Gao Xingjian, ao ser indagado se incluía quadrinhos dentro da literatura, se deveriam ou não ser negociados numa feira de direitos autorais de livros, como a de Frankfurt. Um simples "sim" deixou clara sua opinião. O que vale é não deixar de ler os quadrinhos e, claro, de respeitá-los.

Leia também a série Quadrinhos como arte aqui no Omelete

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