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Quadrinhofilia: A sedução do inocente - parte 2

Quadrinhofilia: A sedução do inocente - parte 2

Atualizada em 03.11.2016, ÀS 20H05

A bola da vez

Agora é tempo de Mangá.

Omelete Recomenda

As bancas lotadas de quadrinhos japoneses. As TVs exibem mais animes do que nunca. E dá-lhe mangazeiro desenhando no estilo Terra do Sol Nascente. E a história é praticamente a mesma de coluna anterior em que eu tratei das seqüelas de que padecem os jovens desenhistas de heróis de colante. A coisa se agrava com a febre de cursos e revistas que ensinam a desenhar no estilo nipônico! Só que dessa vez, o fenômeno é mais generalizado. Se antes, atingira um público específico (leitores de HQ com pretensões artísticas), agora tomou de assalto os mais variados segmentos. E mesmo assim, quase ninguém sabe a diferença entre mangá e anime!


Goku e seu "cabelo de Dragon Ball"

Boa parte dos aspirantes acham que desenhar mangá é pegar o modelo pronto de uma personagem da TV, copiá-lo e fim! Sabe tudo de mangá! Sabe nada! Mangá não é só cabelo espetado, queixo pontudo, olhos esbugalhados e uma gotinha surreal do lado da cabeça! Mangá é uma ramificação dos Quadrinhos; com linguagem e narrativa próprias!

O que se vende por aí é a aberração expressa numa situação que vivi em sala de aula.

- Que tal desenhar um cabelo no seu personagem? - sugeri eu a um aluno de uns quinze anos de idade, recomendação que ele atende prontamente.

Cinco minutos depois, lá estou eu de novo.

- Ei! É o Goku! - demonstrei conhecimento.

- Que nada, professor! Não é o Goku, não!

- Mas e esse cabelo de Dragon Ball?

- Não é cabelo de Dragon Ball, não!

- Sei. - repliquei sem estar muito convencido - Mas que tal, agora, desenhar um cabelo normal? Dê uma olhada na cabeça dos seus colegas de turma...

Dez minutos depois, estou de volta, mais uma vez atento a questões capilares

- Está com menos pontas, mas ainda é Dragon Ball. - sou obrigado a constatar - Por que você não desenha um penteado de verdade?

- Ah, porque assim é mais fácil.

Ah, doce preguiça! Eis a questão.


Lobo Solitário

Aparentemente, o mangá é mais fácil de desenhar! Balela! Para desenhar decentemente o dito estilo, você tem que manjar tão bem de anatomia (e até mais) do que muito desenhista de super-herói americano! É preciso saber traçar cenários, entender de perspectiva e de enquadramento!

Com o perdão da expressão, Mangá não é simples nem aqui, nem na China! É realista nos cenários e abstrato na anatomia. Talvez por isso, os aspirantes a mangazeiros, a exemplo de seus pares que desenham heróis, tendem a fazer apenas pin-ups vazias de conteúdo. Muitas vezes, limitam-se apenas ao rosto, a parte supostamente, mais fácil...

O veneno deste vício é a perda da capacidade de observar as coisas; de percebê-las exatamente como são. Sem isso, não é possível abstrair para formas mais simples. O resultados são carimbos, não desenhos. Não há criatividade, só repetição de fórmulas.

Antes que os fanáticos me lancem à fogueira

Que fique bem claro o seguinte: adoro super-heróis e também Mangá e muitos animes, embora, no caso dos dois últimos, boa parte dos que nos chega não passe de refugo do que é produzido no Japão. Minha intenção não é pegar no pé de nenhum fã deste ou daquele estilo. Quero é chamar a atenção dos desenhistas iniciantes para ver se eles acordam antes de abrirem mão de toda a criatividade.

A meu ver, os dois universos que apresentei - mangá e super-heróis - são ricos em possibilidades. Entretanto, estão longe de representar pináculos da glória artística; nem mesmo dos quadrinhos. A bitola tanto num quanto no outro é o que há de mais nocivo para um talento em formação.

Acredito que o ideal seria absorver o máximo de cada um dos gêneros a fim de construir um estilo próprio, não simplesmente alcançar a mestria em determinado jeitão. Além disso, há a necessidade de se descobrir não só outros modos de se fazer HQ, mas outras manifestações artísticas que vão além das páginas dos gibis. Um pouquinho de cultura faz um bem danado. Afinal, outro defeito grave de muito leitor de HQ é não atentar para algo além daquilo que idolatra. Ele se alimenta indefinidamente das mesmas referências e fecha-se para toda uma gama de possibilidades.

Se você quer mesmo abraçar o gênero nipônico, que tal, então, selecionar o que tem por aí? Por isso, preparei mais uma lista de nomes, a qual poderá auxiliar os incautos que ousam se aventurar no mundo das HQs:

Guia do Aguiar para quem quer desenhar Mangás

Aqui a situação difere da minha lista de super-heróis. Na coluna anterior, organizei a relação por desenhistas. Mudei o esquema agora, porque nem todo mundo consegue pronunciar os nomes dos autores e porque os caras costumam desenhar uma série completa, coisa que dificilmente acontece nos comics americanos. Infelizmente alguns dos trabalhos que cito saíram há alguns anos e podem ser difíceis de encontrar, mas valem o esforço:

  • Lobo Solitário

    Se você não conhece Itto Ogami, o tal Lobo, não sabe o que é um mangá de verdade. Traço vibrante, texturas e linhas cinéticas maravilhosos no pincel de Goseki Kojima. Tudo a serviço de uma grande história escrita por Kazuo Koike. Esperando o quê? Corra pro sebo!



  • Akira

    Esqueça o roteiro. Pessoalmente, acho o desenho animado muito melhor nesse quesito. Veja como se desenha perspectiva, cenários e maquinário como ninguém. Cortesia de Katsuhiro Otomo. E Corra pro sebo!




  • Mai - A garota sensitiva e Crying Freeman:
    E pensar que este cara começou desenhando aquele mangá bobão do Homem-Aranha. Riouchi Ikegami domina todos os quesitos mencionados acima e, de lambuja, detona na anatomia. Quer mais? Corra pro sebo!




  • Preto e branco

    Aqui você também não precisa levar a história a sério. Só que os desenhos são o melhor exemplo daquilo que falei sobre estilo. Mangá com influência de HQ européia. Um deleite para os olhos, num traço moderno e original. Obra de Taiyo Matsumoto.



  • Gen - pés descalços
    Quem disse que tem que ser modernoso pra ser bom? Diagramação careta, desenhos comportados e a serviço do roteiro (não competindo com ele) resultaram nesse clássico nas mãos de Keiji Nakazawa.

Pra saber mais sobre mangás, animes e tantas outras palavras japoneses tão faladas no Brasil atualmente, não deixe de conferir a matéria especial o bê-a-bá do mangá.

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