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Quadrinhofilia

Quadrinhofilia

JA
29.06.2005, às 00H00.
Atualizada em 10.02.2017, ÀS 21H02

Alguém me TIRA daqui... parte 1

Omelete Recomenda

Levante a mão quem nunca leu uma história em quadrinhos na vida. É difícil encontrar alguém que desconheça o popular gibi e suas tantas manifestações existentes. As HQs influenciam as artes em suas mais variadas formas, seja na música, teatro ou cinema. Todos se rendem à sua influência. Seja como fonte inspiradora, ou como apoio a essas mesmas artes. Há mais de um século eles estão enraizados em nossas vidas. Presentes de maneira quase discreta em quase todo lugar.

Bonito isso, não?

E é tudo verdade! Mas mesmo assim, os quadrinhos continuam sem a devida atenção. Claro, quem é leitor ou autor reconhece o incontestável valor artístico que eles possuem. Mas justamente aqueles que detêm o poder de viabilizá-las economicamente se recusam a atribuir-lhes o devido valor. Mas por que esse choramingo todo? Calma, bravo leitor, vamos partir do princípio:

Talvez o mais antigo difusor de quadrinhos sejam os jornais. Desde o raiar do século XX, tiras de quadrinhos são parte importante de todo periódico que se preze. Pergunte ao seu redor: "Qual é a primeira coisa que você lê ao abrir um jornal?" Muita gente responderá que são os "quadrinhos". Esse tipo de depoimento é prova do poder fidelizador que eles possuem. Um jornal sem uma tira não parece um veículo sério, parece? Muito menos parece completo.

Mas imagine você que, um belo dia, ao abrir o seu jornal; aquela tira que você há tanto tempo acompanha diariamente não está mais lá. Certamente você vai ficar desnorteado e indignado. Principalmente se no lugar você encontrar um anúncio de um produto ou serviço qualquer. Afinal, alguém mexeu em algo seu. Ou seja, você parou para pensar que os quadrinhos são um reduto particular como leitor? Ali, entre aqueles três ou quatro quadros você relaxa e se sente seguro ao encontrar a cada novo dia aqueles personagens que fazem, sim, parte importante de sua vida.

Pensando com os bolsos

Infelizmente a maioria dos jornais (em especial departamentos financeiros e de marketing) enxergam a si mesmos como um enorme classificado, intercalado por matérias oportunas e de lazer. E os quadrinhos (segundo essa visão) estão relegados ao prazer. E como lazer, subentendidos como supérfluo. Logo, cultura que é algo supérfluo, é a primeira coisa que deve "cair" diante de um anúncio oportuno que precisa entrar em algum lugar da edição daquele dia.

Veja bem, um jornal que não vende não se sustenta. É necessário o equilíbrio financeiro para que ele não sucumba. Mas será que às vezes não é interessante pensar no lucro a longo prazo que vem da credibilidade? E, sim, bons quadrinhos feitos por bons autores trazem muita credibilidade e isso atrai mais leitores e, consequentemente, aumenta vendas. Não parece um bom negócio?

Houve tempo em que os cadernos culturais tinham um bom volume de páginas e variedade de assuntos. Neles, os quadrinhos desfrutavam de espaço respeitável. Hoje, jornais encaram as tiras quase como um favor prestado aos cartunistas.

Imagine então como é tratado o material: tiras são esticadas ou amassadas para se adequarem ao espaço pífio a elas destinado. Mas isso é um luxo apenas dos jornais que as mantêm. E muitas vezes sem remunerar o autor! Esse descaso, resultado da associação de que arte não pode ser encarada como uma profissão com a teimosia em acreditar que quadrinhos são um amontoado de desenhos fofos com legendas, faz com que os editores teimem em não reconhecer o diálogo sincero e direto que eles têm com seus leitores. Ainda mais quando estamos falando de quadrinhos nacionais.

Assim não dá para competir

Personagens consagrados (leia-se importados) sempre terão seu espaço reservado nos periódicos. Até porque, graças ao seu esquema de distribuição, inclui farta distribuição de material gratuito como forma de divulgação aos jornais de todo o mundo (estamos falando dos sindicates americanos que distribuem Dilbert, Calvin, Hagar, Peanuts, Garfield e cia.). Assim, os editores obviamente não têm mesmo porque valorizar financeiramente os quadrinhos. Se eles recebem toneladas de material de brinde, por que vão esquentar a cabeça em pagar alguém daqui para criar conteúdo exclusivo?

Eis o erro. Nossos leitores buscam material com o qual possam se identificar. Novidades que, por mais universais que possam ser, os autores estrangeiros não têm como fornecer. Ao não fomentar a produção local, pensando que assim está economizando, os jornais contribuem, e muito, para a famigerada fuga dos leitores. Afinal, nem só de fatos e fotos se alimenta o leitor. Sem falar que, ninguém compra jornal diariamente só para se atualizar dos classificados.

Intrigado com as tiras que ilustram esta coluna? Na próxima, continuarei falando de absurdos casos reais que aconteceram comigo e com outros profissionais que já publicaram tiras em jornais. Não perca!

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