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Pato Donald comemora 70 anos

Pato Donald comemora 70 anos

Roberto Elísio dos Santos
09.06.2004
00h00
Atualizada em
29.11.2016
18h00
Atualizada em 29.11.2016 às 18h00

O visual original

A primeira aparição

Donald, por Al Taliaferro

Por Carl Barks

O Superpato

Com a família, por Don Rosa

Foi no dia 9 de junho de 1934, com a estréia do desenho animado A galinha sábia, que o Pato Donald soltou seu primeiro quac nas telas dos cinemas americanos. Fazendo estripulias e com a voz do dublador Clarence Nash, o pato ultrapassou o camundongo bonzinho Mickey em termos de popularidade.

A incursão inicial do pato pelos quadrinhos ocorreu em 1934, na página dominical intitulada Silly simphonies, na qual eram quadrinizados os desenhos animados da Disney.

Al Taliaferro foi o primeiro artista a desenhar Donald. Este quadrinhista gostou demais da personagem e pediu a Roy Disney, irmão de Walt, que autorizasse a criação de uma tira própria para o pato de roupa de marinheiro. Insistiu tanto, que, após algumas tentativas frustradas, conseguiu que a distribuidora King Features Syndicate se interessasse pelo material.

Tendo iniciado o trabalho em 1937, Taliaferro acompanhou o pato até 1965, quando faleceu, tendo sido responsável pela ampliação do universo da personagem. Nas tiras de Mickey da década de 1930, realizadas por Floyd Gottfredson, Donald era adjuvante do protagonista e, ao lado de Pateta, metia-se em confusões, sofrendo nas mãos de Chiquinho e Francisquinho. No entanto, em 1937, Taliaferro concebeu três sobrinhos (Huguinho, Zezinho e Luisinho) para infernizar a vida do pato, que ficou mais adulto, embora ainda permanecesse histriônico como nas animações. Logo em seguida, apareceram o primo guloso e preguiçoso Gansolino (que já havia participado de um desenho animado), a avó laboriosa Vovó Donalda e a namorada Margarida (antes dela, Donald havia paquerado uma pata latina, com visual hispânico, chamada Donna Duck, no desenho animado Don Donald).

O pato começa a viajar pelo mundo

Ainda na década de 1930, o pato também viveu aventuras produzidas por artistas ingleses e italianos. William A. Ward fez diversas histórias para a revista britânica Mickey Mouse magazine em que Donald contracena com Donna Duck e o marinheiro Mac. Na Itália, Federico Pedrocchi, que obteve autorização do Estúdio Disney para desenhar as personagens Disney, utilizou o pato em diversas narrativas editadas nas publicações Topolino e Paperino (sendo este o primeiro título de Donald, lançado na Itália em 1937). Porém, foi com o trabalho desenvolvido para os quadrinhos por Carl Barks, egresso do estúdio de animação, que Donald teve sua rica e complexa personalidade explorada ao extremo. Barks, o homem do pato, como era chamado pelos fãs, mostrava a personagem como herói, vilão, atrapalhado, briguento, ciumento, ganancioso e preguiçoso, e sempre com muito humor. Ora antagonizado pelos sobrinhos, ora auxiliado por eles, Donald queria se tornar reconhecido em seu trabalho. Tornava-se, então, um mestre (aviador, demolidor, vidraceiro etc.), mas acabava gerando uma enorme confusão.

Nas histórias realizadas por Barks, o pato vivia aventuras em lugares distantes e estranhos (no Pólo Norte, na selva centro-americana, no Egito, nos Andes), disputava a atenção da Margarida com o primo sortudo e arrogante Gastão, travava verdadeiras batalhas com seu vizinho Silva e ainda auxiliava o tio milionário a encontrar tesouros, recebendo alguns centavos por hora trabalhada.

Além das tiras de Al Taliaferro e das histórias criadas por Barks para as revistas de quadrinhos, Donald passou pelas mãos de outros artistas, como os norte-americanos Tony Strobl e Jack Bradbury, os italianos Romano Scarpa e Giovan Battista Carpi (desenhista das primeiras aventuras do Superpato, identidade secreta de Donald, criada na Itália em 1969), o holandês Daan Jipes (que hoje refaz os roteiros escritos por Carl Barks para episódios dos Escoteiros-Mirins), o chileno Victor Arriagada Rios e o argentino Daniel Branca.

Donald chega ao Brasil

No Brasil, as tiras de Donald realizadas por Taliaferro começaram a ser editadas na década de 1930, nas páginas de publicações como Mirim, Suplemento juvenil, Guri, Lobinho e Gibi. Em outubro de 1938, Donald compartilhou com o elefante Bolinha (personagem de uma animação do Estúdio Disney) a edição de fim de mês do Suplemento juvenil. Em 1946, a EBAL lançou a revista Seleções coloridas, que apresentou aos leitores brasileiros histórias estreladas pelo pato elaboradas por Carl Barks e pelo argentino Luis Destuet.

Um pato brasileiro

Com a publicação da revista Pato Donald pela editora Abril, em julho de 1950, a personagem ganhou mais prestígio no Brasil e abriu espaço para os artistas nacionais. A primeira história em quadrinhos com Donald feita aqui foi Papai Noel por acaso, editada em dezembro de 1959 na Pato Donald número 424, que contava com arte de Jorge Kato. Depois, Waldyr Igayara, Carlos Edgard Herrero, Irineu Soares Rodrigues, Primaggio Mantovi, Euclides Miyaura, Eli Leon, Luiz Podavin, entre outros brasileiros, também desenharam aventuras protagonizadas por Donald.

Atualmente, dois artistas italianos e dois norte-americanos destacam-se na elaboração de episódios com o pato. Giorgio Cavazzano dá prosseguimento ao estilo italiano das histórias Disney, enquanto seu conterrâneo Marco Rota segue os passos de Carl Barks. Também fãs de Barks, William Van Horn e Don Rosa (autor da Saga de Tio Patinhas) dão continuidade às peripécias de Donald que tanto encantaram os leitores ao longo das últimas sete décadas. Por isso, fãs de sete a setenta anos podem continuar a ler, maravilhados e divertidos, os quadrinhos deste adorável pato encrenqueiro. Feliz aniversário, Donald.

Roberto Elísio dos Santos é pesquisador sênior do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP, jornalista, doutor em Comunicação pela ECA-USP, professor do IMES - Centro Universitário Municipal de São Caetano do Sul e autor do livro Para reler os quadrinhos Disney (Editora Paulinas).