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Os quadrinhos infantis brasileiros no início do século 21 - PARTE I

Os quadrinhos infantis brasileiros no início do século 21 - PARTE I

WV
06.02.2001, às 00H00.
Atualizada em 08.11.2016, ÀS 08H02
O FENÔMENO MAURÍCIO

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Ninguém discordaria de que os quadrinhos infantis apresentaram um significativo desenvolvimento no Brasil. Qualquer apanhado histórico sobre os nossos quadrinhos vai apontar esse fato. Mas nem seria necessário ir muito longe. Bastaria lembrar que o país conta com um artista nativo do porte de Maurício de Sousa...

De fato, esse artista, que começou humildemente em 1959, com a revista Bidu, da Editora Continental, então sob a batuta do mestre Jayme Cortez, foi capaz de retirar das revistas Disney a primeira posição em termos de consumo do público infantil de quadrinhos e colocá-las em segundo ou terceiro lugar. Em poucos anos, uma larga família de personagens possibilitou-lhe reverter a preferência das crianças brasileiras. Como lembra Moacy Cirne, em 1973 a revista Mônica vendia 195.000 exemplares, um número que cresceu para 262.000 em 1978; no mesmo período, a revista Tio Patinhas decresceu sua circulação de 484.000 para 354.000 exemplares. Essa reversão fica mais evidente com dados recentes: em janeiro de 1998, segundo aponta Roberto Elísio dos Santos em sua tese de doutoramento, a circulação total das revistas Disney no Brasil era de apenas 15% dos títulos de Maurício.

Não foi, é claro, um caminho fácil. Depois de conseguir ser publicado brevemente pela Continental, Maurício de Sousa levou vários anos para ter suas personagens aceitas por uma grande editora. Isso só aconteceu em 1970, quando a Editora Abril publicou a revista Mônica. Outros títulos seguiram, em sucessão, como Cebolinha (1973), Cascão (1982), Chico Bento (1982) e, posteriormente, Magali (1989) e Parque da Mônica (1993), as duas últimas lançadas pela Editora Globo.

O resto é história: o sucesso das revistas abriu muitas portas para Maurício de Sousa, possibilitando-lhe a utilização de personagens em merchandising, produção de filmes e desenhos animados, bem como a exportação de histórias para outros países, como França, Filipinas e Itália, além da incursão em parques temáticos estilo Disneylandia, como os Parques da Mônica nas cidades de São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. Atualmente, ele se desdobra na direção de uma empresa de razoáveis dimensões, a Maurício de Sousa Produções Artísticas, produzindo histórias em quadrinhos, material de publicidade, cartuns, desenhos animados, etc.

Essa trajetória de sucesso não é desprezível, mas, sim, um acontecimento que merece ser destacado com orgulho por todos os defensores do quadrinho brasileiro. Nesse sentido, o país tem motivos para regozijo, mesmo que o sucesso de Maurício de Sousa tenha seu brilho levemente toldado quando se considera que sua empresa produz histórias em quadrinhos da mesma forma que a de Disney, utilizando equipes anônimas de artistas que não recebem crédito formal pelo trabalho. Ou que, em termos gerais, suas principais personagens apresentem pouca diferença das de Disney, pois, ao buscar a universalidade, A Turma da Mônica deixou o meio ambiente brasileiro quase que completamente de fora de suas histórias, evitando referências ao local em que elas ocorrem, bem como outros elementos que possam ser descritos como característico da cultura brasileira (o resgate de nossa realidade ocorrerá com o Chico Bento, é verdade, trazendo ao público a vida do povo rural brasileiro e enfocando características específicas de uma comunidade ligada aos valores da terra e da agricultura, bem como nas histórias do indiozinho Papa-Capim, normalmente enfatizando os malefícios causados à natureza pelos desmandos do homem branco...).

Mas, infelizmente, como diria Voltaire, ainda estamos longe do melhor dos mundos possíveis...

De uma certa forma, deve-se reconhecer que Maurício de Sousa representou tanto um bem quanto um mal para os quadrinhos infantis brasileiros. Se, por um lado, ele deixou evidente a possibilidade de derrotar o modelo norte-americano em países periféricos, por outro, tal como os quadrinhos Disney faziam antes, montou um sistema de produção que monopolizou o mercado, sufocando outras iniciativas de produção de quadrinhos para o público infantil. Se isto já era evidente ao final da década de 70, quando as revistas de Maurício concretizaram sua vitória sobre os quadrinhos infantis norte-americanos, torna-se especialmente problemático no início do século 21, quando o consumo de histórias em quadrinhos se encontra em declínio e surgem dificuldades para a renovação de leitores.

No próximo artigo desta série, as inúmeras tentativas das três últimas décadas

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