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Entrevista

Omelete entrevista: Keno Don Rosa

Omelete entrevista: Keno Don Rosa

Pedro Hunter
05.08.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h14
Atualizada em 21.09.2014 às 13h14

Com a publicação da história A Saga do Tio Patinhas, os fãs brasileiros finalmente conheceram aquele que é o mais importante artista das HQs baseadas nos personagens de Walt Disney da atualidade, o americano Keno Don Rosa.

Mas quem é este criador afinal? Como e por que ele decidiu usar seus consideráveis talentos para criar aventuras do Tio Patinhas e seus sobrinhos? Tudo isso e muito mais será revelado nesta exclusiva entrevista de Don Rosa para o Omelete!

Pode-se ver pelos seus trabalhos que você é um grande fã de Carl Barks. Como foi a sua descoberta da obra de Barks?

Fui criado junto com uma irmã que era (e ainda é!) onze anos mais velha do que eu. Ela sempre lia quadrinhos e guardava todos eles. Desde que nasci, a nossa casa estava cheia de gibis antigos. Cresci, então, com as memórias de um leitor de quadrinhos onze anos mais velho do que eu, já que lia e relia todas as revistas antigas de minha irmã.

Graças à coleção dela, eu tinha um grande conhecimento de quadrinhos. Normalmente, eu não teria começado a acompanhar HQs antes de 1960 (Nota: Rosa nasceu em 1951), mas, por causa dela, era como se eu estivesse lendo desde 1949. E, nos Estados Unidos da década de 50, os quadrinhos mais populares eram os patos de Carl Barks, que vendiam mais do que todo o resto.

Minhas revistas em quadrinhos preferidas quando eu era criança eram as de Carl Barks, os quadrinhos da MAD (precursores da MAD atual) e, mais tarde, as HQs do Super-Homem dos anos 50 e início dos anos 60, editadas por Mort Weisinger. Eu também adorava assistir filmes antigos na TV, mesmo quando era muito novo (os outros garotos gostavam de desenhos animados, eu preferia os filmes antigos). Você pode encontrar elementos de todas essas coisas nas minhas histórias... Não apenas do trabalho de Barks.

Quando foi que você começou a produzir quadrinhos?

Até onde consigo me lembrar, estive escrevendo e desenhando quadrinhos como passatempo. Eu não simplesmente sentava e desenhava figuras individuais... tudo que desenhava tinha de fazer parte de uma grande trama. Eu enchia os blocos de notas que meu pai trazia do trabalho com essas HQs, um quadrinho em cada uma das pequenas páginas. Ninguém nunca viu essas histórias além de mim... era minha diversão. Eu ainda tenho todas elas!

Mais tarde, fiz cartuns para os jornais da escola, mas desenhar não era muito divertido se eu não estivesse contando uma história. Comecei uma história em quadrinhos para o jornal de faculdade lá por 1972 e foi lá que apareceu a primeira versão de Son of the Sun (Filho do Sol), com minhas próprias personagens. Eu depois transformaria essa roteiro na minha primeira HQ com os patos (Nota: Son of the Sun, ainda está inédita no Brasil).

Depois da faculdade, fiz desenhos, artigos e histórias para fanzines de quadrinhos. Eu me formei em engenharia civil... Estava administrando a empresa de construção da família depois da formatura. Quadrinhos eram só um hobby. De graça.

Pediram-me para fazer uma tira semanal para o jornal local e eu criei o super-herói humorístico Capitão Kentucky. Trabalhei nele por três anos. Mas era só por diversão. De graça... nunca pensei em fazer disso meu ganha-pão.

Como foi que você se envolveu na criação de HQs Disney?

Sempre fui um colecionador inveterado de HQs, de todos os tipos, não apenas as da Disney. Mas a indústria de quadrinhos americana desmoronou no início dos anos 70 por causa de coisas como TV. A editora americana das HQs Disney deixou de publicar, porque não ganhava mais dinheiro com isso e os Estados Unidos ficaram SEM quadrinhos Disney por cerca de 10 anos, até que uma pequena editora no remoto estado do Arizona decidiu obter a licença para publicá-los. Eles eram meus amigos, colecionadores e fãs de gibis que eu conhecia e queriam a licença da Disney porque adoravam os trabalhos de Carl Barks.

Eles se batizaram Gladstone Comics para ver se dava sorte [o nome é uma homenagem ao primo do Donald, Gastão, Gladstone em inglês] e conseguiram a licença para fazer HQs da Disney na América do Norte porque ninguém mais queria. Só havia 3 ou 4 pessoas na editora inteira!

Quando eu vi pela primeira vez uma revista Disney da Gladstone em 1987, foi uma grande surpresa. Elas não eram como as últimas publicações Disney que tivéramos dez anos antes que eram terríveis, histórias idiotas para crianças pouco inteligentes. Eram HQs feitas por gente que claramente AMAVA o material e respeitava os autores. Eles publicaram os nomes dos criadores de quadrinhos da Disney pela primeira vez no mundo!

Eu sempre sonhara em escrever e desenhar UMA história do Tio Patinhas, mas nunca tinha pensado muito em fazer isso já que não havia gibis da Disney por aqui na época em que eu saí da faculdade. Telefonei para o editor e contei a ele que eu tinha nascido para escrever e desenhar o Tio Patinhas. É o meu destino. Como ninguém mais nos Estados Unidos estava interessado em criar novas aventuras Disney, porque não dava muito dinheiro, ele topou. Então, um dia, eu não imaginava jamais fazer quadrinhos profissionalmente e, no seguinte, estava criando uma aventura inteira do Tio Patinhas.

Eu só pretendia fazer essa, mas os leitores adoraram (apesar de minha arte autodidata, esquisita e amadorística) e criei outra. E outra. Por fim, vendi a empresa de construção da família e passei a fazer quadrinhos do Pato Donald e Tio Patinhas em tempo integral. Depois, eu comecei a trabalhar para editoras européias quando a pequena Gladstone deixou de publicar (e os Estados Unidos ficaram de novo sem HQs Disney).

[Nota: Don Rosa é demasiado modesto. Son of the Sun é uma verdadeira obra-prima e merece toda a aclamação dada pelos americanos.]

Você tem idéia de quantas histórias do Pato Donald/Tio Patinhas já fez?

Nossa, eu não sei. Há fãs que mantém registro disso em sites da Internet, mas eu nunca contei. Sei que não são muitas. Eu sou MUITO lento, como você pode imaginar pela minha arte demasiadamente detalhada e minhas tramas desnecessariamente complicadas, mas é o único jeito que eu sei trabalhar. Nunca estudei como fazer arte mais rápido para maximizar meu rendimento... Eu aprendi a desenhar de forma leeeeeeeenta, para ocupar o máximo do meu tempo livre. E agora fiquei amarrado a esse estilo. Não faço mais do que três histórias por ano, enquanto Barks, por exemplo, podia fazer 15-20 aventuras clássicas no mesmo período!

De qualquer forma, me disseram, uma vez, que fiz umas 70-75 histórias. Aparentemente há milhares de sites grandes e pequenos sobre meu trabalho que podem responder esta pergunta, mas aqui tem uma lista dos melhores, se alguém estiver curioso:

...esse último tem uma excelente página de links que pode levar vocês a muitos outros.

[Nota: A maior parte desses sites, todos muito interessantes, está em inglês. Visitando-os descobrimos que Rosa fez 81 histórias, com mais duas aguardando publicação.]

Qual é a sua preferida?

Entre as minhas? Normalmente, eu detesto todas na hora em que termino. O trabalho é muito tedioso e difícil para mim. Como disse, eu odeio desenhar - é um trabalho duro para mim e acho que faço isso muito mal. Então, quando acabo de passar dois ou três meses trabalhando em uma única aventura, estou certo de que a coisa toda foi um erro terrível. Preciso olhar de novo cerca de um ano depois para ver o que eu realmente acho.

Mas eu gosto das minhas Hearts of the Yukon e A little something special (a história oficial do 50º aniversário do Tio Patinhas). Ambas são muito sentimentais, mas com boas piadas e muita ação... uma mistura que eu não acho que consigo fazer com muita freqüência.

[Nota: Caso estejam se perguntando, nenhuma das duas foi publicada no Brasil. A Abril poderia fazer um especial com elas um dia desses...]

Agora vamos para sua Saga do Tio Patinhas. De onde você tirou a idéia de fazer uma HQ biográfica do Tio Patinhas?

A Disney tirou a licença de publicação da Gladstone em 1990 quando viu como a pequena editora estava se saindo bem e decidiu produzir suas próprias HQs pela primeira vez na vida. É importante mencionar que todos os quadrinhos Disney feitos pelo mundo por setenta anos tinham sido criados por escritores e ilustradores contratados por editoras independentes licenciadas... NÃO pela Disney. A Disney não teve nada a ver com a coisa.

Então, a Disney tentou finalmente publicar seus próprios gibis e foi um desastre. Os leitores detestaram o estilo e a companhia desistiu três anos depois. Mas, em 1991, eu soube que eles pretendiam fazer uma série sobre a vida do Tio Patinhas. Achei que seria uma tragédia - o pessoal da Disney não era fã dos quadrinhos Disney e não sabia nada sobre eles ou sobre Barks, etc. Porém, se a Disney produzisse a série, ela seria considerada oficial, não importa o quanto fosse ruim ou incorreta. Então, eu entrei em contato com minha editora européia, Egmont, e lhes disse que tinham de executar essa idéia antes da Disney, já que sabiam o que estavam fazendo. E eles disseram que eu deveria fazer o trabalho.

Quanto tempo levou para você completar a história original (os 12 capítulos mais o prólogo)?

O que você chama de prólogo (habitualmente denominado capítulo 0) foi feito antes de eu saber que faria a série. Quando foi decidido que seria eu o responsável, a publicação dessa aventura foi adiada por dois anos e meio até os doze episódios serem publicados. Mas, antes de começar a trabalhar na saga, eu escrevi uma sinopse em doze partes de todos os períodos da vida do Patinhas, baseados na obra de Barks, que a trama teria que cobrir. Então, mandei essa sinopse aos mais famosos fãs de Barks pelo mundo (inclusive o próprio Barks) para que me aconselhassem. Criei a versão final dos doze capítulos baseada nesse esboço.

Enfim, como disse antes, levei cerca de dois anos e meio para fazer esses doze capítulos.

[Nota: O prólogo mencionado na entrevista é uma história que mostra a Maga Patalójika voltando no tempo para tentar roubar a moedinha número 1 do Tio Patinhas no momento em que este a recebe. Ela não foi incluída na edição nacional- embora conste de várias das edições estrangeiras - e continua inédita no Brasil.]

Qual sua opinião sobre o trabalho completo?

Bem, enquanto estava fazendo, eu imaginei que só seria popular entre os velhos estudiosos de Barks! Quer dizer, o roteiro de cada capítulo era todo amarrado pelos detalhes da obra dele, que eu precisava mencionar, sem deixar nenhum de fora, sem ignorar um único fato mesmo quando não se encaixava direito. Eu achei que estava fazendo histórias que só um velho especialista em quadrinhos iria apreciar.

Mas essas aventuras aparentemente tornaram-se as mais famosas e populares HQs Disney feitas desde que Barks se aposentou em 1967. Até leitores que não eram fãs dos patos, não sabiam nada dos gibis originais e leram só para ver qual era a da série disseram que adoraram (algo que eu nunca vou entender!).

Talvez os leitores tenham visto todo o amor, devoção e o tremendo esforço extra que eu estava colocando nesse trabalho? Não acho que história alguma da série seja grande coisa, mas acho que a saga inteira, vista como um único épico, é talvez um pouco boa. Tenho MUITO orgulho dela!

Você fez algumas histórias extras para a saga, expandindo-a bastante. Por que sentiu necessidade de fazer isto?

Porque os leitores disseram que queriam. As editoras pediram. E eu ADOREI fazer. Criar histórias para a Saga do Tio Patinhas demanda muito mais esforço do que fazer qualquer outra. Bom, fazer as caçadas ao tesouro historicamente corretas e continuações de clássicos de Barks também. Isso só minimiza a quantidade de dinheiro que eu recebo neste trabalho, já que são processos lentos. Mas são essas histórias complexas e profundas que eu mais gosto de fazer. E fiquei MUITO feliz em acrescentar capítulos quando os editores solicitaram.

Você ainda planeja adicionar mais histórias no futuro?

Oh, sim. Talvez mais um daqui a pouco tempo.

Na Europa, há uma grande produção de HQs Disney e elas são publicadas em quase todos os países, com grande sucesso. Nos Estados Unidos, terra natal dos quadrinhos Disney, só uns poucos criadores produzem-nos (normalmente para editoras européias) e a publicação tem sido esparsa nos últimos anos. Por que isso acontece?

Na verdade, não existe outro artista nos Estados Unidos que faça quadrinhos Disney além de mim. Há vários escritores... escrever não é uma atividade tão trabalhosa e demorada quanto desenhar.

Quadrinhos Disney não pagam bem porque os criadores não ganham nenhuma porcentagem nos lucros da publicação. Elas podem ser publicadas e republicadas ao redor do mundo, e em edições caras e elaboradas, mas os criadores não recebem um tostão a mais. Por exemplo, eu não recebo nada pela edição do meu trabalho no Brasil, nem o editor brasileiro necessita da minha permissão para publicar meu trabalho. Eles são, no entanto, pessoas muito legais e estão em contato comigo para que eu possa ajudá-los a corrigir erros no material e produzir boas versões de minhas obras. Mesmo não sendo pago pelo uso de meu trabalho, ainda tenho muito orgulho dele e tenho grande dedicação a meus colegas fãs de quadrinhos e de Barks. Quero, então, ajudá-los a ver as melhores versões de minhas histórias possíveis.

Dessa forma, praticamente toda a arte dessas HQs é produzida por estúdios em países como Chile e Espanha, lugares onde os salários são mais baixos, uma equipe de artistas pode ser contratada para produzir o material rapidamente, profissionais que não ligam por não receberem royalties e coisas do gênero. Voltando à questão, cartunistas nos Estados Unidos esperam receber uma parcela dos lucros obtidos por aquilo que fazem (naturalmente). O sistema da Disney ainda funciona como eram os quadrinhos há cinqüenta anos, com todos os lucros indo para a editora e para a Disney. Então, nenhum outro americano quer fazer quadrinhos Disney dessa maneira.

Você acredita que as coisas vão mudar agora que a Diamond/Gemstone vai publicar as HQs Disney nos Estados Unidos (leia mais)?

Não. A Gemstone não está mudando o sistema. Eles não vão contratar escritores e desenhistas para fazer novas histórias, porque têm um suprimento inesgotável de páginas européias (e de reimpressões de Barks) que podem utilizar praticamente de graça.

Estou MUITO feliz em ver a Gemstone produzindo HQs de novo (porque a Gemstone é composta exatamente pelo mesmo pessoal que fazia parte da Gladstone), mas a única vantagem que me dá é que eu vou finalmente ver minhas histórias publicadas novamente em uma língua que eu sei ler!!! Foi muito frustrante nos últimos quatro anos dedicar tanto esforço para escrever e desenhar histórias que não podia ler quando publicadas!

Você ainda trabalha para as editoras européias (Egmont, Hachette) ou transferiu sua produção para a Gemstone?

Como eu disse, a Gemstone não vai contratar escritores e desenhistas. Eu poderia fazer uma capa para eles de vez em quando, mas talvez nem tenha essa chance pois podem usar livremente as capas que já fiz para a Europa.

Eu escrevi uns textos para a Gemstone sobre como acompanhar algumas das minhas histórias, mas, por enquanto, é tudo que precisavam de mim.

Você fez uma história com a personagem brasileira da Disney Zé Carioca (O retorno dos três cavaleiros, publicada no Brasil em Zé Carioca 2182). O que você acha do Zé? Trabalharia com ele novamente?

Sim, eu adorei o filme The three cabaleros (no Brasil, Você já foi à Bahia?) de 1944! Sempre o considerei o melhor emprego que a própria Disney já fez do Pato Donald. Gostei da interação dele com as outros personagens... era uma grande equipe. Então, eu queria reintroduzir essas personagens em uma história onde o Donald tem dois parceiros. Não caras que estão sempre abusando dele ou achando-o um panaca, mas dois amigos que gostam dele e o respeitam.

Eu falo reintroduzir porque nunca usaram o Zé Carioca (ou Panchito) nos Estados Unidos depois de 1945. Houve umas HQs na época, mas, logo depois, o Zé desapareceu completamente dos quadrinhos americanos! É claro que ele foi uma personagem MUITO importante no Brasil em todas essas décadas (e também, por algum motivo, na Holanda)!. Mas não no resto do mundo.

O que eu acho da personagem? Bem, tudo o que eu conhecia dele era como aparecia no filme de 1944, e lá não sabe muito a seu respeito. Assistindo ao filme, eu tive a impressão de que era um artista, um cantor de boate, que está guiando o Donald pelo Brasil. Mas eu pesquisei as aventuras brasileiras do Zé e descobri que ele era uma espécie de malandro que está sempre tentando conseguir comida ou alguma outra coisa dos ricos. Como eu não cresci com essa versão do Zé Carioca, não consegui aceitá-la! Sinto muito! Não era uma personagem com quem eu quisesse fazer uma história. Então, temo que tenha inserido uma nova personalidade no Zé. Na minha história, eu o transformei em um artista de boate de segunda categoria falido (mas mantive seu interesse por belas garotas!). Se eles reimprimirem meu O retorno dos três cavaleiros no Brasil, espero que os leitores não se incomodem com minha nova versão.

Mas eu realmente gostei de fazer aquela história e espero criar outra assim no futuro.

[Nota: Na verdade, a personalidade malandra do Zé Carioca não é uma criação nacional. Ela vem das tiras de jornal americanas da personagem publicadas durante a Segunda Guerra - desenhadas pelo lendário artista do Mickey, Paul Murry - bem antes do nascimento de Rosa. O engano dele provém do fato de elas nunca terem sido reimpressas nos Estados Unidos, embora já o tenham sido no Brasil. Mas o Zé Carioca é uma personagem bem flexível e, até onde se sabe, nenhum leitor parece ter se incomodado com isso quando a história saiu por aqui anos atrás.]

Você já fez (ou planeja fazer) uma história onde o Tio Patinhas e seus sobrinhos viajam para o Brasil? Tem alguns tesouros perdidos por aqui...

Eu fiz uma história em que os patos vão à Floresta Amazônica e retornam ao Vale Proibido, o mundo perdido de dinossauros visto na antiga aventura de Barks. E, já que eu situei minha primeira incursão dos três cavaleiros no México (país de Panchito), talvez eu devesse situar a próxima no país do Zé?

Você já viu uma HQ Disney brasileira? O que achou?

Acho que já respondi parte disso acima. Vi muitas histórias brasileiras, mas elas estavam em português e eu não podia ler. Então, não sei o que dizer. A arte era, claro, MAGNÍFICA!!! Não sei quem são os muitos artistas que desenharam o Zé, mas gostaria de ser tão bom quanto eles.

[Nota: Quando mandei as perguntas por e-mail para o Don Rosa, as HQs Disney ainda não eram creditadas no Brasil. Isso mudou parcialmente desde então. Mas uma vez que os criadores nacionais ainda não recebem crédito - pois as histórias antigas não estão sendo creditadas pela Abril e não há HQs Disney nacionais novas - o desconhecimento ainda procede.]

O Brasil é um dos poucos países em que os criadores de quadrinhos Disney ainda não são creditados nas revistas. Qual é a sua opinião sobre esta política?

Esta é uma pergunta fácil de responder. Não há pessoa direita que possa pensar que esta é uma boa idéia. É obviamente uma injustiça!!! Eu já vi alguns países em que os nomes dos editores e tradutores são creditados, muito embora não tivessem nada a ver com a criação das histórias, vindas de outros países, mas as pessoas que fizeram todo o trabalho NÃO foram mencionadas. Não há motivo para um hábito arcaico assim continuar - é um resquício de políticas de cinqüenta anos atrás!

Já ouvi editores alegarem que fazem isso, porque não querem estragar a magia das crianças acharem que todas as histórias são feitas por Walt Disney (apesar do fato de ele nunca ter feito nenhum delas e já ter morrido há 35 anos!), mas é uma explicação absurda.

Suspeito que ainda há editores que têm medo de que, se constarem os nomes do criadores nas HQs, eles talvez estejam se comprometendo legalmente a pagar royalties. Eu não sei - não há uma explicação que possa fazer mais sentido do que isso. Quando a Gladstone começou a imprimir os créditos completos das histórias em 1987, todas as editoras européias logo adotaram a idéia (exceto a Islândia, por algum motivo. Acho que ainda estão congelados no gelo do passado). Se for verdade, como você diz, que a editora brasileira ainda não imprime os nomes das pessoas que são responsáveis pela existência dos quadrinhos, devo dizer que lamento. Obviamente, estão colocando meu nome na Saga do Tio Patinhas, mas, se não derem a TODOS os criadores o mesmo respeito, isso é errado (e eu espero que os grandes escritores e artistas brasileiros não fiquem com raiva de mim!).

[Nota: Novamente eu lembro que, desde que fiz essa entrevista, a Abril passou a colocar alguns, não todos, os créditos dos criadores nas histórias. Mas ainda há um longo caminho a percorrer até que todas elas sejam devidamente creditadas.]

Você tem algo a dizer para os leitores que verão seu trabalho pela primeira vez nas edições nacionais da Saga do Tio Patinhas?

Hum... Por favor, não liguem para todos os detalhes irritantes e desnecessários nem para a arte esquisita e tentem gostar das histórias assim mesmo.

Ah... e Por favor, digam aos editores ou ao pessoal de algum evento de HQs para me convidar ao Brasil para conhecer os fãs, porque eu sempre quis visitar o país!!!!!!!!!